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Rimene Amaral

Sob as bênçãos de Leonardo

A saga de um casamento na roça | 04.10.13 - 21:24
 
Adelaide e Gaudêncio se conheceram em um site de relacionamento e, durante três meses, “namoraram pela webcam”. Ela, moça do interior de Goiás, residente na capital, descolada, de família conservadora, mas cabeça aberta. Ele, paulista, filho único, criado a pão-de-ló pela mãe e pela avó, médico, cabelos cuidadosamente penteados e só usa calça com quinas nas pernas. Em comum eles têm o amor pela vida e o amor que nasceu das fotos da rede social, conversas íntimas e madrugadas de solidão. Marcaram de se encontrar várias vezes lá ou cá, mas nunca deu certo. Agora, ele veio para casar. E tudo acontecerá com uma grande festa.
 
As comemorações do casamento vão começar na quinta-feira, assim que o avião do noivo pousar na aeroviária de Goiânia. Toda a turma – amigos, parentes e agregados – estarão à espera do rapaz com plaquinhas, balões, apitos e lembrancinhas regionais. Os homens, todos!, usando óculos Prada e as mulheres, todas!, com bolsas Michael Kors. Um garçom circulará pelo saguão da aeroviária servindo pamonha frita, carne de lata e pastelzinho de pequi, um breve esquenta do que será o cardápio da festa. No sistema de som local, claro, Leonardo, o embaixador de Goiás – e do tomate – no mundo, vai cantar os sucessos de toda a carreira, inclusive quando ainda havia Leandro. Os padrinhos vão aguardar o noivo na porta da sala de desembarque com uma palma branca. Não! Não será macumba. Apenas sinal de paz e amor. 
 
Depois de toda a gritaria e euforia, todos sairão aglomerados do saguão da aeroviária, carregando o noivo nos ombros e gritando: “Com quem será... com quem será...”. No estacionamento, ele receberá uma camiseta com uma foto de todos os amigos, assinada por cada um, com a frase: “Seja bem-vindo para sempre no Goiás!”. Ele entra numa caminhonete gigante, cuja carroceria é usada única e exclusivamente para as caixas de som do potente Pioneer, que tocará, durante todo o trajeto, repertórios de todas as centenas de milhares de duplas sertanejas goianas. Serão 220 quilômetros até Iporá, a cidade dos pais da noiva. Os carros que seguirão a caminhonete estarão todos conectados entre si e tocarão a mesma música. O encerramento do comboio será um trator, com uma carrocinha acoplada, levando barris de chope e um carregamento exclusivo de copos de plástico de 300 mililitros e ‘pêta’ de polvilho azedo, para o caso de um desavisado ter um ataque de hipoglicemia. Nem pense em Epocler, Engov e coisas do tipo. Goiano não precisa desses subterfúgios. 
 
Nas aproximadas três horas – que devem se tornar umas seis – de circuito até a cidade do casório, a viagem deve ser divertida. Ninguém pode ficar calado mais que o tempo de engolir o chope. Apenas! Cada boteco de estrada, posto de gasolina, puteiro ou o que o valha, uma parada obrigatória de 15 minutos será feita. O noivo descerá da caminhonete, o volume da música será reduzido e ele fará um pequeno discurso. Sempre com um dos amigos-padrinhos ao lado, com uma dose de Ypióca na mão. Terminou o discurso, vira a dose. E segue o cortejo.
 
Na chegada à cidade, faixas espalhadas – duas em cada quarteirão – deixarão claro ao noivo a paixão da noiva, da família da noiva e a sacanagem dos amigos da noiva. Frases criativas tomarão a cidade, do tipo: “O ideal no casamento é que a mulher seja cega e o homem surdo”. Ou “O casamento é a única virtude ao alcance dos covardes”. E ainda: “Lutar pelo amor é bom, mas alcançá-lo sem luta é melhor”. Na chegada à casa dos pais da nubente, uma banda esperará o comboio e tocará o arrocha assim que o noivo descer da caminhonete, bêbado e vomitando, numa clara evidência que já queimou a largada, mas ainda permanece de pé depois de todas as paradas nos botecos, postos e puteiros da estrada. Será recebido pela família da noiva – pai e mãe – que tentará, em vão, falar do orgulho que será tê-lo como um filho no seio familiar. O discurso da mãe será abortado, antes mesmo da primeira frase ser bradada, pela euforia etílica dos amigos, parentes e agregados que fazem parte do comboio.
 
