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Rimene Amaral

Condenado pela memória

Me esforcei para reconhecê-la | 17.12.13 - 16:49
Confesso que não fazia ideia de quem era. Assim que coloquei o prato na mesa, a mulher entrou no restaurante, empurrando um carrinho de bebê, com uma linda criança. Menina. Percebi porque tinha uma fita vermelha em volta da cabeça e, bem no topo, um laço vermelho, cravejado de pedrinhas brilhantes, que caía nos olhos da pequena peruazinha. A mãe me viu e veio esfuziante me cumprimentar.
 
Da porta do restaurante até a mesa em que eu estava sentado, uns 30 metros, prometo que me esforcei para conhecer aquele sorriso que vinha em minha direção certo de que eu tinha plena consciência de quem era. Eu não tinha. Comecei, em fração de milésimo de segundo, percorrer todas as rodas de amigos, academia, bares, viagens, boates, postos de combustível, coquetéis promocionais... Nada! A imagem não estava nem próxima de ser encontrada.
 
Em passos firmes ela chegava cada vez mais perto. Comecei a suar. Meu coração batia mais rápido, como se eu tivesse acabado de levar um grande susto. Tentei, mais uma vez em vão, lembrar. Como a chamaria? E a criança? O que perguntar? Um turbilhão passou pela minha cabeça. Ela estava a menos de três passos de mim quando sorri escancaradamente, encarei-a sem tirar os óculos escuros, respirei fundo e disse: “E aí?”. Ela aproximou o carrinho com a criança, como se quisesse me mostrar o rebento antes de qualquer coisa.
 

 
Foi quando fiz a detecção de todo o contexto, acima já citado, e lasquei a velha e boa lábia, na esperança de que surgisse uma pista sobre quem era: “E aí (repeti), o que tem feito?”. Minha cabeça fervilhava e minha memória corria de um lado para outro como aquelas cenas de documentários sobre neurologia, em que os neurônios começam a fazer as conexões, mostrando uma corrente de energia, até que tudo passa a ser uma imensa ligação nervosa. Não houve resposta.  Esperei, então, que ela se aprontasse na mesa, com o carrinho de bebê ao lado, e se assentasse. Novamente dirigi o olhar a ela e perguntei: “O que tem feito de bom? Nossa! Como está grande!”, me referindo ao bebê. Ela permaneceu muda e me ignorando.
 
Achei que tivesse ficado chateada por eu não ter correspondido ao sorriso-cumprimento na chegada ao restaurante. Fiquei intrigado e curioso. Queria, a todo custo, saber de onde a conhecia. Levantei-me, coloquei a mão no ombro esquerdo da mulher. Ela se assustou e olhou rápido para mim. Tirou os fones de ouvido e quase virou um ponto de interrogação na minha frente. “Sim?”, questionou-me ela, com ar misterioso e já olhando por cima do meu ombro direito à procura de alguma coisa atrás de mim.

“É que você me cumprimentou, quando chegou! Como você está?”, expliquei. “Desculpe. Estava cumprimentando meu amigo, sentado ali”, apontou o dedo para duas mesas adiante. “Mas eu estou muito bem, sim”, respondeu. Forcei um pouquinho, como quem não quer dar o braço a torcer e perguntei: “De onde nos conhecemos, mesmo?”. E ela: “Não tenho a mínima ideia. Nos conhecemos?”. E saiu para cumprimentar o amigo. Fiquei mudo, abandonei a feijoada e saí do restaurante.
 
*Rimene Amaral é jornalista e fotógrafo e escreve o blog  O Dono do Tempo

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