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Abel de Castro

“Quem salva uma vida, salva um mundo”

Sobre os ataques na faixa de Gaza | 23.11.12 - 11:03 “Quem salva uma vida, salva um mundo” Manifestantes protestam em Montreal após ataques na Faixa de Gaza (Foto: Abel de Castro)

Montreal - Em Montreal, na última sexta-feira (16/11), dezenas de manifestantes se reuniram em frente ao consulado israelense em sinal de protesto e exigindo um cessar fogo imediato. No domingo (18/11), eram centenas de manifestantes que desfilaram no centro da cidade criticando o Canadá pelo apoio a Israel e exigindo uma mudança na opinião do governo diante dos ataques e mortes acontecidos em Gaza. 
 
O que pretende ser destacado nesse artigo são três aspectos: o primeiro deles é o exercício da democracia. Sendo um país livre e democrático, o Canadá, apesar de manter uma posição pró-Likud (partido de direita israelense) sobre a questão palestina, não impede a liberdade de expressão por parte de seus cidadãos contrários a essa política.

Inúmeros pacifistas e militantes da causa se manifestaram espontaneamente durante todo o dia de domingo, sob um frio de 0°, sem nenhuma intervenção ou truculência policial. Por se rebelar contra o apoio dado pelo governo canadense, eleito democraticamente, ninguém foi revistado, ninguém foi detido, levou pancada, nem balas “de efeito moral”, nem gás lacrimogêneo - instrumentos tão a gosto de governos autoritários que abusam do uso do poder e da força para reprimir qualquer oposição que venha a desestabilizar suas políticas. Democracia é isso.
 
O segundo ponto, e o que chamou mais atenção, é a visão midiática que encobre alguns aspectos e interesses dos grupos hegemônicos. Uma das colocações feitas pela mídia a respeito da ocupação israelense, é que essa disputa no Oriente Médio é uma guerra ancestral entre o Judaísmo e o Islã. 
Durante a passeata, os grupos que mais receberam apoio entre os manifestantes e a atenção da imprensa foi o grupo transnacional Neturei Karta (Jews United Against Zionism) e os grupos canadenses Judeus Independentes e PAJU – Palestinos e Judeus Unidos.

Esses grupos são formados por judeus ortodoxos pacifistas que militam em favor do povo palestino e se propõem a mostrar ao mundo que o judaísmo, enquanto prática religiosa, não pode ser confundida com as políticas desenvolvidas pelo Estado de Israel – governado por partidos sionistas. O sionismo é uma ideologia política nascida no fim do século XIX que postulava que os judeus do mundo inteiro constituem um grupo étnico e que o antissemitismo é um fenômeno permanente.

Assim se opuseram a emancipação que outorgou igualdade aos judeus em vários países. Essa ideologia ainda é base das políticas israelenses contemporâneas que, grosso modo, defendem a existência do Estado de Israel exclusivamente para o “povo judeu”. Daí as políticas voltadas para a exclusão dos palestinos naquele sítio, chamadas de “desenvolvimento separado” e a nominação da mídia de “Estado Judeu”.
 
 Para os judeus antissionistas do Neturei Karta e dos grupos canadenses - compostos de rabinos vestidos de preto e com longas barbas, a religião judaica condena veementemente qualquer tipo de violência e massacres a outros seres humanos. O grupo também questiona a existência do Estado de Israel e a segregação étnico/religiosa que seria ali perpetrada. Entre cartazes e faixas levantadas por esses militantes, era possível ler frases em inglês e francês que diziam:
 
 “O judaísmo condena as atrocidades cometidas pelos sionistas em Gaza”, “Os verdadeiros rabinos são opostos ao sionismo e ao Estado de Israel”, “O Estado de Israel não representa o judaísmo”. Além de Montreal, o grupo promove manifestações em Nova York, Washington, Boston, Londres, Toronto e Ottawa. 
 
Baseados em argumentos religiosos para legitimar suas ideias, esse grupo acredita que a identificação que o mundo faz entre a postura política adotada pelo Estado de Israel e a religião judaica prejudicam os judeus do mundo todo ao serem identificados como os agentes opressores dos palestinos.
 
Segundo a entrevista realizada durante a passeata com o Rabino Dovid Feldman, um dos porta-vozes do Neturei Karta: “Para os governos do mundo todo, não é através de seu apoio ao governo sionista – o Estado de Israel, que o “povo judeu” está sendo ajudado. Pelo contrário, este erro trágico e histórico levou ao assassinato de árabes e judeus. Os governos das grandes potências, ao apoiar o Estado de Israel não só prejudicam o povo palestino, mas eles também estão involuntariamente contribuindo para o crescimento da hostilidade contra os judeus em todo o mundo!”.
 
Judeus religiosos ortodoxos de Montreal como as comunidades de Satmar e Tosh, compartilham algumas ideias antissionistas com o Neturei Karta, e, como esse, se encontram espalhados pelo mundo. Uma explicação para esse fenômeno aparentemente paradoxal se encontra no livro “Judeus contra Judeus – a história da oposição judaica ao sionismo”, escrito pelo historiador Yakov Rabkin da Université de Montreal e publicado no Brasil pela editora Acatu. 
 
O terceiro e último ponto a ser salientado e que chamou a atenção na passeata, é o apelo mundial à paz. Além dos rabinos, na passeata havia também muçulmanos fervorosos, padres, freiras, pastores protestantes e cidadãos comuns. Isso mostra que os religiosos e o mundo laico, estão fartos de políticas de opressão, de segregação e de perseguições àqueles que pensam de forma diferente.

Mesmo que o discurso das autoridades religiosas hegemônicas pregue a segregação e o preconceito para com as diferenças – na expectativa de uma salvação, o que essa manifestação pública em Montreal sugere, é que os fiéis das grandes religiões acreditam muito mais na transcendência religiosa e nas práticas individuais de amor ao próximo, do que nas orientações de suas lideranças, voltadas quase sempre para disputas de poder.
 
As grandes religiões monoteístas - cristianismo e o islamismo são derivados dos ensinamentos da Torá judaica e dos seus ideais de amor universal. Segundo o Talmud – código de ética da vida judaica, “Aquele que salva uma vida, salva um mundo”. 


Abel de Castro é doutorando em Antropologia e estudioso do Judaísmo na Université de Montreal. 

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