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Adriano Paranaiba

Ensino, pesquisa e...business?

Estudar pra quê? | 08.06.12 - 10:35

Quando nos deparamos com um artigo que tem como título ensino, pesquisa e extensão já começamos a imaginar que se trata de um texto sobre a discussão da importância do ensino. A combinação destas três palavras aciona em nosso cérebro a construção da figura de um pedagogo versando sobre os desafios da educação brasileira. E quando escutamos a palavra business? Não sei você, mas quando escuto essa palavra só me lembro do Roberto Justus comandando o programa O Aprendiz, ou do Eike Batista (até a fisionomia dos dois ajuda). E, realmente, existe no censo comum uma dicotomia destes conceitos, e até uma disputa para saber quem é mais importante: prática ou teoria, como se fossem metades de laranjas diferentes.
 
Para mim, que sou economista, enxergo os pedagogos como os fiéis depositários da responsabilidade de transmitir e vivificar a chama do zelo pelo aprendizado do aluno, que, por lei, cabe a todos docentes. De fato, são verdadeiros guerreiros: encaram o 'front' desta guerra como soldados impulsionados pelo espírito freiriano de quebrar os grilhões da ignorância, inspirados nos ideais de solidariedade humana e inflamados pelos princípios de liberdade. A finalidade é clara na Lei de Diretrizes e Bases da Educação: alcançar o pleno desenvolvimento do educando, preparando-o para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. Não quero criticar as correntes ideológicas que são utilizadas para lutar à favor do alcance do exercício da cidadania, mas faço críticas aos que  lutam apenas por lutar, esperando que cordeiros se tornem leões. Mas se assim estão, não é por culpa dos pedagogos, mas nossa, que os tratamos como soldados feridos que foram esquecidos, deixados para traz – abandonados à própria sorte.
 
Digo isso porque, tanto quando me graduei, como quando concluí meu mestrado, a pergunta que me faziam, e várias pessoas nesta situação escutam também, é: “E ai? Você vai para a academia (docência) ou vai para o mercado de trabalho?” E por que desta concepção? Temos em nossa mente o referencial de que é na prática que vem o sucesso profissional, e cada dia mais vemos palestras de empresários bem sucedidos que apontam sua receita de sucesso profissional desassociado do desempenho acadêmico. O consenso das receitas destes grandes nomes do business coloca o estudo como acessório, onde muitos abandonaram a faculdade para alcançar o sucesso: Bill Gates, fundador da Microsoft, e Mark Zuckeberg, fundador do Facebook, abandonaram Harvard; Steve Jobs, fundador da Apple, abandonou Reed College, em Portland. No Brasil, a coisa é banalizada: de Lula a Tiririca o ensinamento é: estudar pra quê?
 
Como resposta temos, atualmente, no Brasil o chamado apagão de mão de obra qualificada. Atualmente as empresas cobram cada vez mais dos funcionários visão crítica e capacidade de identificar e analisar problemas e de propor soluções, aumentando a competitividade das empresas, e que são características que aumentam também a competitividade do profissional que seja portador destas qualidades. Somente o ensino pode cravar isso nas pessoas. Na verdade, apenas a instituição que não dicotomizou a pesquisa e a extensão do ensino é capaz de tornar-se uma verdadeira 'usina em que se forja profissionais muito mais preparados'. 
 
Convergindo à nossa realidade local, semana passada pude participar da Jornada Científica da Faculdade Araguaia, onde consegui ver a fagulha deste ideal acesa. Estudantes da graduação percebendo que escrever artigos científicos, participando de mesas de discussão de temáticas específicas da profissão que buscam graduar-se, tem um significado muito maior que colocar seus nomes nos cadernos e revistas científicas ou acumular horas complementares: é poder exercer a aplicabilidade de todo o conhecimento adquirido para o mercado de trabalho! Os alunos perceberam que fazer Pós Graduação e Extensões é garantir que participem como membros ativos do processo de inovação, seja radical ou incremental, dos modos de produção, processos e formas de organização. Se falamos muito do poder transformador da educação, que imputando o pensamento reflexivo é capaz de desenvolver o entendimento do meio em que vivemos para pensar e repensá-lo, por que não acreditar na capacidade de transformar as empresas? Acredito que mesmo abandonado a universidade, Gates e Zuckeberg se aconselham e empregam executivos, diretores e vice-presidentes PhDs em Harvard.

Adriano Paranaiba é economista, professor e coordenador de cursos de pós-graduação na Faculdade Araguaia.
adr.paranaiba@gmail.com 

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