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Rogério Lucas

Escolha atrapalhada

Debate eleitoral está no caminho errado | 13.09.11 - 11:51

 


O debate sobre eleições municipais, mesmo incipiente, está no caminho errado. Penso sobretudo em Goiânia, cidade que podia se aproveitar mais de ter nascido planejada, e que cresce aceleradamente. Podia ter mais consciência e responsabilidade de seus administradores, atual e futuros. Foi difícil e continuará sendo cobrar isto deles.
 
Políticos adoram discutir candidaturas, lançar nomes, especular sobre a viabilidade eleitoral deles, inflar e estourar bolhas. Jornalistas precisam de especulações mais que Goiânia de chuva neste momento. Uns e outros se alimentam e se fartam com possibilidades, pesquisas, hipóteses que viram fatos, factóides que produzem hipóteses, teses as mais malucas, mas que preenchem espaços nos noticiários, geram ansiedades, estimulam disputas. O mundo virtual exponencializou tudo isto.
 
Não se discute o essencial: propostas, ao invés de nomes. Soluções, formas de encarar os problemas das cidades, ao invés de marketing e imagem de candidatos.
 
Entre urbanistas, engenheiros, arquitetos e demais estudiosos dos problemas da cidade há muitos consensos. Quase todos estampados no Plano Diretor da cidade, que olha questões essenciais como zoneamento urbano, uso de solo, plano diretivo de transportes coletivo, preservação de áreas ambientais, distribuição de serviços públicos. Obedecer, quem há de? Defender, para o quê? Executar, onde?
 
Nada menos que o Secretário de Planejamento (sic) da Prefeitura de Goiânia se insurgiu contra um projeto de Lei aprovado na Câmara de Goiânia, exigindo estudo de impacto de trânsito e vizinhança para prédios com mais de 5 mil metros quadrados. Não se sabe se o prefeito irá sancionar ou vetar o projeto.
Provavelmente cederá mais uma vez aos interesses do mercado imobiliário. As medidas mitigadoras que estes estudos trariam à luz encarecem os projetos, sem significar mais lucros para o empreendedor. Então, que permaneça valendo a regra de mercado: que o poder público arque com os custos de resolver o problema, quando ele se tornar óbvio. Às imobiliárias já coube o esforço, imenso, de construir, seja lá onde for.
 
Um exemplo claro de como esta lei poderia ter evitado uma catástrofe, caso não prevalecessem interesses – sempre escusos? – entre poder público e mercado imobiliário: o Parque Flamboyant. Bela iniciativa, entre tantas outras, do prefeito Iris Rezende. Um lugar aprazível, feito para ser eterno. Quanto a viver às suas margens, tende a tornar-se um inferno, pela quantidade de prédios e o tamanho deles que a mesma prefeitura autorizou a serem erguidos. Quando ocupados os prédios, uma cidade dentro de outra estará obrigada a conviver, entre seus habitantes permanentes e eventuais, com as mesmas ruas estreitas de hoje, a mesma infra-estrutura de água e esgoto, de galerias pluviais, pensada e executada para 100 vezes menos gente.
 
Como disse, há consenso entre estudiosos quanto à ocupação e mobilidade urbana. Imensos vazios entre loteamentos já existentes deveriam ser ocupados, antes de liberar novas áreas. E mesmo uma enorme quantidade de lotes baldios ou semi-utilizados nas áreas mais densamente povoadas deveriam ser ocupados, antes de se estender serviços públicos essenciais, como água encanada, esgoto sanitário, rede elétrica e transporte coletivo a regiões fora do adensamento urbano. 
 
Qualquer um tem a resposta na ponta da língua para a mobilidade urbana em Goiânia e em grandes centros que crescem no mesmo ritmo: transporte coletivo de qualidade. O que, dadas as circunstâncias, também significa transporte massivo, com metrôs, corredores exclusivos para grandes ônibus sobre rodas ou sobre trilhos, linhas distribuidoras bem planejadas complementando os grandes eixos. Enquanto isto, há quem ainda pense, como um ex-prefeito de Goiânia, que metrô é um investimento muito caro.
 
