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Jales R. Naves Júnior

Anotações de uma viagem a Paris

Parte 2 | 30.10.13 - 09:27
Paris - Nesta quarta-feira acordei e o clima estava frio (9 graus) e chuvoso. Decidi passear à pé, ao invés de bicicleta, porque percebi que todas as estações do vélib (nome dessa bicicleta) estavam intactas. Logo tudo fez sentido para mim: na chuva isso aqui vira um caos! Os franceses quase batem uns nos outros, buzinam o tempo inteiro e dirigem quase às cegas (não sei porque, quase não vi carros com o limpador ligado). Segui reto até o rio Sena (vindo da Bastilha), disposto a caminhar até a Torre Eiffel.

Quando cheguei no Sena, olhei para a direita e avistei a torre mais alta da Notre Dame. Resolvi ir para lá. A caminhada era mais longa do que eu imaginava, uns 5km. Quando cheguei, entrei no Parque Jean XIII (atrás da catedral) e sentei um pouco. Logo fui abordado por um turista coreano que queria treinar seu inglês (ele se ofendeu, quando achei que era chinês - aqui anda meio difícil distinguir etnias orientais). Batemos um papo e tiramos uma foto juntos.
 
Fui circundando a Notre Dame pelo lado de fora para reparar em seu exterior. Os detalhes são infinitos e riquíssimos, nunca tinha visto algo tão bonito na minha vida. Ela está em permanente reforma (sempre tem uma parte inacessível e coberta por um toldo), mas faz sentido: a chuva e os dejetos de pombos deterioraram e muito toda a estrutura. As gárgulas ficaram ainda mais medonhas, agora com sua face meio derretida.

A fila para entrar estava grande, mas bem rápida, pois em 15 minutos eu estava dentro. Aluguei um áudio-guia em português de Portugal, pois coincidentemente era o único idioma que havia sobrado. Eu me decepcionei, pois esse guia só tratava das alegorias católicas do interior da catedral, não falava nada da arquitetura e da história. Quando entrei, uma missa estava sendo preparada. Os turistas visitam a catedral fazendo um círculo no sentido anti-horário, e a parte do meio acaba quase que reservada para quem vai assistir a celebração religiosa. Quando começaram os órgãos e o canto gregoriano as vovózinhas puseram-se a chorar. Foi emocionante. Só achei desrespeitoso o fato de ninguém dar bola para os avisos de não usar flash e fazer silêncio.
 
Quando saí, voltei para o Parque Jean XIII. Em poucos minutos a chuva começou a ficar muito forte, e acabei ilhado debaixo de uma árvore, que impedia que me molhasse. Estava praticamente sozinho no parque inteiro, já que a maioria do pessoal tinha guarda-chuvas e foi embora. Um fato curioso: à noite, os parques ficam infestados de ratos. Eles correm pra todo lado, pulando, gritando e brigando. Não entendi o porque dessa comoção toda, dessa lacantina, mas eles devem ter seus motivos.

Quando começou a chover, logo foram eles, novamente, sair desvairados por aí. Algo que achei curioso é que os únicos dois animais que se vê em Paris inteira (tirando os cachorros de estimação) são ratos e pombos. Onde estão os insetos? Não vi uma mosca, abelha, barata, mosquito, borboleta. Nada, nada, nada. E as árvores são todas reflorestadas (é fácil perceber, já que o espaço entre elas é milimetricamente calculado, em qualquer lugar). Como é outono, as folhas estão caindo bastante, e 90% delas são de bordo (maple, em inglês, aquela folha da bandeira do Canadá). Se não for bordo, um primo próximo.
 
Quando estava no parque, resolvi dar uma cochilada no banco para depois continuar minha caminhada até a Torre Eiffel. Fui subitamente acordado (não sei nem quanto tempo dormi) por uma garota com feições ciganas que me pediu uns trocados para ajudar crianças debilitadas da região dela. Assim que saí, um guarda me avisou que aquilo era um golpinho. Não dei bola e segui caminhando. Como levantei meio de repente, acordei um pouco confuso e acabei indo na direção contrária! Fui parar no Jardim Botânico/Zoólogico da cidade.
 
