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Economia

Inflação, real e eleições

É hora de um plano real 2 | 30.07.14 - 13:07
Goiânia - Neste ano o plano real comemora duas décadas de existência. Os jovens brasileiros que têm uma idade semelhante à da moeda nacional desconhecem de experiência própria o drama social que é administrar a própria vida num panorama econômico de hiperinflação como o que antecedeu à reforma econômica que instituiu o real. Documentário de arquivo do Canal Globonews apresentou há alguns meses um programa que resgatava a memória daqueles tristes dias. Uma reportagem da época, que hoje poderia ser classificada de tragicômica, apresentava uma espantada repórter informando seus telespectadores sobre o absurdo do descontrole de preços. Como exemplo, ela segurava uma bolsa feminina nova, sem maiores predicados de grife, cujo preço era superior ao de uma motocicleta zero quilômetro.

De igual maneira, livros que retratam o período apresentam exemplos idênticos: um fogão de brinquedo chegava a custar o mesmo valor de um fogão de verdade. A espiral inflacionária era tão alucinante que em diversos momentos houve a necessidade de cortarem-se os zeros do valor monetário para que as calculadoras e bombas de gasolina pudessem calcular e conter respectivamente os preços dos produtos comercializados.

Em sua letra da canção Faroeste Caboclo, Renato Russo, da banda Legião Urbana, cantava que o herói de sua música, Santo Cristo, “ganhava 100 mil por mês em Taguatinga” e “até a morte trabalhava, mas o dinheiro não dava pra ele se alimentar”. Esta memória de autêntico pesadelo econômico que é bastante familiar aos brasileiros que naquele período pré-1994 já eram economicamente ativos, faz com que a ideia de uma inflação alta, sob qualquer argumento que seja, torne-se insuportável.

Mesmo quando a justificativa para aceitar-se uma disparada inflacionária de preços seja a do crescimento do País. À época dos governos militares, o então ministro Delfim Netto cunhou uma metáfora em torno desse problema, que talvez viesse a funcionar em qualquer outro país, menos no Brasil. Segundo ele, era necessário primeiramente fazer o bolo crescer para depois distribuí-lo.

Acontece que o nó górdio da evolução social brasileira é exatamente este. Por mais que o bolo cresça, uma minoria ficará com grande parte dele para fartar-se, enquanto à grande maioria estarão destinadas as migalhas do bolo. Assim, a conquista econômica de um índice inflacionário civilizado é algo inalienável. Com o plano real, independentemente de coloração partidária, foi cumprida uma importantíssima etapa do processo de construção brasileira com o retorno da inflação a patamares administráveis.

Outras medidas, porém, segundo a voz consensual dos especialistas em economia, deveriam ser implementadas, como, por exemplo, uma reforma tributária radical que melhorasse a distribuição de renda sem a necessidade de medidas que podem ser facilmente desviadas para o campo do populismo, na criação de autênticos feudos eleitorais. À reforma fiscal faz-se necessário também agregar uma reforma política ampla, que agilize a vida política brasileira, escoimando-a de vícios de décadas.

Bem ao lado do Brasil, há o exemplo da Venezuela, cujo simulacro de democracia regada a assistencialismo alienante transformou a figura de Hugo Chavez em uma espécie de semideus para a sua clientela, sobrepondo o personalismo de uma liderança carismática aos interesses maiores de um Estado. É uma perspectiva precária, pois os indivíduos são extremamente mais efêmeros do que uma organização nacional. Quando a individualidade cumpre a lei da natureza – um eufemismo para morte –, o país fica durante algum tempo à deriva, como hoje se vê na Venezuela, viúva de Hugo Chavez.

Estas reformas tão necessárias, além de outras mais tópicas, bem poderiam ser classificadas como um plano real 2. Onde estariam os artífices desse tão necessário segundo passo, que caso não seja dado pode colocar o primeiro passo a perder num longo prazo, é a grande expectativa dos eleitores e cidadãos relativamente politizados. Os artífices, ou o artífice dessa próxima etapa, caso não se perca nos meandros dos jogos políticos subalternos, sem dúvida passaria à história brasileira como um autêntico estadista. A sociedade já parece um tanto madura para merecer que apareçam homens públicos cujo foco principal seja um autêntico projeto de Brasil a curto, médio e longo prazo, e não um projeto de poder político-partidário como tem sido até hoje na história de nossa nação. O fraco desempenho da economia nos últimos meses tem demonstrado a urgência desse passo a mais na direção de desdobramentos necessários do plano real.

Após anos a fio de inflação elevadíssima, a expectativa dos brasileiros era de que a cada ano que se passasse, desde aquele 1994, o índice inflacionário fosse caindo paulatinamente até ao nível de países economicamente fortes, onde a elevação de preços não ultrapassa a casa de um por cento ao ano; quando muito, dois por cento. Infelizmente, não foi o que ocorreu. Para o infortúnio do Brasil, nos últimos anos o indicativo tem forçado o teto das metas estipuladas, num panorama que se projeta na sociedade em manifestações de trabalhadores das mais diversas categorias com greves sazonais para a recomposição das perdas de salários corroídos por uma espiral de inflação que mesmo baixa em relação ao período hiperinflacionário, já vai se tornando incômoda, dando mostras de uma estagnação do processo que tendia a reduzi-la sempre mais.

Pior ainda que a estagnação nestes números anuais é o risco de um gradual retorno ao patamar anterior a 1994. No ânimo daqueles que sentiram na pele as agruras de uma economia totalmente jogada ao caos em virtude da hiperinflação, paira sempre um receio de que se as conquistas destas duas décadas não forem consolidadas com avanços ousados em várias frentes, venham elas a perder-se, ou, quando não, enfraquecer-se irremediavelmente.

As políticas paliativas de transferência de renda, embora necessárias num primeiro momento, não parecem configurar um projeto de nação, pois a construção de bases sólidas em diversos setores da vida nacional contribuirá decisivamente para que, através da educação e do trabalho, os cidadãos que atualmente dependem de auxílios emergenciais tenham a condição de ganhar a própria subsistência através da dignidade proporcionada pela cidadania.

O eleitor politizado, portanto, aguarda por parte dos candidatos que se apresentarão nas próximas eleições o compromisso com propostas que não sejam meramente paliativas, mas sim que sejam consistentes em relação ao presente e ao futuro do Brasil, que não pode desperdiçar sob hipótese alguma a oportunidade de crescimento sob os auspícios de uma economia em perfeito equilíbrio em relação ao processo inflacionário que durante muitos anos cerceou a possibilidade de mais amplas conquistas no campo social.

Conquistas estas que só serão efetivas, cumpre insistir, se realizadas sob o signo de um projeto de nação e não somente de poder, seja de que partido for, seja de que personalidade for.
 
Gismair Martins Teixeira, doutorando em Letras, é professor.
 
 

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