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Carla Monteiro

Cevam luta para continuar atendendo

Violência contra mulher é alarmante | 27.09.13 - 16:43
 
Goiânia - A cada vinte e quatro segundos, uma mulher é espancada em solo brasileiro. A morte, porém, demorada um pouquinho mais. Ela alcança, pelas mãos dos seus respectivos companheiros, uma brasileira a cada três minutos. Nesta seara do tic-tac, nem adolescentes estão resguardados. A brutalidade insiste em lhes atocaiar a cada seis minutos, rasgando corpos e ferindo a almas. 
 
Mulheres, adolescentes e crianças, essencialmente, ainda não conseguiram entrar para o rol dos que tem garantidos direitos civis. Têm no máximo direitos políticos e, às vezes, quem sabe, direitos sociais. Não adianta tergiversar. Não é retórica. É realidade histórica que se espraia na atualidade. 
 
Em Goiás, um contexto ainda mais cruento, pois o atavismo rural insiste em replicar no urbano a lógica mercantilista da propriedade humana. E se é propriedade não se tem direito. Independente do marco regulatório civil entregue à sociedade há sete anos, a Lei Maria da Penha. 
 
Um desatento pode sugerir que o país respira ares democráticos e seus atores há décadas se transformaram em cidadãos. Cautela, pois cidadania não surge por decreto. As portas podem lhe ser abertas, mas o caminhar requer luta. Mulheres, adolescentes e crianças, vítimas de violências doméstica e sexual são privadas do básico, liberdade individual, que nada mais é do que direito civil. 
 
Neste terreno estão os pilares do Centro de Valorização da Mulher, o Cevam. Criado há 32 anos pela jornalista e advogada Consuelo Nasser, a entidade acolhe mulheres, crianças e adolescentes, que ao serem vítimas da violência ficaram privados de conviverem em sociedade. 
 
Esses seres humanos não tem para onde ir, após deixarem a enfermaria de um hospital ou as macas do IML, onde realizaram exames. O único abrigo que podem contar é com o Cevam. É onde terão cama, seis refeições e oportunidades para retornar ao convívio social. Nos últimos 11 anos, ou seja, depois da implantação do Programa Nove Luas, em 2002, passaram pelo Cevam quase 25 mil seres humanos. 
 
Tudo isso custa dinheiro. E há 22 meses, a única fonte de renda do Cevam são os R$ 10 mil repassados, mensalmente, pelo Goiás da Sorte. Outra fonte de recursos, mas extremamente sazonal, é o Brechó do Cevam, onde são comercializadas doações de roupas, sapatos, bolsas e bijuterias. Atualmente, 72 pessoas estão abrigadas na entidade. Outras 16, trabalham na ONG, que funciona 24 horas. 
 
Dinheiro regular acabou em julho de 2012. Um total de R$ 840 mil, dividido em 24 parcelas, resultantes de um convênio, assinado entre a Semira, na gestão da Denise Carvalho, e o Cevam, em novembro de 2009. Depois de prestar contas a atual gestão da secretaria, nunca mais viu recursos governamental. É que desde fevereiro deste ano e considerando um relatório da Semira, três recibos da prestação de contas não foram aceitos e o Cevam está devendo R$ 5.352,62 e mais juros e correção. 
 
Nesse contexto seria tecnicamente impossível o Palácio Pedro Ludovico dar vida ao convênio de R$ 1,2 milhão assinado com o Cevam, no dia 8 de março passado. Desse total, R$ 480 mil seriam destinados a quitação do débito com a Saneago. 
 
Os R$ 720 mil restantes seriam repassados ao Cevam em 24 parcelas de R$ 30 mil cada. Uma quantia suficiente para pagar funcionários. O débito de R$ 800 mil acumulado terá que encontrar outra fonte de renda para ser liquidado. 
 
A Semira, cuja semente foi lançada há 26 anos, no governo de Henrique Santillo, como Secretaria da Condição Feminina, a primeira do Brasil e da América Latina, quer que o Cevam além de quitar os três recibos, também apresentem um certidão negativa da Justiça do Trabalho. Impossível! O Cevam responde a 11 ações trabalhistas. 
 
O Cevam, entretanto, acredita em milagre. O primeiro teve por palco, o Instituto Rizzo, nesta manhã quente de segunda-feira, 23 de setembro, início de primavera. A Ciranda do Bem, lançada por Siron Franco, vereadora Cristina Lopes e as empresárias Ângela Sebba e Ângela Pereira, tende a ser um marco do resgate da vida. 
 
As peças criadas pelo artista plástico renomado (as antas e as joias) materializam a solidariedade e a indignação. Mas são por meio delas, que o Cevam conseguirá barrar o processo de fechamento de suas portas e encerramento de suas atividades. A repulsa aos achaques sofridos pelo Cevam, pelos que não tem a compreensão histórica sobre cidadania, começa a surtir efeito. 
 
Em algum momento da história brasileira, bater em mulher ou abusar de uma criança ou adolescente será o equivalente a assassinar um presidente. A comoção será coletiva e as forças repressivas implacáveis e prontas. Enquanto isso não é realidade, o Cevam, com o apoio social, continuará a enxugar as lágrimas das agredidas e a carregar as bandeiras do respeito e da liberdade. 

Carla Monteiro é jornalista e assessora de imprensa voluntária do Cevam.
 

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