Como já estava lá, resolvi entrar. Deixei meu celular para carregar com um simpática libanesa do quiosque que vendia crepes e fui caminhar. Primeiro, conhecer as plantas. Fiquei horrorizado de como as crianças andam por ali soltas. Uma delas quase caiu no laguinho tentando lamber um lodo (cultivado num cilindro, pra exposição). Achei isso um problema porque tinha comigo-ninguém-pode e mandioca. Nada avisando sobre os perigos.
 
Entrei no Zoológico depois. Primeiro fui à parte dos anfíbios, onde tive, de longe, a experiência mais engraçada da minha viagem até agora. As pessoas geralmente vão ao Zoológico acompanhadas de seus filhos, então eles ficam lendo o nome dos bichinhos pras crianças. Quando cheguei na parte dos sapos, eu estava olhando para a segunda espécie quando ouvi algo do tipo "crapaud cururu".

Quando olhei, era o nosso sapo-cururu! Mas imaginem agora os franceses pronunciando "cururu", com biquinho e tudo. Eu morria de rir a cada um que passava! Um guia me parou lá, pois disse que sabia que eu era brasileiro só pela minha risada quando eu ouvia o nome. Alguns já o tinham "corrigido", mas ele nunca se lembrava da pronúncia correta. Expliquei de novo e fui passear. No espaço para os répteis, não conseguia enxergar nada. Eles ficam numa estufa quente e muito úmida, o que embaçava meus óculos completamente. Atravessei e cheguei na última sala dessa ala. Em uma jaula aberta tinha um bicho-preguiça em cima de uma árvore dividindo seu espaço com um dragão de Komodo! Finalmente vi um, mãe.
 
As maiores atrações são as onças (onça mesmo, "jaguar"). Lá tem um casal e uma onça negra (não sabia que essa variante dava para ver as pintas, mas dá sim). Meio estressadas, elas ficam andando de um lado pro outro da jaula o tempo inteiro. Achei o mapa endêmico meio furado, já que ele só ia até a metade da Amazônia. Não tem onça em Goiás, Minas, Mato Grosso? As capivaras estavam escondidas nas cabanas porque fazia muito frio. A explicação sobre elas não falava nada delas serem semiaquáticas e não tinha nem uma piscina pra elas, coitadas. Mas absurdo mesmo eu achei os macacos. Os chimpanzés ficam presos em umas jaulas pequenas, e a maioria fica encolhida dentro de um tamborete azul com umas palhas. Eles tem um olhar triste, penetrante, de partir completamente o coração. Quando fui olhar, eram duas fêmeas, senhoras já, 55 e 48 anos. Completamente desumano. As pessoas, novamente, não respeitam os pedidos de não bater flash e, quando elas ficam muito estressadas com aquele tanto de luz, cobrem os olhos com as mãos e se encolhem como bolas.
 
Peguei meu celular de volta, comi um crepe e fui caminhar para a Torre Eiffel. Já eram 5 da tarde e eu estava morto. Ia ser uma caminhada de uns 10km, e, quando estava em uma avenida grande, passei do lado de um ponto de ônibus onde estava parado um daqueles turísticos de dois andares da L'Open Tour. Subi nele, cumprimentei todos os vovôzinhos (só tinha senhores lá) individualmente e fomos direto pra Torre Eiffel.

Eles ficaram meus fãs! A maioria não falava francês, então servi meio que de tradutor. Fui acompanhando eles por um passeio no jardim da Torre e eles ficaram satisfeitíssimos. Ganhei um lanche no final e uma proposta de jantar com eles mais tarde, mas acabei recusando porque tinha outros planos. Quando foram embora, fui dar uma sentada e olhar o parque. Outra coisa que achei curiosa: os turistas fazem passeios relâmpagos aqui. Eles chegam nos lugares, batem uma foto pra mostrar que estiveram lá, entram numa fila enorme onde carimbam seu passaporte dizendo que você esteve lá e já saem correndo para outro lugar. Ninguém observa o lugar direito, ninguém senta, ninguém sente. Péssimo, isso.
 
Peguei um metrô e fui embora descansar. De noite saí pra comer algo e fui beber vinho na Sacre Coeur. Bonita, a catedral, mas nada comparada a Notre Dame. Do tanto que andei nos últimos dias e dormi pouco, minhas pernas estão moídas e doendo demais. Hoje fiquei mais tranquilo, fiz uns passeios mais sossegados e amanhã cedo vou à Versailles e ao Louvre. De tarde pego um vôo para Viena.
Na terça-feira, após escrever as notícias, saí pra dar uma volta. Por sugestão de um amigo de São Paulo fui fazer um "pub crawl".

