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Rose Mendes

O preconceito nosso de cada dia

Precisamos evoluir | 20.04.15 - 16:52
Goiânia - Quanto de preconceito há na fala espontânea de uma criança? Fiquei pensando nisso durante horas em busca de respostas. Sim, respostas, pois acredito que não há somente uma resposta para esta questão. O que me suscitou este questionamento foi um fato ocorrido em um supermercado do bairro onde moro.

Uma senhora embalava as suas compras ladeada por dois adolescentes e por uma criança de cerca de quatro anos. Eu aguardava que a atendente terminasse de registrar as minhas compras quando, de repente, a criança virou pra mãe e falou: “Que cabelo mais feio!” com a convicção de quem vem sendo doutrinado há tempos para falar aquilo. 
 
Na hora, a surpresa daquela fala, mediante a convicção da criança, bateu em mim como um tapa na cara e não consegui reagir. Apenas olhei-a fixamente, imóvel. A mãe imediatamente pegou no braço da criança e a repreendeu, dizendo que isso não se faz e que não era aquilo que ela tinha ensinado em casa. Falou outras coisas que não consegui ouvir, pois saíram de perto de mim. Continuei imóvel. Por fim, após a criança chorar um bocado, eles se foram. Peguei minhas compras e fui embora sem olhar para trás.
 
Sou afrodescendente e tenho cabelo crespo. Ao final de 2013 decidi, mais uma vez, usá-los ao natural, contrariando muitas opiniões por aí. Não sigo moda, sigo minhas vontades. Mudo o jeito do cabelo quando quero. Já percebi/senti muitas manifestações de preconceito com relação ao meu cabelo crespo.

A maioria delas de forma indireta – um olhar enviesado, uma carinha de nojo, um olhar fixo de galhofa, uma vontade de pegar pra ver se a textura é de palha de aço, um comentário acerca da chuva, entre várias outras – mas nenhuma me abalou como a desta criança. Não por ter sido direta, mas por que não consegui reagir tamanho o impacto que senti ao perceber, na fala daquela criança, todo o preconceito que ainda está embutido na sociedade e que vem sendo perpetuado dia após dia nas escolas, nas famílias, nos relacionamentos. 
 
Perpetuado sim, e o pior, veladamente, para que ninguém seja chamado de racista, sexista, homofóbico ou coisa similar, quando manifestar seus preconceitos. Acredito que, em alguns casos, a manutenção de uma atitude ou opinião preconceituosa pode até ser inconsciente. Podendo funcionar até mesmo como se fosse uma forma de proteger o alvo do preconceito de futuras situações desagradáveis. 
 
Venho de família humilde e onde nunca houve discussão acerca das minhas raízes, de forma positiva ou negativa. Minha mãe mantinha meu cabelo grande, esticado ou preso em tranças. Pensava que assim era mais fácil cuidar. Só conheci meu verdadeiro cabelo na adolescência.

Nas escolas por onde passei também nunca houve discussão acerca do tema, sejam pro bem ou pro mal. Na universidade, inicialmente, foi a mesma situação. Depois as coisas foram mudando, os diferentes foram aparecendo. E o fato de conviver há mais de 20 anos em um ambiente plural, uma universidade pública, que está cada vez mais recebendo representantes dos mais diferentes tipos que a sociedade tem, ajudou-me a moldar meu caráter.  
 
Não sou perfeita, também me pego às vezes com algum pensamento preconceituoso, por isso me incluo no título que dei a este artigo. Talvez seja um ranço de séculos, e que ainda sobrevive na cultura brasileira, de opressão ao diferente. No entanto, eu, por acreditar sinceramente que o respeito deve ser o ponto de partida da nossa convivência em sociedade, quando tenho algum pensamento do tipo, de pronto busco eliminá-lo.  
 
Mas, e esta criança? E aquela família? E todas as outras que ainda convivem diariamente com este ranço? Depois que o choque inicial passou, pus-me a pensar em todas  estas questões e a única conclusão a que cheguei é a de que ainda temos muito que evoluir.



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Rose Mendes é jornalista e bibliotecária. 

Comentários

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  • 27.04.2015 15:23 Miguel Ângelo

    Achei exagerado fazer um artigo por causa de um comentário infantil. Pareceu mais uma tentativa de justificar a tese a qualquer custo. Crianças não tem o mesmo padrão de beleza dos adultos.

  • 24.04.2015 14:08 Meire

    Os negros podem ofender os gordos mas não podem ser ofendidos nunca! http://www.opopular.com.br/editorias/magazine/em-debate-cantora-afirma-que-moda-n%C3%A3o-%C3%A9-para-obesas-1.835365

