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Anapaula de Castro Meirelles

Respeito à dignidade alheia

De qual jornalismo a sociedade precisa? | 29.01.13 - 11:40

Goiânia - Tão triste quanto a tragédia de Santa Maria é o bombardeio da mídia que fica salivando nos detalhes mais dolorosos, como que numa lenta tortura por ibope e faturamento. A maioria das reportagens não leva a nada, apenas patina em corpos, caixões e destroços. Será esse o jornalismo de que uma sociedade precisa? A mídia é uma tragédia em si!
 
Eu tenho me negado a assistir TV aberta. Vejo filmes, Os Simpsons e alguns documentários a cabo. Não tenho mais estômago para o esgoto do Plim Plim e afins. A questão é que, perdida diante das novas conexões digitais, a velha mídia (TV, jornais, revistas...) se transformaram em um trem fantasma, que não nos leva a lugar nenhum, apenas fica dando voltas e assustando, tentando chamar a atenção com falsas bombas noticiosas ou dissecando cadáveres quando acontece uma tragédia.
 
O problema é que todo o apelo se dá, em geral, pelo sensacionalismo. A mídia mais pergunta e especula do que responde. Ela faz o papel da vizinha fofoqueira, com aquele jargão: "Você viu o que aconteceu?".  O jornalismo investigativo está morrendo com redações enxutas, com inúmeras pautas por repórteres que não conseguem tirar as bundas das cadeiras e as orelhas dos telefones para poder dar conta de escrever tudo. Pior de tudo é o que move tudo isso, o que vem de cima das redações: a busca pelo ibope e pelo aproveitamento máximo do caso para faturar. Isso é cruel.
 
Perguntas como essa irão aparecer: não será essa a mídia que o povo quer?
 
Essa é uma pergunta bastante comum e uma prerrogativa que muitos profissionais da comunicação utilizam para justificar o que fazem. Considerando que a premissa fosse verdadeira, ou seja, que o povo quer uma mídia sensacionalista, o fato de a imprensa deixar-se levar por essa demanda seria como um juiz soltar o réu para o linchamento em um caso de comoção popular. Acontece que, assim como juízes têm um compromisso com as leis, jornalistas o têm com a verdade dos fatos e não com demandas bizarras.
 
Apelar para a tragédia sempre chama a atenção e Freud já explicou isso ao dizer que temos duas motivações internas, uma pela vida, outra pela morte. Mas daí a crer que essa mídia sensacionalista vai além de chamar a atenção é outra coisa. O susto que essas notícias causam é como um acidente de trânsito que gera curiosidade em quem passa por ele, mas isso não significa necessariamente aprovação de quem pára para olhar. Ou seja, essa mídia consegue atrair um leitor/espectador de curto prazo, mas vai perdendo a credibilidade ao forçar esse tipo de abordagem, porque a tragédia incomoda e gera fuga num segundo momento. Prova disso é que programas sensacionalistas precisam se reinventar constantemente, ao contrário de noticiários mais sérios (o ibope mede audiência momentânea e não credibilidade). Aliás, pesquisa recente do Datafolha aponta que a imprensa perdeu dez pontos percentuais no ano passado em credibilidade no Brasil, e creio que isso acontece justamente por suas apelações dos mais diversos gêneros (policiais e políticos). 
 
A questão não é achar que o povo é uma pobre vítima, mas exigir que profissionais da comunicação ajam com ética e respeito à dignidade alheia. A responsabilidade da imprensa deve ser com os fatos e dentro dos limites da dignidade, não com o ibope. Por fim, achar que, por causa do controle remoto que permite mudar de canal, pode-se passar qualquer lixo na telinha é como pensar que um médico pode se negar a fazer um parto em uma adolescente porque ela poderia ter optado por não ter um filho.
 
O sensacionalismo na imprensa é tão velho quanto a própria imprensa e acompanha as demandas mais bizarras de cada época, mas isso não nos permite concluir que ele seja retrato de uma "vontade do povo", até porque definir povo num momento em que a comunicação se descentraliza e as classes sociais se mexem como nunca no Brasil é muito complicado. Existe nicho para ele, isso é fato, assim como é fato que a tragédia noticiosa chama a atenção num primeiro momento, mas isso não significa aprovação de quem a consome (essa visão não é presunção, mas vinda de vários estudos da comunicação). 
 
O sensacionalismo anda na contramão da credibilidade e são pesquisas de opinião no mundo todo que apontam isso. Já o jornalismo informativo é o exercício de levar ao público a informação que lhe é de direito, e esta deve ser bem apurada, com vários aspectos abordados e isenta de juízos de valor ou distorções. O sensacionalismo é uma distorção, pois deforma a dimensão real e muitas vezes desrespeitam honras. 
 
Então, independente de se saber ou não o que é vontade do povo, é preciso saber o que é jornalismo e quais são seus parâmetros e seus limites. Eu me identifico com os estiosos que apostam em demandas crescentes por notícia de qualidade, coisa raríssima na imprensa brasileira.
 
Anapaula de Castro Meirelles é publicitária. 

Comentários

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  • 09.02.2013 07:48 Geovanna

    O Jornalismo perdeu a mão. Concordo com o seu posicionamento. Boa leitura e reflexão.

  • 03.02.2013 19:24 Cintia Mamede

    Que olhar interessante sobre o jornalismo. Taí gostei.

  • 02.02.2013 16:28 Ana Carla

    O jornalismo está sem credibilidade. Não gosto da explração da tragédia alheia. Um texto crítico e fiel a realidade. Parabéns. Me junto a você que quer um jornalismo ético e comprometido com a verdade.

  • 31.01.2013 09:01 Márcia Pimenta

    O jornalismo perdeu o tom e a cor a muito tempo.

  • 31.01.2013 06:49 Karla Seabra

    Muito bom o texto. Crítica muito pertinente.

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