Funciona assim: você compra um ticket na internet por 15 euros, encontra com um "guia turístico de balada" na porta de uma estação de metrô e ele te leva para cinco bares diferentes, onde você ganha algumas bebidas de graça. O guia coincidentemente era brasileiro. Fomos apenas em 5 pessoas: um turco, três meninas canadenses e eu. O guia nos disse que aquele era um dia atípico, pois geralmente se juntam de 15 a 30 pessoas. Como nos encontramos no metrô ao lado da Bastilha, os guias nos levaram nos "pubs" da região mesmo.

Não gostei dos bares. Todos lotados demais, abafados, pessoas esfregando muito e só tocava rap americano (como se não bastasse, numa altura de estourar os tímpanos). Um show de vulgaridade. Por sorte, o último bar que o rapaz nos levou era mais calmo, então deu pra conversar bastante. Das 3 meninas canadenses, somente uma acertou que a nossa capital era Brasília. As outras acabaram me pedindo para falar um pouco sobre a história do Brasil. Como eu já estava mais pra lá do que pra cá (e depois de uma carraspana eu viro uma arara baleada), acabei indo do descobrimento até a eleição da Dilma, em todos os detalhes que eu conseguia me lembrar. Canadenses são extremamente polidos, então todas elas perguntavam bastante, prestavam muita atenção. Não sabia se era por interesse genuíno ou educação, mas não me importei.
 
Fatos curiosos da noite: esses pubs aqui tem um sistema de triagem assim como os norteamericanos – só entra quem eles consideram dignos. Se o segurança da porta te acha feio, ele te barra. E as pessoas barradas simplesmente viram e se vão, resignadas. Em um dos bares mais calmos, aconteceu outra coisa curiosa. Tinha um japonês em um canto que estava sozinho a noite inteira. Convidei-o a sentar com a gente, mas eu não fazia ideia de que ele não falava nenhum idioma neolatino ou anglossaxônico. Em um papel que me mostrou: ele está aqui para um Ph.D em Engenharia Naval (com apenas 26 anos!). E é fluente em mandarím, cantonês, japonês e coreano. O nome dele estava em Kanji (aqueles símbolos mais complexos da língua japonesa). Ao gastar minhas duas frases prontas em japonês (Olá, como vai? Meu nome é Jales), foi o suficiente para que ele me seguisse a noite inteira pela cidade (pense na situação!). Sempre mudo, sempre dois passos atrás de mim. Era bem simpático e sorridente.
 
O outro fato curioso da noite foi que saímos do pub com fome (eu e meu amigo japonês inominado. Presumi que ele estava com fome porque não parou de me seguir mesmo após o fim da noitada). O único lugar que encontrei aberto foi um restaurante de um rapaz de Bangladesh. Ele saiu de seu país e veio parar em Paris para abrir um restaurante e, como estava muito endividado, vendeu a um francês que hoje é seu patrão. Os muçulmanos tem que rezar algumas vezes por dia em um tapete virado em direção à Meca. Um desses horários coincidiu com a hora em que estávamos comendo nossos kebabs, e nos oferecemos para ajudá-lo. Enquanto ele rezava, demos uma varridinha. Ele ficou tão satisfeito que nossa refeição saiu de graça. O japonês seguiu seu caminho e eu voltei pra dormir.
 
 Jales Rodrigues Naves Júnior é advogado, sócio-proprietário do escritório Naves & Oliveira Advogados.

Comentários

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  • 01.11.2013 13:53 LUIZ HUMBERTO

    Jale Jr. Parabéns...vc escreve muito bem..!! Gostei do seu relato um passeio de verdade. Gostei também foi do golpe da menina.kkkkk.. caiu heim...!! Te levou alguns euros..kk. Finalizando agradeço essa oportunidade de ver aos seus olhos..outras culturas. Achei interessante e pode perceber também..que os brasileiros pensam assim também em muitas coisas que você conceituo..engraçado né. Ha..me esquecendo me add ai no face tbm...viu primo. abç. Fica com Deus. Saudações. Luiz Humberto, Goiânia- Go.

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