Entrando em casa, as portas estarão decoradas com festões coloridos e brilhantes, ainda que faltem meses para a chegada de Papai Noel. Lá dentro o som vibra e faz tremer tudo que não esteja fincado ao chão com alicerce firme, tocando o que? Leonardo, claro! Até quando ainda havia Leandro. O cunhado, repentinamente, surgirá na sala, vindo do quintal com os pés descalços e sujos pela terra ainda úmida que fica debaixo da mangueira, cantando desafinadamente mais alto que o som, com os braços abertos e estendidos ao noivo, um copo de alumínio cheio de cerveja numa mão e a garrafa na outra. Ele também estará com a camiseta da tchurma “Seja bem-vindo pra sempre no Goiás”, mas com um X em cima do nome do Estado, substituído, em pincel atômico vermelho, por “Iporá”.

Todos se ‘apronchegam’! Cada qual com seu copo vai entrando e já pegando um dos pratos, que estarão postos em forma de torre colorida em cima da mesa da cozinha e rumando, esfomeadamente, para o quintal, onde dois cavaletes de pintor e uma tábua larga por cima fazem as vezes de outra mesa e sustenta as panelas com a comida do almoço. O cardápio: arroz branco, arroz à grega, feijão de caldo, feijão tropeiro, carne de lata (carne de porco frita e guardada por semanas em latas de 20 litros, compradas com tinta), almôndegas, uma bacia enorme de macarrão número 5 (aquele com um buraco no meio, que você tenta chupar, ele assovia e não entra na boca) com molho de extrato de tomate Elefante, maionese de batata e ovo e tomate picado com óleo de soja e cebola de folha rasgada com o dedo. No final do banquete, uma mesinha menor com um recipiente Duralex marrom, servirá a sobremesa: arroz doce.

A bebedeira, a comilança e a música seguirão com a mesma intensidade até o domingo, quando, enfim, o noivo cairá pelas tabelas bêbado e, com princípio de coma alcoólico, será levado ao hospital municipal para tomar glicose na veia, aplicada por uma enfermeira prática, formada pelo extinto Mobral, com especialização pelo Telecurso Segunda Grau. Todo o comboio que o acompanhou desde a aeroviária até Iporá seguirá junto. Desta vez, com a noiva, não menos embriagada e com um copo de sal de fruta na mão, tentando aliviar a azia causada pela mistura bombástica, nem um pouco leve, do cardápio de quatro dias de festa e muita cachaça. Quando chegar a segunda-feira, ele, o noivo, dormindo no quarto cedido pelo cunhado, abrirá os olhos. Vai mirar um ponto no telhado da casa e dizer baixinho, com um sotaque digno de goiano genuíno: “Divino Padeterno! Nossinhora, meu Deus! Ah, nem...”. Dará um suspiro, virará para o canto e resolverá pensar na vida depois que a ressaca passar. 
 
Rimene Amaral é jornalista, fotógrafo e escreve o blog odonodotempo.blogspot.com.
 

Comentários

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  • 07.10.2013 17:24 Marileusa Ataides Cintra

    Ao ler esse texto, retornei a minha infância e adolescência, quando celebrávamos os casamentos de amigos e parentes no Pau Terra, currutela no município de Souzania. Eram exatamente assim.

  • 07.10.2013 16:59 valeria almeida

    Que texto bacana! Como se eu estivesse numa dessas festas na roça. Pude sentir até o cheiro da comida.Parabéns!

  • 07.10.2013 16:56 Emelline Diniz

    Amigo adorei ser a protagonista da sua crônica! rssss :) Belo texto! E viva o Iporá!

  • 05.10.2013 09:54 Rafael Vilela de oliveira

    Parabéns, Rimene Amaral sua crônica é espetacular, conseguiu definir as tradições do nosso estado, com uma riqueza de detalhes, fiquei realmente impressionado!

  • 05.10.2013 08:53 Cássia

    Essa história eu conheço de primeira mão. He he he

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