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Rimene Amaral

Num Estado laico, obrigatoriedade da Bíblia nas escolas é insanidade

Não é assim que funciona | 14.07.15 - 15:01
Goiânia - Quando eu era criança, lembro-me de acordar cedo aos domingos para acompanhar minha mãe à missa. Criado assim, dentro do cristianismo católico, passei por todos os processos que a igreja prega: batismo, primeira comunhão, crisma... Na mesma época, estudava em escola pública e lia os poucos livros que a biblioteca, também pública, oferecia. Em nenhuma das instituições fui obrigado a ler a Bíblia. Não que não seja um livro importante, interessante e de cunho também histórico. Apenas não me obrigaram. Estudei, cresci e me formei. Formei também uma consciência crítica do que, para mim, é certo ou errado. Disso tudo me sobrou a ideia que obrigação é uma necessidade imposta pela falta de educação. O que não foi o meu caso.
 
O Brasil precisa de educação e isso ninguém contesta. Somente assim, o brasileiro saberá escolher bem seus representantes, aqueles que se proponham a lutar em benefício da sua cidade, Estado, país e, principalmente, em benefício dos cidadãos. Não precisamos de políticos que, assim como os fundamentalistas e os de tolerância duvidosa ou forjada, tentam empurrar garganta abaixo de uma sociedade carente de estudos básicos a imposição da sua fé e da sua crença. Pessoas assim ignoram completamente a fé alheia e comungam dos ideais intolerantes que movem, de uma forma ou de outra, uma violência desenfreada mundo afora.
 
Cada um segue a fé a qual lhe faz bem, lhe traga paz e sanidade mental. Cada um escolhe o seu livro, seja o Alcorão, a Bíblia, o Zend Avesta, o Mahabharata, o Tripitaka ou os segmentos de Sidarta Gautama. Não me venha querer impor qualquer crença que seja sem saber se “eu” quero segui-la. Isso não é democracia. É como se, por exemplo, colocassem os filhos de uma família evangélica para estudar numa escola muçulmana e os obrigassem a seguir o que dita o Alcorão. Ou jogassem um bramanista numa escola espírita e o obrigasse a entender – e crer! – nas mesas girantes, estudadas por Kardec, no início da codificação do espiritismo. Não é assim que funciona. Não se enfia ideologia na cabeça de alguém pelo mero prazer de difundir a própria crença. Quem sabe o que é melhor para “mim” sou eu. 
 
Onde fica a individualidade do cidadão? É sufocada pelo preconceito arraigado que desmantela um sistema laico! Isso é, a meu ver, um afronta ao cidadão e ao uso do espaço público, mantido por meio dos impostos pesados pagos pelo cidadão, para difundir interesses próprios ou de uma minoria intolerante que não enxerga o indivíduo como um ser múltiplo e com vontades e desígnios únicos. Parlamentares que passam o tempo de trabalho, também pago pelo cidadão, arquitetando projetos de aceitação duvidosa e de cunho altamente discriminatório, servem apenas para fomentar o ódio e a intolerância ao diferente. Esse tipo de iniciativa nunca vai gerar qualquer tipo de benefício intelectual ou moral.


(Foto: divulgação)
 
O que deveria haver – e aqui dou meus préstimos com ideias de bons projetos de lei – era a preocupação com a leitura obrigatória diária do Código Nacional de Trânsito, em todas as escolas, para tentar melhorar o caos e falta de educação com a qual nos deparamos diariamente nas ruas, como se estivéssemos em uma selva sem leis. Deveriam apresentar projeto de lei para ensinar educação financeira nas escolas e fazer com que crianças começassem cedo a pensar no futuro e não depender de políticos que se aproveitam da boa vontade de tanta gente humilde para fazer a carreira. Deveriam obrigar, por meio de projetos, o respeito a todas as diferenças, sejam elas religiosas, sociais, sexuais, raciais... Deveriam pregar, sim, a tolerância e a igualdade. Para os fundamentalistas religiosos, uma pergunta: Não foi isso que o Cristo pregou? 
 
A leitura da Bíblia é de grande valia. Para muitos, essencial para se viver em acordo com a sociedade, com o mundo e consigo mesmo. Vale e muito! Mas daí a obrigar a todas as pessoas, diferentes ou ignorantes a um tipo de crença, a praticar os ideais religiosos avessos aos seus, isso é, no mínimo, insano. E onde está a suma que o Brasil é um Estado laico? Isso já foi esquecido? Jogaram isso na lama também, junto com a intolerância e o respeito ao próximo? Penso que é obrigação das autoridades resgatar esse princípio. Quando os ideais cristãos, os quais alguns insistem em dizer que seguem e comungam, forem respeitados – igualdade, tolerância, caridade e o amor ao próximo –, aí sim, quem sabe, esse tipo de obrigatoriedade deixará de ser necessário.
 