  • 23.04.2015 22:28 José Ricardo Eterno

    Quanto preconceito já não sofreram as loiras sem bunda, nesse Brasil de samba e pandeiro, gata? Pô, Rose! Olhe, veja você: uma preferência estética, no ramo, por exemplo, da sexualidade - isso que chamamos de atração sexual - é definida não só por aquilo que gostamos, mas por um bocado de coisas que não gostamos. Um homem homossexual, você concordará comigo, não é simplesmente aquele que sente atração sexual por outro homem: é aquele que rejeita o sexo com mulheres, travestis, zoofilos, etc. Trabalho com muitos homossexuais e já os vi desdenhar de mulheres e travestis uma infinidade de vezes. "Aquela racha horrorosa!" E isso não expressa exatamente um preconceito. No mais das vezes, é apenas uma modo de dizer afetado, que busca propagandear suas preferências. É como se dissesse: "Não gosto de mulher. Eu gosto é de homem!" Só isso. Mas daí o caboclo exagera, pra dar certa ênfase. Essa mania de chamar meio mundo de preconceituoso, sério, só nos faz parecer mais bonzinhos aos olhos de quem foi doutrinado nessas faculdades de humanas. Vamos parar com isso e começar a resolver nossos problemas com conversa. Pense comigo: você acaba de conhecer uma pessoa. Ela tem quatro anos e te chama de feia. Aliás, menos: ela diz que o seu CABELO é feio. Ou dá a entender isso. Daí você escreve um texto pra um jornal online chamando-a de preconceituosa. Uai, há duas ou três perguntas importantes a fazer: 1) Você tem certeza de que sua beleza é (ou deve ser) unânime? Você está certa de que é a nova Afrodite? 2) Você tem certeza de que ao chamá-la de preconceituosa não está emitindo um conceito precipitado, um pré-conceito? Não invertendo as coisas? 3) Como você mede esse negócio de preconceito? Como você distingue o preconceito da opinião aceitável ou da sinceridade? E aquele papo de que crianças devem ter liberdade pra se expressar, tão em voga na boca dos pedagogos esquerdistas? Eu sou professor. E lá, nas reuniões pedagógicas, lugar onde purgo os meus mais abomináveis pecados, todos os meus colegas freireanos dizem que é preciso "ouvir o aluno", que nós não podemos "nos colocar num pedestal", que não somos "os detentores do saber" etc e tal. Você deve ser como eu. Não gosta muito do Paulo Freire, não é? Se não gosta, pode dizer. Sei que hoje em dia isso pode dar cadeia, mas ainda nos resta um cadiquinho de liberdade. (aqui entre nós, eu o acho péssimo) Bem, só acho que é preciso um certo cuidado. Você deve ser daquelas pessoas que prezam pela honestidade intelectual. E, ora, esse negócio de acusar os outros daquilo que somos não combina é coisa de estrategista totalitário. Dizem que foi Lênin quem inventou isso. "Acuse-os do que você é", teria dito o filho da mãe. Mas a tendência de fazer isso está em todos nós desde a queda de Adão. Pra não me prolongar muito, vou encerrando com minha experiência, que passa longe de ser a de um Dom Juan, mas que pode servir pra alguma coisa: eu já vi várias negras realmente lindas. Já tive a sorte de namorar uma mulata que é uma deusa. Mas, fisicamente falando, sem querer desmerecer a imensa variedade de mulheres lindas, e também sem querer ofender os bagulhos (que, sob certo aspecto, já foram ofendidas pela natureza), acho que cada homem ou mulher pode guardar consigo um certo tipo ideal. Sei lá. Também pode não ser nada disso. No meu caso, acho que "meu tipo preferido" lembra um pouco minha irmã e algumas tias que tenho. Freud deve explicar, né? E você, Rose? Tem algum tipo preferido? Ou, como todo militante afro antes de ser contrariado, ama a todos indiscriminadamente?

  • 23.04.2015 14:47 Lívia

    "Chocada" com uma declaração de uma criança? Enquanto isso, milhões de pessoas são agredidas simplesmente por serem quem são. Policiais são agredidos e xingados porque estão fardados e até pessoas super bonitas são agredidas no trabalho como se já fossem "o caso de alguém" ou "entrou aqui por causa do sorriso bonito". Ô canseira esse tal de vitimismo. Só falta processar a mãe da criança ou a própria criança por tamanha "agressão".

  • 22.04.2015 11:38 ieda

    Uma criança que se assusta com os olhinhos puxados de um oriental então tem preconceito? A criança é curiosa pela natureza de ser criança. Tem criança de 4 anos que não gosta de brincar com outras de 3 porque acham "coisa de bebê". Isto é preconceito? Acho que quem reverbera o clichê "criança repete o que ouve" e engloba simplesmente tudo nesta frase simplista nem sequer tem filhos. Daqui a pouco temos de rezar a cartilha do politicamente correto com recém-nascidos e exigir de uma criança de 1 ano que tenha conhecimento de Machado de Assis. Quanto vitimismo! Os carecas sofrem, os gordos sofrem, judeus sofrem, cristãos sofrem, albinos sofrem todos os dias, mas os negros sofrem mais. Isto é certeza!

  • 22.04.2015 11:15 Janaina Staciarini e Corrêa

    As crianças repetem o que ouvem, agem pelo exemplo né? Infelizmente nós, adultos, não damos a elas os melhores exemplos. Vejo várias situações em que meninas não querem brincar com a outra porque é preta, porque é gorda, porque não usa a sandália igual. E acho isso tudo tão triste... Adorei seu artigo

  • 22.04.2015 10:21 Clenio

    Não se agarre à dor como um pretexto para sofrer. Use-a para crescer.

  • 22.04.2015 09:40 Ieda

    Afirmar que a espontaneidade de uma criança de 4 anos é sinônimo de doutrinação para o preconceito, quando você mesma afirma que mesmo frequentando uma universidade você ainda tem algum preconceito é simplesmente ridículo. As universidades se tornaram centros dos vitimistas agora. Uma criança de 4 anos é espontânea, não é preconceituosa. Acho que vocês passam o dia nas universidades discutindo como abordar mais o coitadismo. Se estar dentro de uma universidade ainda te faz uma pessoa com certa resistência, por que uma criança de 4 anos teria pleno entendimento de tudo? Por isto, sou contra as cotas.É muito choro pro meu gosto.

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