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Educação

Pela bolsa bom senso

Consumismo e a bolsa família | 14.04.14 - 20:23
 
Goiânia - Quem tem filhos adolescentes dificilmente passa incólume pelo besteirol que povoa a internet. São vídeos, músicas, paródias e personagens esdrúxulos que se alternam numa velocidade surreal, fazendo os 15 minutos de fama preconizados por Andy Warhol parecerem uma eternidade.

A maioria dos posts, de fato, não rende mais que alguns segundos de atenção e desaparece da memória quase que instantaneamente para, em seguida, dar lugar a outra “novidade”. No entanto, um desses vídeos, apresentados a mim pela minha filha e suas amigas, todas na faixa dos 10 anos, há alguns dias, não me sai da cabeça. É uma paródia musical feita a partir de uma entrevista realizada por uma emissora de TV de São Luis (MA) a uma beneficiária do bolsa família.



 
Na entrevista, Francisca Alves reclama que o benefício mensal que recebe do governo federal, no valor de R$ 134,00 não está dando nem para comprar uma calça para sua filha, “pois uma calça para uma jovem de 16 anos custa mais de R$300,00”. Ela ainda questiona o fato de sua bolsa família nunca ter aumentado em mais de oito anos, tempo pelo qual vem recebendo o auxílio.

Na verdade, o vídeo não é recente – ele foi postado no Youtube em maio do ano passado, logo depois que a entrevista foi ao ar – mas na minha opinião, permanece extremamente atual, principalmente se considerarmos que estamos em ano eleitoral e qualquer questão que envolva programas governamentais voltados para o desenvolvimento do país mereça ser analisado com olhos mais atentos.

Se levarmos em conta o último relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI), que reduz a perspectiva de crescimento do Brasil em 2014, a relevância de tais análises se faz ainda mais premente. Mas isso é outro assunto. Voltando ao vídeo em questão, é preciso deixar claro que o incômodo gerado não tem nada a ver com a postura de Francisca e, paradoxalmente, incide sobre essa postura. Explico: acho complicado e pretensioso julgar alguém que há até pouco tempo tinha que privar a si e a sua família de itens básicos de sobrevivência, como alimentos e produtos de higiene e que, de repente, se vê como parte integrante do mercado de consumo e passa a aspirar uma participação ativa nesse mercado. Mas também acho complicado que não haja programas governamentais paralelos de educação – e aqui não falo especificamente de educação formal, mas de educação voltada para a cidadania – direcionados para o segmento da população que passa a lidar com novas demandas e responsabilidades.

De acordo com o Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), o bolsa família é um programa de transferência direta de renda destinado a famílias que se encontram em situação de extrema pobreza, que tem como foco brasileiros com renda familiar per capita inferior a R$ 70,00 mensais, visando a superação de vulnerabilidade.

Deveria ser usado, então, para suprir necessidades básicas como alimentação de melhor qualidade, pagamento de transporte público e investimento em educação (agora, sim, em educação formal), sem comprometer ainda mais o orçamento familiar, já comprometido na fonte.

Dessa forma, penso eu, as famílias teriam condições de preparar para seus filhos um futuro mais alentador que a própria realidade. Uma calça de grife, que custa mais de R$ 300,00 não deveria ser uma meta de consumo nem de pessoas em situação financeira vulnerável, nem de ninguém que se guie pelo bom senso.

E é aí que eu vejo a pior falha de todo e qualquer programa social de governo, que dá a vara, mas não ensina a pescar. Que incrementa as possibilidades de consumo, mas não ensina o sujeito a se comportar racionalmente perante o mercado. Obviamente, o consumo irracional e a exaltação do ter sobre o ser não são prerrogativas de nenhum grupo específico, nem exclusividade de determinada classe social, mas é um comportamento bem arraigado em nossas mentes terceiromundistas (em países europeus, o compartilhamento de bens de consumo em detrimento de sua posse já é uma tendência consolidada) e vem criando tensões sociais e expectativas inatingíveis.

Por isso, antes de ridicularizar alguém que manifesta seu descontentamento por não conseguir se vestir de acordo com a ditadura social, embora ainda não tenha acesso nem à educação básica, à saúde, moradia e segurança, é preciso reconhecer que o que falta aos brasileiros – e sobretudo ao governo –  é bom senso.
 
Silvana Monteiro é jornalista e mestre em Educação pela UFG

Comentários

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  • 29.04.2014 14:55 Pedro

    Prezada Silvana, Acho que falta bom senso a você. Comprar uma calça de 300 reais é uma aspiração legítima de qualquer pessoa, notadamente aquelas que nunca tiveram a oportunidade de sequer entrar num shopping center. O Governo Federal sabe do défcit de educação da grande parte da população brasileira, só que isso não se corrige numa canetada da Presidenta Dilma, é uma decisão que envolve Congresso Nacional, partidos políticos, mídia, etc. Sabedora do quanto a elite nacional repudia o acesso da população ao ensino público de qualidade, a senhora deveria ser mais certeira ao apontar quem realmente não tem bom senso neste país.

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