* Rimene Amaral é jornalista e escreve o blog odonodotempo.blogspot.com  
 

Comentários

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  • 29.07.2015 14:11 Rogério Martins

    Parabéns Rimene!

  • 21.07.2015 14:40 Cristiano Pires

    Acho que nunca será possível agradar todo mundo. Se tirar a bíblia alguém vai contestar. Se incluir o alcorão alguém vai contestar. Sempre vai ter um motivo pra alguém falar ou escrever algo. O jornalista deste artigo foi infeliz. Quem não está contente que coloque seu filho em uma escola evangélica, ou católica, ou muçulmana, ou atéia, que seja. Agradar todos nunca conseguirão. Então, Rimene, cale-se e seja produtivo.

  • 20.07.2015 14:05 Gomes

    Vi na Internet um post absolutamente irretocável: antigamente os rebeldes eram contra o sistema. Hoje, eles são financiados pelo sistema.

  • 20.07.2015 14:05 Cláudio Marques Duarte

    O que a sociedade mundial requer para construir a paz é, mesmo, tolerância. Tolerância ao diferente, ao outro, ao direito individual. Parabéns pelo equilibrado artigo, Rimene.

  • 20.07.2015 12:56 Rimene Amaral

    Definitivamente, "Gomes", você não leu o artigo!

  • 20.07.2015 12:52 Gomes

    E mais: estou discutindo a escala de valores do jornalismo. Só isso, onde a Bíblia é um mal e a pedofilia está ok. Só para pensar sobre qual instituição está mesmo destruindo a sociedade.

  • 20.07.2015 12:47 Gomes

    Uai, se você escreve num jornal onde os comentários são aceitos, aceite-os então. Vou continuar achando hilária a postura de jornalistas que só enxergam absurdos no cristianismo, defendendo o Estado laico como se Estado laico fosse Estado ateu, o que não é verdade. Tanto jornalista defendendo a mesmíssima coisa, será por quê? Será que não existem coisas mais importantes para defender no Brasil? Será que a educação está boa? Será que a Bíblia é realmente o grande mal da humanidade? Enquanto isso, o Humaniza Redes, do Governo Federal, defendendo abertamente a pedofilia. O que acha? Vale um post?

  • 20.07.2015 12:24 Rimene Amaral

    E mais: esta é a MINHA opinião. Ninguém precisa concordar ou discordar dela. Apenas respeitar!

  • 20.07.2015 12:22 Rimene Amaral

    Caro "Gomes"! Acho que você não leu o artigo que escrevi. Não defendo ABSOLUTAMENTE nada e não critico o cristianismo - até porque sou cristão. Defendo, sim,o direito à escolha que cada um deve ter, independente de credo. Isso é democracia. Imposição de qualquer coisa não é bom para a sociedade.

  • 20.07.2015 10:49 Gomes

    José Ricardo Eterno está correto. Engraçado os jornalistas NUNCA ficam estarrecidos com a doutrinação marxista no ensino médio e nas universidades. Basta dar uma olhada básica nas redes sociais dos professores dos cursos de ciências humanas e encontramos as mais bizarras linhas de pensamento sendo defendidas e replicadas pelos "intelectuais", inclusive jornalistas. Tem jornalista por aí saudando Karl Marx, outros estudantes de jornalismo quebrando os ônibus do câmpus como forma de protesto (achando que vão mudar a sociedade com vandalismo). Tudo isso parece não importar. E quando o Jean Uillis pede o ensino do islamismo no Brasil? Não vi nenhuma indignação da imprensa com a mesma ideia: o Estado é laico. Inclusive quando o mesmo deputado do PSOL trouxe uma comitiva umbandista na Câmara, o assunto foi irrelevante, mas rezar o Pai Nosso por outro deputado é simplesmente um absurdo. Por que o ataque é só contra o cristianismo, Rimene? Pode me responder? Sejam coerentes e falem de todos.É o mínimo que se espera da imprensa. Só que não. Ela nunca fala dos cortes na educação propostos pelo PT, não fala dos cortes de verbas da Capes, propostos pelo PT, na mediocridade do ensino fundamental e médio, introduzindo o funk nas escolas, proposta do PT. Ora, os alunos são obrigados a concordar com linhas de pensamento marxistas? Parece que sim, né. São obrigados a dançar funk no ensino fundamental? Parece que sim, né. Mas tudo isso não tem relevância, porque o absurdo mesmo é a Bíblia nas escolas. Vejam só a que ponto ridículo os jornalistas chegam.

