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Rafhael de Paulo

Como viajar sem dinheiro?

Um desafio para uma mente sã | 05.03.14 - 16:03
Goiânia - Há alguns anos me propus um desafio nada normal para uma mente sã, pelo menos não para minha mãe, e no finalzinho de novembro de 2013 decidi que era hora de riscar um dos itens da minha listinha de coisas para se fazer antes de morrer. No dia 26 de dezembro de 2013 às 07h30 saí de casa para rodar quase 10 mil km de carona e sem nenhum centavo no bolso, a meta era passar pelas capitais do Paraguai, Argentina e Uruguai e voltar pelas capitais da região sul do Brasil.

 

 
Comigo viajaram somente Deus e alguns itens básicos de sobrevivência: roupas, barraca, saco de dormir, isolante térmico, alguns remédios, lanterna, canivete, protetor solar, itens de higiene a bíblia e “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota” do Olavão!


Bem, nesse momento você com certeza já está pensando como a minha mãe, não estranhe, o que eu mais ouvi durante a viagem foi a seguinte afirmação: isso é loucura!

A primeira lição que tiro da viagem portanto é que mãe está sempre certa, até quando estão erradas estão certas, e não é trocadilho barato, é só a realidade desse mundo.

Bem, você também deve estar se perguntando porque cargas d´agua alguém quereria (a palavra está correta) fazer uma viagem nessas condições; não importa o quanto eu argumente, é algo muito pessoal, mas vou tentar pontuar alguns fatores que somados motivou essa aventura:

1 – Tive vontade de fazer; (não sei por quê);

2 – Queria testar meus limites;

3 – Estou cursando meu último ano de relações internacionais e precisava decidir o meu tema de TCC;

4 – Amo conhecer lugares novos e fazer novas amizades;

4 – Amo viajar;

6 – Precisava descansar a cabeça e cansar o corpo;

7 – Ser orgulhoso ao extremo não te deixa evoluir.

Tudo isso somado fez com que em menos de um mês eu organizasse tudo. A parte mais difícil não foi organizar roteiro, aprender sobre a mochila mais apropriada, o que levar ou não levar, mas sim convencer meus pais de que era possível sair incólume e muito feliz dessa jornada. Não moro com meus pais desde os 17 anos de idade, mas enquanto eles respirarem não abro mão da bênção deles para nada que eu for fazer, depois de muita explicação e um pouquinho de insistência me deram a bênção e ai foi só ensacar tudo e vazar na braquiária.


Em menos de 15 minutos após sair de casa tive que enfrentar meu primeiro gigante, nunca tinha pedido carona na vida, admito que foi bastante constrangedor ficar em um semáforo pedindo carona, a sensação é aquela de que estou incomodando, na verdade muitas vezes é, mas era a minha única saída, contar com a boa vontade de alguém para me levar próximo a BR 153.

Estive em evidência o tempo todo durante minhas andanças por causa da mochila estilo aventureiro, admito que enfrentar os olhares expressivos do povo nas ruas e de alguns motoristas que abordava não foi muito agradável em muitos momentos, uns olhavam com total desprezo, outros com uma interrogação na cabeça, e alguns poucos com aquele olhar de admiração, tipo assim, eu não sei o que esse cara vai fazer, mas parece legal.

Em Prata no estado de Minas Gerais experimentei uma das piores sensações, ouso dizer que era algo que nunca tinha sentido, o desprezo; enquanto me encaminhava em direção a um senhor que saia de um Corolla percebi que mudou subitamente sua expressão facial, quando comecei a conversar com ele com aquela cara de que ia pedir carona ele foi muito grosseiro em suas respostas e falou tudo me dando as costas, foi como um tapa na minha cara naquele instante, mas, me fez lembrar que em alguns momentos eu também tratei assim muitas pessoas, ficou a lição...

Viajar de carona me fez conhecer mundos muito particulares, um deles foi o dos caminhoneiros, depois de quase 9000 km posso dizer com propriedade que conheço um pouco da rotina deles e também dos caminhões, viajei em todos, Iveco, Scania, Volvo e Mercedes. Enfrentar a estrada não é tão fácil quanto parece, esses guerreiros vivem situações diárias de perigos, seja ela por causa de roubos de carga, estradas ruins propícia a acidentes, rotinas longas e estressantes ao volante e etc. Tive a oportunidade de escutar inúmeras histórias, experiências de assaltos, quebras e acidentes, cada uma mais louca do que a outra, que se fosse relatar aqui você rapidinho se cansaria de ler, e por fim, eu também tive as minhas experiências com a estrada.

Em Assunção um caminhoneiro paraguaio chamado Sergio Lazarte me deu carona, gente finíssima, piadista e admirador de música goiana, nem preciso dizer qual estilo é né? Ele estava indo para o Chile e logo no primeiro dia de viagem até Santiago em algum lugar na Argentina passamos por um caminhão com um pneu estourado, ele logo encostou para poder ajudar, enquanto tentávamos tirar a roda o chão não aguentou o peso da carreta carregada e o macaco afundou na terra, fazendo com que a carreta caísse e quase virasse em cima de nós, quase precisei utilizar os elementos da fauna e flora ao nosso redor. Seguimos viagem e no quarto dia depois de me maravilhar com as belíssimas imagens durante a subida da Cordilheira dos Andes chegamos ao Chile no topo das cordilheiras, na aduana Los Libertadores a 3200 metros de altitude, a meta era chegar naquele mesmo dia em Santiago que estava a cerca de 200 km, entretanto, o caminhão desligou e não ligou mais. Saímos de 43 graus às 3 da tarde para quase zero durante a noite em que passamos lá, esta foi a única noite que tive que passar dentro do caminhão, somente para não ter uma hipotermia. Valeu a experiência.




