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Luiz Siqueira

Por que roubam os ladrões?

Vítima quer é justiça | 13.02.14 - 18:34
Goiânia - Dia desses voltava  logo cedo da academia pedalando. Sim, eu começo o dia pela academia. Provavelmente não é a melhor  maneira de se começar  um dia. Mas é como eu o divido. Fico satisfeito de ouvir do médico que todas as minhas taxas estão no meio de um intervalo que possui dois cães em suas extremidades.
 
Voltando, vejo uma confusão próxima a uma praça. Carros de polícia ao redor de uma conhecida loja de eletrônicos. Não parei. Mas vi do banco da minha bike, um homem na parte de trás do carro da polícia. Funcionários da loja na escada olhavam e davam explicações aos que lá paravam.

Tive uma vez minha casa roubada. Cheguei da rua e a encontrei toda revirada. O ladrão (ou ladra) gostou particularmente de um tênis branco recém­adquirido. Mas o que mais senti falta foi de um relógio que tinha ganhado de aniversário da minha mãe assim que fiz 18 anos. Tinha gravado na parte de trás a data. O sentimento não poderia ser pior. Alguém, de quem não se tem qualquer pista, conhece os seus horários, invadiu a sua privacidade. Nessa época lembrei do livro O Caçador de Pipas, em uma passagem que um dos personagens reflete sobre o roubo e os pecados.

 
"Existe apenas um pecado […] roubar. Qualquer outro é simplesmente a variação do roubo. Quando você mata um homem, está roubando uma vida. Está roubando da esposa, o direito de ter um marido, roubando dos filhos, um pai. Quando mente, está roubando de alguém o direito de saber a verdade. Quando trapaceia, está roubando o direito à justiça […]" O Caçador de Pipas, Khaled Hosseini.
 
Lembrei do meu ladrão, que roubou a si mesmo quando veio me roubar. Não pensei qual ou quais motivos o teriam levado ao furto. Acho que ninguém pensa nisso na hora. A gente quer mesmo é colocar o bandido atrás das grades, quer justiça, sangue, sei lá, depende do que nos foi tirado. Mas pensei no que quem rouba se nega.
 
A confusão na loja de eletrônicos me lembrou um tempo atrás quando fui monitor. Minha função era tirar dúvidas dos alunos, vigiar provas, ajudar o professor. Notei certa vez que a minha planilha de  notas  estava  diferente  da  do  professor. E foi  quando  descobrimos  que  a sala  dele tinha sido invadida. Talvez os alunos teriam sido bem­ sucedidos  não fosse  a  existência da minha planilha.
 
Fiquei  sabendo  depois  que  estavam  desesperados  para  passar,  pois  já  haviam  reprovado  duas Colocando assim pareço equiparar crimes de naturezas diferentes. Mas ainda sigo a lógica do trecho do livro. E de uma origem no mínimo plausível para muitos crimes: o desespero. Não comento a natureza dos roubos de caça níqueis, dos chamados jogos de azar, dos do alto escalão de governabilidade do nosso país. Mas dos outros roubos. Os de r minúsculo.
 
Por que roubam os ladrões? Não sei. Você sabe? Honestamente, não teria como saber, do alto do meu apartamento, de frente pro meu notebook, com as oportunidades que tive e que tenho. Mas posso  cogitar possibilidades. Não  quero  aqui isentar  de  culpa  ou minorizar  crimes. Fui também vítima e sou isca como qualquer um. Mas sejamos sinceros. Embora muitas vezes seja bem mais fácil condenar as bruxas à fogueira, fato é que nem todo mundo rouba por que quer.
 
O tempo que demorei pra passar por aquele carro de polícia com o homem no banco de trás, já condenado por todos ali, foi o tempo que levei pra lembrar dessas experiências. Foi o tempo que aqueles alunos se lembraram e espero, se lembrarão do ocorrido. Foi o tempo que demorou pra que eu fosse pensando que motivos o teriam levado àquela loja, em plena luz do dia. Foi o tempo que ele não levou para  estudar, se formar, ter emprego e ir à loja para comprar o que queria, o que precisava ou nem isso.

Luiz Siqueira é estudante do curso de comunicação social na UFG

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