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Rogério Lucas

O que sei sobre Cachoeira

Um é adversário, os outros são aliados | 16.07.12 - 14:09

“Símbolos. Tudo símbolos...
Se calhar, tudo é símbolos..."
 
Fernando Pessoa, por Álvaro de Campos, em Psiquetepia (ou Psicotipia). 
 
Irreverente ao melhor estilo da velha esquerda, meu amigo @renato_monteiro andou me provocando pelos idos de março a que falasse sobre vida e obra de Carlos Cachoeira. Como não sabia de nada, estive observando ao longo deste tempo o farto material e o contexto em que se fala do contraventor, agora erguido pela imprensa nacional como o homem mais poderoso de Goiás. Simbolicamente, colocam-no acima de Demóstenes Torres, degolado em plenário público depois de ser rebaixado de Senador-exemplar para sumariamente cassado, e também do governador Marconi Perillo, a quem buscam de todas as formas comprometer na mesma teia.
 
Neste tempo de março até aqui, fatos vão surgindo, versões vão sendo reforçadas, mas o que sobra em mim são símbolos: Cachoeira foi pego numa trama política como exemplo do mal, da corrupção que graceja País afora e adentro. Cotejado, perderia fácil o título de maior contraventor para qualquer um dos bicheiros do Rio de Janeiro, terra onde nasceu e se tornou famoso o jogo do bicho. Mas Cachoeira é apenas um goiano, um interiorano, os outros são cariocas da gema. Um é adversário, outros são aliados. Senão vejamos.
 
O magistral personagem de Michael Corleone, no último episódio de O Poderoso Chefão, personificou o desejo de todo mafioso que se preza, de legalizar sua fortuna e suas ações. Em proveito da família. Em sua tentativa de se livrar dos símbolos da bandidagem, Michael buscou se associar ao Vaticano, num negócio aparentemente legal que levaria seus herdeiros a um outro patamar. Cachoeira escolheu a indústria farmacêutica, que parece ter se mostrado pequena. Derivou para o lucrativo ramo da construção civil, através da Delta. Parece ter achado a mina de ouro, mas encontrou também, como Michael Corleone em relação ao Vaticano, as perigosas ligações entre os mundos da legalidade e o da corrupção mais violenta, mais explícita.
 
Cachoeira não é maior nem diferente na essência de nenhum dos bicheiros cariocas. E no entanto foi escolhido como caso para exemplação. Os bicheiros cariocas estiveram presos por alguns dias, recentemente, depois de um demorado processo judicial. No período em que respondiam em liberdade por contravenção penal, tiveram todas as oportunidades de defesa, todas as regalias que a riqueza lhes dá. Cachoeira está preso desde fevereiro sem que nem advogados caros consigam os benefícios que a lei garante, de prazos para a prisão temporária e provisória. Perguntem a um advogado qualquer qual a base jurídica da prisão de Cachoeira. Com honestidade, nenhum. Mas se calhar, é de um bom simbolismo.
 
No seu caminho rumo ao calvário como o mau ladrão, Cachoeira deu dois tropeços. Um, por iniciativa própria, de confiar na inviolabilidade de celulares que distribuiu a granel, como se não fossem grampeáveis. Outro, de tropeçar nos interesses de Luiz Inácio Lula da Silva, conforme diz fartamente a imprensa nacional, de aniquilar dois de seus maiores adversários de ocasião, ambos políticos goianos, Demóstenes Torres e Marconi Perillo.
 
Ocorre que apesar da sanha em detonar rivais, há um conjunto de símbolos que atuam contra manter Cachoeira preso por interesse simbólico e Marconi sob perseguição. É fato que a poderosa Liesa, Liga das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, deu a fachada que os bicheiros cariocas precisavam para tornar seus negócios legais. As quadras com seus rentáveis negócios o ano inteiro, atraindo turistas, rende tanto quanto o desfile em si. Mas não há fantasia capaz de encobrir por muito mais tempo as relações vergonhosas da Delta de Carlos Cachoeira e Cláudio Abreu com o governador Sérgio Cabral Filho e com o governo federal.
 
Cabral, assim como a maioria dos políticos, ajoelha-se diante da Liesa em razão do carnaval carioca, uma instituição simbólica que atrai a atenção de todos os poderosos. Mas o pouco que já se mostrou das relações do governador do Rio de Janeiro com Fernando Cavendish, dono da Delta, é suficiente para acreditar que debaixo deste pano há muito mais do que fantasia. Um mínimo que se desvelar dele será o bastante para sacudir a República.
 