Mas não foi só de caminhão que viajei, dentre um trecho e outro alguns aventureiros de carro particular me carregaram, e para minha surpresa e espanto até mulheres resolveram encarar o perigo da carona e me ajudaram a completar alguns destinos. No vai e vem encontrei dois rapazes fantásticos, super divertidos e amigáveis que trabalham atravessando mercadorias de um país a outro.

Meus primeiros 2 minutos com eles foram um pouco tensos, pois não estava acostumado a viajar a 180 km/h e algumas vezes colar o ponteiro, e o frio na barriga só aumentou quando me contaram que a polícia vinha atrás e que se alcançassem teriam que dividir o dinheiro comigo para que ficassem dentro da cota que pode ser transportada por pessoa sem que tenha que prestar contas da origem do dinheiro.

A polícia não alcançou, o carro não capotou e o meu destino então chegou. (Bem rapidinho só pra constar). Depois de comer muita carne assada com eles e recusar R$ 15 mil para dirigir por 22 horas fui para um posto de gasolina, estes que foram minha casa durante quase toda a viagem.


Outro mundo que conheci foi o dos frentistas, afinal de contas, se não estava hospedado por alguém era nos postos que tomava banho e armava minha barraca para dormir, assim foram por 16 dias. De quebra, estes postos sempre tem algum restaurante com um gerente gente boa, com a simples disposição de tirar um lixo, varrer, ou lavar uns pratos foi possível quase sempre conseguir dormir de barriguinha (leia-se barrigona) cheia. Teve os dias em que comer não foi possível, mas foram 3 ou 4 no máximo, pouco para quem saiu sem nenhum tostão furado.

Admito que o mais pesado de tudo foi ter que dormir dentro da barraca em cima do isolante térmico que além de esquentar muito, é pequeno e muito desconfortável, acho que minha maior dificuldade com essa viagem foram as noites mau dormidas. Voltando aos frentistas – foram através deles que tive uma perspectiva dos países que passei e das cidades por onde dormi, além de contar também com aquela ajudinha para as caronas.


Durante uma parada mais que especial em Foz do Iguaçu tive a oportunidade de trabalhar no Brasa Burguer, simplesmente o local onde se fabrica o melhor hambúrguer de Foz, das 4 noites que passei por lá, em duas delas das 17h as 01h você podia me encontrar debruçado em uma pia, lavando um numero incontável de pratos, copos, talheres e jarras; enfim, depois de muita dor nas costas e uma experiência sensacional com pessoas interessantíssimas, consegui levantar R$ 90,00, e ainda garanti a bóia por duas noites.






Mas não teria sido tão legal se não fosse uma galera muito especial que conheci na Igreja Presbiteriana de Foz, me adotaram, literalmente, fiquei hospedado em um apartamento que a igreja tem, o quarto tinha ar-condicionado e tudo.

Não vou citar nomes para não esquecer ninguém, mas vou resumir o que aquele povo querido fez por mim:

1 – Me hospedaram no AP da igreja;

2 – Comidinha gostosa todos os dias;

3 – Lavaram minha roupa;

4 – Me levaram para a festa de fim de ano;

5 – Me levaram para passear no Paraguai e Argentina;

6 – Pagaram uma passagem de ônibus de Ciudad del Este até Assuncíon;

7 – Fizeram uma vaquinha e me deram quase R$ 150,00;

8 – Me divertiram e foram cúmplices dessa minha loucura.

Sou grato a Deus por cada um daqueles anjos de Foz, são amigos que quero eternizar.


Resumindo, consegui cumprir meu objetivo, não exatamente da forma que programei no início, mas posso afirmar que me surpreendi com os resultados e na forma em que tudo aconteceu. Não passei pelo Uruguai, entretanto fui até o Chile que não estava no roteiro. Descobri que uma viagem assim você não pode ter data para voltar e nem um roteiro travado, tive que recusar alguns convites interessantes, como passar alguns dias em Viña Del Mar em uma casa de praia com alguns amigos que conheci no Chile.

Impossível contar aqui todas as emoções, experiências e histórias vividas, quem sabe em um futuro não tão distante essa viagem não se torna um livro!





Sou grato a Deus por cada anjo que ele colocou em meu caminho desde o dia em que sai de Goiânia até o dia em que regressei. Da mesma forma sou grato pela noite em que dormi embaixo de um caminhão, uma que dormi a beira da estrada e também das noites em que passei calor dentro da barraca e ainda dos dias em que dormi com fome e sem banho. Cada pequena experiência mostra o valor que existe nas pequenas coisas. Tudo isso reforçou a beleza de um sentimento que hoje aprecio muito mais, a gratidão, exercita-la fez toda a diferença para mim.

Por fim registro aqui o nome de quase todos que me ajudaram no caminho e desejo a eles muita alegria e paz, e tenho certeza de que aquilo que se planta colhe, portanto colherão carinho e muito amor.

*Rafhael de Paulo é estudante de Relações Internacionais e escreve o blog Cappuccino Sentinela.


Comentários

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  • 01.08.2014 21:20 Jéssica

    Nossa incrível, inspiradora sua história. Logo mais farei minha viagens também, só estou esperando o momento certo. Lindo ver que Deus te guardou e te deu chance de ver o mundo de forma diferente. :D

  • 28.07.2014 20:06 Marcela

    gostaria de fazer isso, mas chegar em casa sem ser estrupada,sem aids,com o corpo inteiro... apesar de tudo é bom isso para homens, para eu q sou mulher a coisa é mais embaixo

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