E enfim, chegamos ao ponto: dentre tantos nomes igualmente qualificados para a disputa à prefeitura de Goiânia, incluindo Paulo Garcia, o atual, com que projeto para a cidade eles estão comprometidos? Para ficar nos temas citados, o setor de transportes, assim como o imobiliário, são dois dos maiores financiadores das campanhas municipais em uma cidade do tamanho de Goiânia.
 
Para além do nome de A, B ou C, quais são as propostas que se atrevem a contrariar os interesses destes capitalistas, para enfrentar de verdade os problemas de Goiânia e atender as necessidades de seus cidadãos? Ainda não ouvi nada sobre isto. E não significa que um candidato que se comprometa a estar do lado do contribuinte, ao invés dos grandes financiadores, está fadado ao sucesso. Se eleito, ainda terá que enfrentar fortes resistências. Mas pelo menos estaremos diante de cobrar um compromisso feito num período em que apoio e voto são tão fundamentais quanto recurso de campanha.
 
De minha parte, só sei de uma coisa: eu não tenho candidato a prefeito de Goiânia. E se nenhum se comprometer com o que todos sabem que é preciso ser feito, corro o risco de, pela primeira vez na vida, não votar em ninguém.
 
Rogério Lucas é jornalista

Comentários

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  • 27.09.2011 17:59 LINDALVA

    todo politico neste pais deveria ser obrigado a trabalhar e mostrar suas competências e sua conta bancaria entra pobre sai muito rico faz um monte de projectos e deixa o povo sempre na esperança que alguém ame sua terra mas tudo continua na mesma só a vida dos políticos é que muda e no inverno o artista é o trabalhador honesto.

  • 22.09.2011 10:28 Roberta Bueno

    É uma pena que no Brasil os interesses de poucos se sobressaem aos direitos de muitos, que sempre pagam o pato e sofrem com o descaso. Parabéns pelo artigo.

  • 21.09.2011 17:21 Rogério Lucas

    Agradeço os comentários, dos amigos e dos que ainda não conheço. Por graciosidade de João Unes, espero estar contribuindo neste espaço sobre temas de política, sobretudo os voltados a Goiânia. É um treinamento não para melhorar minha piadas, Camila, mas para exercitar a linguagem e tentar contribuir no debate sobre cidades e vidas melhores!

  • 20.09.2011 23:27 Fernando Augusto Caramaschi de Mello

    Realmente trata-se de uma escolha completamente atrapalhada. Parabéns pela crítica e espero que nossos futuros "candidatos" a prefeito possam ler e refletir suas inspiradoras palavras. Abraços!!!

  • 20.09.2011 15:19 Margareth de Souza Carvalho

    Parabéns !!! Ótimo. Vamos torcer para que as pessoas certas leiam este artigo. Queremos escolher e precisamos de bons candidatos. Espero que apareçam.

  • 18.09.2011 20:56 Rodolfo Maciel Monteiro

    Excelente artigo. Uma abordagem com lucidez ímpar. Gostei muito!!!

  • 18.09.2011 13:02 Arthur Cruzeiro

    Super Rogério Lucas, Gostei do seu artigo. Não é só na expansão urbana que o capitalismo dá as cartas. Pena para a nossa cidade. Abração, Arthur

  • 18.09.2011 12:57 WALÉRIA VASCONCELOS

    Há muito nem ouço falar de Plano Diretor da cidade. Instrumentos fantásticos que caem no maior esquecimento, já que ninguém cobra nada. Outra questão que você bem aponta é o uso precário de alguns espaços públicos. Noutros o que se vê é uma poluição visual sem fim. Basta descer a Av. Araguaia. De cara, na esquina com a Rua 1, na esquina com a Rua 4, há prédios que já deveriam ter sido demolidos, ocupados, finalizados, sei lá.

  • 18.09.2011 12:48 Camila Costa

    Querido Rogério, seus artigos são infinitamente melhores do que as suas piadas. rsrsrs O transporte deve ser prioridade máxima porque Goiânia está um caos.

  • 18.09.2011 09:59 Ester Carvalho

    Sábias reflexões, Rogério Lucas. Não temos candidato e estamos irmanados na mesma incerteza. Bom mesmo é poder lê-lo novamente. Mais um "bingo" de "A Redação".

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