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Cristina Lopes Afonso

Francisco, Corações e Almas

O papa é simples e tem carisma | 26.07.13 - 16:13



Goiânia - O papa é simples e tem carisma. Trocou a pompa alegórica de seu antecessor pela sobriedade e deixou de lado os ditames de conduta para nos lembrar que os pobres existem e todos nós temos a ver com isso em um mundo tão desigual e individualista. Nas primeiras palavras ao desembarcar no Rio, adotou um tom mais de humano que de "santo padre", falou em pedir licença para entrar no coração dos brasileiros. Tudo isso me comove e é digno de apreço, mas o desafio do papa como um líder mundial, com poder moral sobre corações e mentes, é bem maior.

Francisco comanda uma igreja que poucas vezes pediu licença para entrar na vida das pessoas. Pelo contrário, chegou a atear fogo nos que ousaram sair da sua rígida conduta dogmática. E continua queimando, não mais com a fogueira, mas com segregação, os que buscam entender que a humanidade é mais complexa do que a leitura radical de escrituras milenares. Aconteceu aqui no Brasil: um padre foi excomungado este ano por enxergar a diversidade sexual como aceitável no contexto católico.

A igreja de que Francisco se tornou líder ainda não vê a mulher como digna dos mesmos direitos dos homens em todo o expediente de sua estrutura, relega o sexo a um ato pecaminoso exceto quando feito para procriação (condenando o uso de preservativos na luta contra a Aids, por exemplo), impõe celibato aos seus sacerdotes, entende a união entre duas pessoas como algo indissolúvel, repele a homossexualidade como aberração (apesar de ela existir desde que o mundo é mundo na natureza - não apenas na espécie humana). Tudo isso se contrapõe à realidade da vida e, mais ainda, às aberturas da era contemporânea.

Exemplo dessa contradição está, inclusive, nos próprios jovens católicos, ao encontro dos quais o papa veio. Pesquisa Ibope divulgada há alguns dias revela que os católicos com idade entre 16 e 24 anos pensam e agem diferente da Igreja: 72% são a favor do fim do celibato para padres, 62% querem mulheres sendo ordenadas (mesmo percentual dos que são contra uma mulher ser presa por ter feito um aborto), 56% apoiam a união de pessoas do mesmo sexo e 90% querem punição mais rigorosa para religiosos  pedófilos. São maiorias pra lá de desafiadoras para a Santa Sé.

Ou seja, se Francisco quer mesmo fazer a diferença em corações do século XXI, terá de tirar a sua igreja da Idade Média e acender uma luz para os excluídos da sociedade. Papa Francisco terá que ser realmente instrumento de paz e “onde houver ofensa, levar o perdão. Onde houver desespero, levar a esperança. Onde houver trevas, levar a luz.” E isso não significa abdicar de valores atemporais, como a solidariedade, tão rara numa época de extrema competição, e o amor (lembremos que "amai-vos" é a expressão maior de Cristo, ironicamente tão pouco praticada pelas próprias religiões cristãs).

Em sua homilia desta quarta-feira, em Aparecida, o papa tocou nesses valores, ao dizer que o dinheiro é um ídolo passageiro, deixando claro um diferencial positivo do catolicismo diante do neopentecostalismo, que cultua a riqueza material como divina e quase coloca códigos de barras nas almas.

Vivemos uma era de liberdades conquistadas ao longo de milênios, edificada com conhecimento científico e lutas, que nenhuma igreja tem o direito de (nem poder para) tirar. Isso, entretanto, não torna a humanidade avessa à busca da transcendência, até porque o capitalismo, que não sobrevive sem o consumismo e a desigualdade, tem esvaziado o espaço dos sonhos e das razões maiores de se viver.

Eis um contexto oportuno para a reflexão do papa e de outros líderes religiosos: não é só entrar nos corações, nem sequestrá-los com promessas milagrosas, ditames de conduta moralista ou boletos bancários para dízimos. A alma humana é maior que tudo isso. Como diz Mário Quintana, "A alma é essa coisa que nos pergunta se a alma existe." 


Cristina Lopes Afonso é vereadora pelo PSDB Goiás e Presidente da Comissão dos Direitos Humanos.


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