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Cássia Fernandes

Quando a beleza rouba a cena

País celebra o escracho e o deboche | 25.05.12 - 12:02

Não é a primeira vez que isso acontece e por isso me provocou incômodo. No dia em que Dilma tomava posse na Presidência da República, pela primeira vez uma mulher assumindo o mais alto posto do País, a imprensa virou os olhos para a bela moça que acompanhava o senador Michel Temer. Qual é mesmo o nome dela? Não é certamente por acaso que já não me lembro. Aquela jovem, esposa do septuagenário senador, teve seus 15 minutos de celebridade, destacando-se pela sua bela figura, por sua bonita trança, atraindo a atenção que se desviou do que realmente importava.
 
Hoje novamente, num momento em que o País assiste a mais um dos seus muitos escândalos políticos, lá vem um novo rosto feminino roubar a cena. Por toda parte, nas mais lidas e respeitadas colunas dos jornais, nos programas de TV, notas sobre a mulher de Cachoeira, elogiando sua beleza, registrando o impacto de sua presença nos lugares por onde circula. De repente, elegeu-se uma musa da CPI. Jornais se ocuparam de discutir se ela posaria ou não para uma revista masculina, a conceder-lhe o título de uma das mais belas mulheres de Goiás, a mencioná-la como uma das belezas que o Estado tem para se orgulhar.
 
Orgulho? Orgulhar-se de produzir aqui uma musa da corrupção? Tal fato me encheu sinceramente de uma profunda tristeza. E um pesar não só como mulher e como goiana, mas como brasileira. Um país que assim age, não acredita e não tem mais respeito por si mesmo. Um país que promove a celebridade uma mulher por ela ter como atributos sua beleza e o fato de se ligar a um homem poderoso, endinheirado e acusado de crimes graves, perdeu por completo a compostura; celebra o escracho, o deboche.
 
A testemunhar e analisar o primeiro episódio, ocorreu-me que o Brasil ainda precisa caminhar muito para aprender a reconhecer as mulheres por seu verdadeiro valor, para encará-las como sujeitos da história e não como meros objetos de consumo. Ao desviar a atenção para a jovem e linda esposa do senador, era como se a imprensa e de certa forma a sociedade dissessem: de nada vale a uma mulher destacar-se por sua competência, por seu trabalho, por suas lutas políticas, ao fim o que conta e o que pesa é que ela seja simplesmente bonita.
 
Neste segundo e mais recente episódio, a valorização da beleza da mulher de Cachoeira, o excessivo destaque que sua aparência vem tendo na mídia revelam um tanto de nossos valores. É como se aplaudíssemos a ligação de uma jovem e bela mulher com o dinheiro, com o poder, como se aceitássemos e legitimássemos o fato de a beleza e a juventude serem uma moeda ordinária de troca. Moeda para um mundo de moradias, viagens e carros luxuosos, de sofisticados tratamentos de beleza e elegantes figurinos, custeados direta ou indiretamente com dinheiro público, obtidos com o desrespeito às leis que deputados e senadores criaram. Não vemos nisso nada de imoral, pelo contrário: muito bonito nos parece.
 
Não cabe a mim ou a qualquer um, naturalmente, julgar a natureza dos sentimentos ou interesses que poderiam ligar a mulher a seu parceiro, mas o foco que me que parece vem sendo dado a essa união, a forma como vem sendo destacada e aplaudida nos dizem algo sobre nossos valores e caráter como jornalistas, como povo. Então, com base no tom elogioso do discurso reinante, pode-se deduzir que é este um modelo em que devem as mulheres, as meninas brasileiras se inspirar? Devem fazer de tudo para se ligar a um homem endinheirado e nada idôneo, e assim obter os seus 15 minutos da tão desejada fama? Mulheres sem calcinha fotografadas ao lado de um velho presidente, mulheres que estouram fogos em um estádio e que por causa desses méritos vão estampar páginas de revistas masculinas. Nosso passado recente é pródigo em exemplos do escândalo, da desfaçatez e do oportunismo como o passaporte para a fama instantânea.
 
E algo de mais perverso percebo em tudo isso. De repente, redirecionamos o olhar da feiura da corrupção, do que ela realmente é e significa, das crianças que ficam sem escola e comida por causa de fraudes, de milhões desviados ou mal administrados, dos doentes que morrem nas filas das unidades públicas de saúde, para fitarmos um rosto belo. E fitando a beleza, sem qualquer pudor ou rubor de obsoleta moralidade, sem refletir sobre seu significado, sobre o que há por trás dela, esquecemos de tudo, esquecemos do verdadeiro propósito de uma CPI. Sim, a beleza hipnótica nesse caso rouba, não a cena; a beleza nos desvia e literalmente nos rouba a dignidade, a vergonha, a esperança de um país minimamente decente. A beleza pode ser feia, muito feia, como um triste retrato de Dorian Gray.
 

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