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Rimene Amaral

Paciência a quilo

A experiência do self service | 13.01.14 - 16:30 Paciência a quilo (Foto: reprodução)
 
Goiânia - Quem nunca comeu num restaurante por quilo que atire a primeira colherada de fricassê. Com o tempo escasso, durante a semana, os restaurantes ‘entre-sirva-pese-coma-e-pague’ ganharam mais clientes que as lojas que vendem artigos chineses ao preço de R$ 1,99.

Antes restritos a arroz, feijão, carne, alface e tomate, os restaurantes agora têm um cardápio variadíssimo, com saladas diversificadas ao ponto de deixar qualquer macrobiótico com inveja. As massas, as carnes – inclui-se churrasco – e as sobremesas fazem qualquer pessoa se sentir num banquete diário na hora do almoço. Esse é o problema. Tem coisa demais para escolher.
 
Assim que se entra no restaurante já se esbarra no fim da fila. Sim. Há filas longas e lentas, primeiro, para pegar o prato. Depois começa a exposição das bandejas.

Freqüento um restaurante que oferece nada menos que 54 tipos de salada. Há coisas ali que nunca imaginava existir. E olha que conheço bem de comida. Junto com o que pode ser servido como entrada vêm os patês, suflês e todos os pratos derivados da culinária francesa, incluindo o fricassê – que fiquei sabendo há pouco, o original não contém frango. Começa a via-sacra e o teste de paciência.
 
À sua frente sempre tem: uma garota magra que conta os caroços de lentilha que estão na colher e vão para o prato; uma mulher de meia idade que se propôs a entrar na dieta justamente naquele dia – esta, ainda na dúvida, coloca tudo no prato e depois devolve metade porque a consciência pesou com a quantidade de batata; uma mãe tentando convencer o filho que acabara de sair da escola a comer alguma coisa que não seja arroz e batata frita; um senhor que não consegue enxergar direito e enche o prato de grão de bico, achando que são bolinhos de queijo e, quando percebe o engano, cai na risada e devolve tudo para a bandeja, jorrando saliva num raio de quatro bandejas para cada lado – já me eliminam oito ‘misturas’... e a paciência.
 
Tem também aquela dondoca indecisa, uma das figuras diárias que mais me irritam nas filas dos restaurantes. Ela coloca 17 pedaços de beterraba escolhidos cuidadosamente – todos medindo dois centímetros cúbicos – e percebe que é demais. Devolve oito para a bandeja. Viu que ficaram nove. Mas ela gosta de números redondos e pega mais um. E assim ela faz com o arroz, o feijão e tudo o que pode ser contável naquele infindável cardápio. Eu estou ali, bem atrás, esperando pacientemente que ela se decida pelas suas quantidades. Quase desejo sua morte.
 
Dia desses havia uma senhora bastante debilitada à minha frente, na fila, não sei se surda ou com mal de Alzheimer. E eu esperando com toda a paciência que Deus me deu. A acompanhante dela gritou seis vezes perguntando se ela queria “patê de palmito com salmão defumado”. Seis vezes! Tive de intervir e abortar a sétima tentativa. Expliquei que palmito, para uma senhora daquela idade, poderia causar botulismo. A acompanhante botou a mão direita no peito, apertou os olhos, exclamou alguma coisa que não consegui entender e passou para o próximo prato. Agilizei a fila em dois minutos, um ganho considerável de tempo, visto que em alguns momentos a fila para.
 
Daí vem o churrasco e as pessoas acham que estão em casa, num sábado à tarde, à beira da piscina e sem nada mais para fazer do que ouvir pagode o resto da tarde e jogar conversa fora. Exigem que o churrasqueiro pegue todos os espetos para ver qual é a carne que mais vai agradar.

Quando alguém aponta a carne com o pegador e pede pra ver do outro lado e não sabe se aceita ou não, eu desisto. Fico só no carboidrato com salada porque, naquele momento, a paciência já era e a fome está indo junto. Sem falar que ainda é preciso enfrentar a fila da balança e encarar o garçom, que sempre espera a gente enfiar a primeira garfada na boca para chegar do lado e perguntar: “O senhor já foi atendido? Vai beber alguma coisa?”. 
 
*Rimene Amaral é jornalista e fotógrafo e escreve o blog: odonodotempo.blogspot.com

Comentários

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  • 22.01.2014 17:20 Rogério Martins

    Rimene, você se esqueceu de dois tradicionais tipos: Os que querem te ultrapassar na fila a qualquer custo e os que ao invés de aguardar pacientemente o quitute desejado, saem da fila fazendo zigue-zague e depois voltam lá no começo porque não colocaram o arroz.

  • 17.01.2014 11:32 Ethienne

    E aqueles que pegam feijão e depois enfiam a colher do feijão no arroz... uma beleza o tanto que o ser humano acha que o mundo está ali só para eles...

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