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Rimene Amaral

O portal dimensional dos objetos perdidos

Faxina é fundamental | 24.06.14 - 20:15
Faxina! Talvez uma das palavras que mais metem medo no ser humano e cuja ação é das mais proteladas por quem, de fato e por necessidade, deve fazê-la. Se deixou passar aquela temporada de mudanças, que dura até uma semana antes do Carnaval, já era. De agora até o Réveillon, só se realiza faxina por etapas, aos poucos. Nunca se resolve o problema de uma vez só. Primeiro o escritório, onde mora o computador, cujo monitor só é enxergado os dois terços superiores, devido ao acúmulo de papeis.

Depois, aquele temido quartinho para onde todos os entulhos dispensados na mesa da sala vão parar. Por anos. É ali, naquele antro, que a diarista desova todo e qualquer papel, embrulho de presente, caixas de sapato, contas pagas – e a pagar! – sacolas promocionais e tudo, mas absolutamente tudo o que ela encontra e não tem coragem de jogar fora por achar que ainda é necessário. Listas telefônicas existem, em algum lugar ali, em quantidades que, se voltassem a ser matéria-prima, poderiam reflorestar um bioma inteiro. Cartões de visita são como praga e a grande maioria é de corretores de imóveis.

Já percebeu como papel se prolifera? Basta ter ar e nada mais. Se ficar um pedacinho, uma mudinha, em pouco tempo se transforma numa montanha. E como se multiplica rápido! Nos escritórios domésticos e nos quartinhos renegados à desordem e ao acúmulo desses seres, existem dimensões interestelares e portais dimensionais por onde coisas escorrem ou são sugadas e... puft! Somem definitivamente. Dizia uma amiga minha que já perdeu a aliança de casamento, certa vez, quando enfiou a mão em um desses bolsões à procura de um livro. A mão voltou sem o livro e sem a aliança. O casamento acabou três dias depois. Nunca mais encontrou o anel.

Outra amiga descobriu um mundo subterrâneo no planeta onde habitam as canetas desaparecidas, para onde todas elas vão quando somem das nossas fuças. E como somem... Junto com elas devem estar também os comprovantes de votação das últimas três eleições – 1º e 2º turnos –; o pedido de exames, em papel timbrado do seu plano de saúde, para um check up que você solicitou ao seu médico um ano atrás; e aquelas fotografias que você mandou imprimir, quando ainda estava todo empolgado coma última viagem feita à Europa, jurando que ia emoldurá-las e expô-las na parede da sala. E mais papel: uma infinidade de revistas que prometem, a todo custo, emagrecer cinco quilos em uma semana e transformar a barriguinha de chope em tanquinho. E você comprou na fila do supermercado sabendo que jamais funcionaria.

O pinscher de um empresário, também amigo meu, estava desaparecido. Ele o encontrou depois de dois dias dormindo abraçado a um osso de pé de frango, dentro de um monitor antigo do primeiro computador que ele nem sabia que ainda mantinha. Servia de peso de papel e suporte para a antena interna do som que... “onde está mesmo o aparelho de som?”, questionou-se coçando a testa, enquanto me explicava a situação. Esta semana fui atrás do documento com as duas parcelas pagas do IPVA do meu veículo, para solicitar a terceira e, enfim, sacar o documento. Desisti depois de quatros horas indo e vindo de várias dimensões. Os portais me cansaram e fui obrigado a pedir arrego às forças externas governamentais.


*Rimene Amaral é jornalista e fotógrafo e escreve o blog: http://odonodotempo.blogspot.com

Comentários

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  • 27.06.2014 15:40 Sandy Sousa

    Me identifiquei totalmente. No Sítio do Pica-Pau Amarelo essa dimensão onde ficam os objetos perdidos chama-se Beleléu. Todas canetas Bic e isqueiros vão parar lá...

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