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Alexandre Baldy

Dura lição alemã não pode parir outra “Era Dunga”

Precisamos aprender com a derrota | 24.07.14 - 16:10
 
Goiânia - Ainda não engolimos o vexame na Copa do Mundo. Os 7 a 1 para a Alemanha pode nos marcar para sempre, talvez mais do que o histórico 2 a 1 naquela final de 1950, no Maracanã. Com os meus humildes oito anos como goleiro, nas categorias de base do Goiás, arriscarei o meu pitaco com uma pergunta: o que aprender com a derrota? E outra: Dunga é a solução?
 
Podemos aprender muita coisa. Primeiro, devemos entender que o resultado representa não apenas um fracasso retumbante do Brasil na bola, mas a vitória de uma nação que soube investir em futebol. A Alemanha é hoje um país muito bem resolvido com seu esporte predileto.
 
Após amargar derrotas sucessivas desde 1990, os dirigentes e políticos do país resolveram investir no futebol, sobretudo a partir de 2002, quando perderam a final da Copa justamente para nós. E fizeram isso não apenas pensando no futebol. Tinham em mente um projeto bem maior: unir a nação, que é um caldeirão de nacionalidades e imigrantes.
 
Podemos, sim, aprender tanto no esporte quanto na construção de um Brasil mais moderno e competitivo. Para se ter ideia, nos anos 2000, a Alemanha não tinha craques para apresentar ao mundo. E seu campeonato era uma desorganização que muito se assemelhava ao nosso país e ao próprio Brasileirão. Qual a fórmula da Alemanha? Investir nas categorias de base em vez de esperar que surgissem valores individuais – como se faz no Brasil.
 
Outra postura: produzir público e interesse. A cada ano o país viu surgir vitórias. A Alemanha tornou-se seleção cativa nas últimas semifinais, reformulando suas prioridades e desejos. E hoje, jogadores como Mario Goetze, André Schürrle, Marco Reus e Thomas Müller mostram o que podem fazer: nada menos que sete gols no Brasil, o (pelo menos até aqui) país do futebol.
 
É muito mais do que trocar o técnico, como parece ser a intenção da CBF. Não se sabe o que Dunga fez, nos últimos quatro anos, para justificar uma nova passagem como treinador da seleção. Será preciso algo mais profundo, estrutural.
 
Por sua vez, a política brasileira também aprenderia muito com essa virada de mesa alemã. Nosso sistema representativo está hoje com a mesma credibilidade do futebol alemão do começo do século.  Se em meados do ano 2000, a Alemanha era sinônimo de futebol decadente, hoje poucos brasileiros acreditam no Congresso Nacional.
 
E os parâmetros são os mesmos: falta de renovação, ausência de pessoas realmente vocacionadas a trabalhar por causas que acreditam e desilusão com os resultados. Não seria absurdo comparar a seleção do 7 a 1 com a classe política, que possibilita altas taxas de juros, que permite ao governo federal mandar e desmandar sem ouvir os setores produtivos e que admite a corrupção como uma prática comum.
 
É verdade: sabemos que a corrupção do futebol não é menor do que a que temos na política. Por isso, as comparações. É urgente, portanto, que a aula alemã dada em Belo Horizonte seja aceita e investigada em todos os setores, inclusive na política e economia do país. Não raro os produtos são mais caros e de qualidade questionável no Brasil. Permitimos a imposição de tributos abusivos e quando observamos um projeto vitorioso, vemos políticos interessados em derrotá-los.
 
Um exemplo é a produtividade goiana, que tem sido destaque nas séries históricas do IBGE sobre industrialização e comércio exterior. Graças ao sistema tributário que permite atrair grandes indústrias, Goiás tem sido líder no Brasil. Todavia, uma forte pressão deseja acabar com nossa política de atração de investimentos.
 
Por isso mesmo é hora de repensar o Brasil com projetos vencedores, que realmente façam o país crescer e que permitam a diversidade. Investir na mudança exige vontade e interesse. Na Alemanha, a DFB (Associação Alemã de Futebol), a CBF dos alemães, teve papel fundamental: criou 366 centros futebolísticos no país e colocou as crianças para jogar. Depois selecionaram as melhores e realizaram amplo acompanhamento.  O 7 a 1 é o resultado desse investimento.
 
A questão agora é saber se estamos realizando este investimento na política e economia do país. Se a resposta for negativa, uma sugestão: está na hora de começarmos, afinal a colheita demora. Mas é gratificante vencer, mesmo que demore mais do que o habitual.
 
*Alexandre Baldy é formado em Direito, ex-secretário de Indústria e Comércio de Goiás e vice-presidente do Sindicato das Indústrias Farmacêuticas de Goiás.

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