  • 20.07.2015 02:57 Nelson jr.

    O problema é só o PT

  • 18.07.2015 15:22 José Ricardo Eterno

    Há muita bobagem sendo dita quando o assunto é "Estado Laico" e "Religião". As secretarias municipais e estaduais de educação no Brasil inteiro seguem, quase à risca, as determinações do MEC. O MEC, por sua vez, via de regra, segue as determinações da ONU/UNESCO (não custa dar uma olhadinha no livro Maquiavel Pedagogo, do sociólogo francês Pascal Bernardin). Ora, dentro desse alinhamento de escala mundial (que traz em sua essência uma forte dose de "religiosidade" Nova Era) é risível que no Brasil estejamos preocupados com a Bíblia nas escolas. É preciso que se entenda: nenhuma sociedade ou civilização vive com vácuo religioso. Então, se vemos hoje uma tendência de retirar a influência do cristianismo da educação e, de maneira geral, das decisões políticas, é preciso que nos perguntemos: o quê estamos colocando no lugar? A opção do ateísmo não existe. Nunca existiu e nunca existirá sociedade sem religião. Civilização É religião. Então, sobra-nos duas ou três opções: 1) uma espécie de religião estatal, algo como um nacionalismo-populista-revolucionário (de esquerda ou de direita), que parece ser a opção preferida dos nossos acadêmicos esquerdistas de hoje; 2) O islã e, 3) o próprio cristianismo. Eu, embora não seja um cristão muito praticante, não tenho dúvidas de que a melhor opção é a última. É a única que permite ser questionada, é a que matou menos pessoas na história e é a única que, bem ou mal, aos trancos e barrancos, nos dá a chance de sempre tentar o arranjo que chamamos de democracia. Há o judaísmo. Mas ninguém é judeu por conversão. Há também o budismo. Mas não creio que o Ocidente se tornará budista da noite para o dia. Sobre o problema das escolas, mais especificamente, é preciso tirá-las das mãos do governo e jogá-las nas mãos da própria sociedade. Se você não gosta de determinado tipo de escola porque lá valorizam a Bíblia, junte-se com mais vinte pais que pensam como você e providencie sua própria escola. Ou contrate professores pra ensinar seu filho em casa. Mas, claro, pra que você consiga fazer isso, precisa de dinheiro, precisa que sobre algum dinheiro depois que pagar todas as contas básicas. Mas, se você é daqueles que gostam de tudo nas mãos do governo, que insistem nisso apesar de achar que todos os políticos são corruptos, claro, vai passar a vida pagando impostos altos e reclamando das coisas que o Estado toscamente faz pra você. Ah, e tem mais: quando você paga um serviço público, está pagando não só a execução do serviço, mas também a administração e a fiscalização do serviço, no mínimo. Resumindo: você paga pra ter uma escola pública? Não. Você paga também todos os funcionários ociosos da secretaria, todos os analfabetos que planejam o currículo do seu filho, toda a estrutura que eventualmente fiscaliza essa máquina e, no fim, tem uma educação imbecilizante. Não acham engraçado quando as pessoas dizem que precisamos "valorizar a educação", querendo com isso dizer que devemos por mais dinheiro nessa palhaçada? Eu acho. Quer dizer, acho trágico.

  • 14.07.2015 17:20 Valéria Almeida

    Isso aí. Não é função do Estado fomentar religião A, B ou C. Mas é obrigação resguardar a diversidade e estimular o respeito ao próximo. Ótimo texto.

  • 14.07.2015 17:07 Lucas

    Concordo com cada palavra dita acima, Acho ainda que a obrigatoriedade nos limita. Limita a pensar, limita a agir e limita a sermos livres!

  • 14.07.2015 15:32 Bosco Carvalho

    Rimene, concordo totalmente com sua abordagem. Geralmente uso exemplos semelhantes aos seus quando me refiro à liberdade que cada pessoa deve ter na escolha do que crer ou não. Uma lei como a aprovada no Rio de Janeiro, felizmente é inconstitucional, mas não duvido que um dia, legisladores que idolatram a bíblia, queiram adulterar a Constituição para criar tal obscenidade a nível nacional.

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