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Cristina Lopes Afonso

A caminho da inquisição

Feliciano quer implodir direitos gays | 25.11.13 - 10:06

 
Goiânia - Feliciano, mais uma vez, conseguiu agir na calada da noite (ou, melhor dizendo, aproveitando-se das sombras de um noticiário viciado). Além de fazer passar na sua comissão a ideia de um plebiscito para discutir a união de pessoas do mesmo sexo, também avançou no sentido de anular decisão do Conselho Nacional de Justiça, que determinou aos cartórios de todo o país a obediência à decisão do Supremo Tribunal Federal liberando uniões gays.
 
Feliciano quer, na verdade, implodir o direito dos gays de se unirem aos seus pares. Quer passar por cima de uma conquista histórica e, pior, usando a opinião pública como refém e cúmplice da sua doentia e estranha obsessão pelo tema.
 
Fazer um plebiscito para discutir a destruição de direitos de uma minoria, que não ferem em nada os da maioria é, no mínimo, uma tremenda insensatez. Isso porque o casamento gay não substitui o casamento entre homem e mulher, não havendo nenhuma relação de prejuízo entre um e outro tipo de matrimônio. A recente conquista (graças ao STF, pois a maioria dos deputados se acovarda diante dessa pauta) apenas estendeu aos gays um direito que os héteros sempre tiveram e continuam tendo - e isso no âmbito das leis, não nos templos religiosos, que continuam com total liberdade para impor suas regras homofóbicas aos seus fieis.
 
Jesus nunca condenou seus fiéis. Ele com suas palavras e ações lembra que o momento presente não é um tempo para atirar pedras, mas para construir a fraternidade, a tolerância, o amor e a misericórdia. Ao invés de nos preocuparmos com a intimidade de alguém ou com suas escolhas individuais devemos criar políticas públicas para a melhoria da saúde, educação, cultura e mecanismos de combate a violência.
 
Feliciano quer, na verdade, botar fogo no paiol. Ele quer criar uma guerra "santa" por meio de um "você decide" que custaria muito aos cofres públicos, gerando um debate dogmático e medieval. Sua intenção é rasgar o Estado de direito e trocá-lo pelo transe, tal qual se fazia nos idos da inquisição, agregando dízimos à sua imagem de representante-Mor da moral e dos bons costumes.
 
Se o plebiscito vingar (lembremos que Marina Silva já deixou escapar a mesma ideia absurda), Estado e igreja voltarão a se misturar em praças públicas, com fogueiras acesas para queimarem os não-obedientes ao dogma.
 
Logo, Feliciano também poderá propor que se discuta se as mulheres devem continuar votando, já que está na Bíblia que elas precisam ser submissas aos homens. Ou se não deveriam usar burca como vestimenta obrigatória.
 
Não tenho nada contra os evangélicos, tenho contra a bancada. Esta bancada evangélica tem se tornado um braço nazifascista da política brasileira, cujo maior objetivo tem sido o de usar leituras radicais de dogmas cristãos como pretextos para achincalhar o Estado de direito, disseminar ódio e minar as conquistas relativas aos direitos individuais pós-Revolução Francesa, fazendo a sociedade retroagir a costumes medievais. Essa bancada tem agido sistematicamente contra a consolidação de um Estado laico, transformando a religião que lhe serve de curral eleitoral em um parâmetro único e imposto a todos por meio da Constituição Federal, infestando os mecanismos republicanos.
 
Mais grave ainda é que tudo isso acontece sem nenhuma resistência. De um lado não se pode esperar nada, pois sempre tiveram os dois pés fincados na "moral e nos bons costumes" dos fundamentalistas. De outro, que deveríamos esperar reação, considerando suas bandeiras históricas, pouco se vêem iniciativas, pois ela está se acovardando, curvando-se aos dividendos eleitorais da tal bancada e dos seus fiéis, embebedada por projetos de poder e vícios.
 
O risco disso tudo é deixarmos os Felicianos livres para transformar o Brasil numa nação como o Irã, onde o Estado é regido por dogmas e, por isso, mulheres precisam se esconder em roupas que cobrem tudo, humilhando-se aos homens sob o risco de serem condenadas à morte por apedrejamento; onde gays são enforcados em praça pública apenas porque preferem se relacionar com pessoas do mesmo sexo; onde não há sequer liberdade religiosa, pois só existe uma religião que rege todas as leis e onde não existe educação que liberte da alienação, pois tudo é controlado por absurdas regras de um estranho "sagrado".
 
O segundo mandamento cristão nos convida a respeitar o nome de Deus. “Não pronunciarás o nome do Senhor, teu Deus, em vão” (Ex 20,7). Esse mandamento regula o uso que fazemos do nome de Deus. Mas por que não devemos abusar? Porque se é um nome santo, sagrado, devemos usá-los apenas para enriquecer nossa vida espiritual, para pedir, agradecer, para louvar e glorificar. Não devemos fazer uso do nome de Deus para defender interesses próprios e políticos.
 
O Estado laico contempla todas as religiões como direito, porém um estado religioso não contempla nenhum direito além dos mandamentos dogmáticos de uma única seita. A inquisição foi assim e queimou gente viva.
 
Em 1964, forças reacionárias, também influenciadas por moralismos, tomaram o Brasil e, por 20 anos, calaram, exilaram, torturaram e mataram os "diferentes". Felizmente, houve os que se levantassem contra e, graças a eles, vivemos uma democracia novamente. A pergunta é: quem se levanta agora para evitar que nos tornemos a República Teocrática Fundamentalista do Brasil? Eu estou fazendo a minha parte.
 
 
Cristina Lopes Afonso é vereadora pelo PSDB e Presidente da Comissão de Direitos Humanos e Cidadania.

Comentários

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  • 25.11.2013 10:55 Luciana

    Vereadora suas palavras me emocionam. Estou aqui do outro lado chorando e pedindo que Deus jamais tire suas forças para lutar pelo direitos de uma minoria. Obrigada obrigada obrigada. Comecei meu dia com um ótimo astral.

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