Ademais, é preciso dizer que, muito além de Cachoeira, a Delta era até a pouco, antes de ser declarada inidônea, a maior construtora das obras do PAC. Com contratos que chegaram a 4,5 bilhões de reais com o poder público, a empreiteira saiu de modestos ganhos no primeiro ano de governo Lula a campeã de obras no governo Dilma Roussef. Em respeito aos símbolos, convém lembrar que a atual presidente da República foi colocada no posto de mãe do PAC por seu tutor Lula. Foi sob sua égide, como Chefe da Casa Civil, que a Delta se tornou o que é hoje: uma bomba armada, prestes a explodir no colo de quem a inventou e transformou em fato para além de seu simbolismo.
 
Bem, também sei, Renatinho, que Cachoeira reduziu bastante o nível do debate eleitoral em Goiás, principalmente nas eleições municipais em Goiânia, Aparecida e Anápolis. Tirou do foco mais do que de costume projetos, propostas, programas de governo, ideias sobre planejamento nas principais cidades de Goiás. Mas este assunto, relevante, fica para uma próxima ocasião, combinado?

Rogério Lucas é jornalista

Comentários

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  • 20.07.2012 12:10 Regina de Fatima

    Adorei o artigo do rogério lucas , ele apresenta uma visão real do que está acontecendo nesta baderna do cachoeira.

  • 20.07.2012 11:42 Daniel

    Os argumentos citados no artigo não diminuem o peso das contravenções cometidas pelo cachoeira, é claro que existem vários fatos ainda a serem revelados e muitos "peixões" a cairem na rede, mas não podemos ser complacentes com quem usa o poder publico em beneficio próprio. Que sejam todos presos, fazendo companhia ao sr cachoeira, quem sabe possam montar um belo time de futebol no presidio.

  • 19.07.2012 11:58 75%Jesus

    Tadinho do cachô. , foi pego pra cristo! rapaz, que artigo mais parvo. Tudo bem que há muito a ser apurado e é bem capaz que há bandidos mais graúdos, mas isso não exime de culpa os contraventores locais. Sua ótica tá muito complacente com o cachoeira. Me pergunto, por que? .

  • 18.07.2012 07:18 Sandra Regina

    Eita,hein?? quem mandou o seu amigo carlinhos se meter com politicos? defendendo o contraventor? faça-me o favor! que se dane o marconi ,seja lá quem for. pelo que estou lendo,não é só voce. sandra.

  • 18.07.2012 03:45 Fernando

    Impressionante como lula manipula a opinião pública, a ponto de pessoas odiarem cachoeira, mesmo que ele sequer tenha sido ouvido nem julgado.

  • 18.07.2012 07:23 Cíntia Andrade

    Após a leitura deste belo artigo só me resta lhe dar os parabéns pela brilhante análise sobre o caso carlos cachoeira.

  • 17.07.2012 10:50 Margareth Carvalho

    Parabéns !!!! excelente artigo. Continue assim.

  • 17.07.2012 03:38 Olegario

    Ai que orgulho do cachoeira!(tb quero receber algum por este comentário).

  • 17.07.2012 02:29 Renata Nascimento

    Excelente texto. á tempos eu não lia algo tão real e produtivo. parabéns ao senhor rogério lucas, pelas belissimas palavras. o brasil precisa sempre de pessoas inteligente e capazes de enchergarem a realidade.

  • 17.07.2012 11:17 Parabéns!

    Parabéns pelo artigo rogério lucas. Até agora o mais completo que li a respeito de tantas asneiras. Infelizmente coisas de brasis. Onde pega-se alguém para cristo e escondem sujeiras embaixo de tapetes.

  • 16.07.2012 11:07 Carlos Henrique Lucas

    Cachoeira foi o meio pelo qual lula achou ter encontrado para detonar seus dois maiores adversários. Um ele conseguiu só que o outro. Te conta esse é difícil de derrubar! é lulinha vei sua hora tá chegando!! primo o artigo tá ótimo!!! quando saí a biografia completa!?! brincadeira. Rsrs abraço!! .

  • 16.07.2012 07:26 irapuan bezerra

    Excelente rogerio, como sempre em seus artigos vc. Consegue ser transparente,direto e de facil entendimento. Parabens, e continue nos brindando com novos artigos, meu abraço fraternal. irapuan bezerra.

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