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Fernando Rocha

Cultura de Grupo

Grupo Sonhus completa 20 anos | 23.04.16 - 09:21
Goiânia - Em 2016, o Grupo Sonhus Teatro Ritual completa 20 anos de criação em Goiânia, Goiás, Brasil e baseado em nossa experiência é debaterei aqui essa visão de cultural. Quando falo de cultura de grupo no contexto do teatro estou me referindo diretamente à cultura de ator diante de um modo de organização social produtiva. Pensando cultura como modo de vida e a partir de sua materialidade, ou seja, daquilo que ela produz de significados e valores gerados por essa formação social específica, (e não apenas daquilo que ela reproduz). 
 
Procurando evidenciar suas conexões e contradições que configuram essa teoria de cultura, ao entorno das interseções entre arte e sociedade, sem segregá-las em categorias ou status diferenciados ou estanques e sim unidas e inseparáveis em sua pratica: ator-grupo-arte-sociedade. Tomando por interconstitutivas tanto a formação social grupal instituída de modo comunitário por uma minoria organizada de artistas que decidem formar um grupo teatral, quanto as formas, os produtos culturais e artísticos provenientes desse modo de produção especifica de fazer sentido da experiência do vivido em coletivo, ou seja os espetáculos de um grupo teatral dão materialidade a experiência vivida por essa grupalidade, estão intrinsecamente interligadas sob diversos aspectos e de modo perceptível, aparente, visível, sentido, materializado. 
 
O modo de organização e produção grupal será indissociável na pratica dos resultados artísticos de sua produção, quando o sujeito-artista busca algum tipo de micro-revolução e encontra no coletivo sua potência, seu modo de se engajar numa arte de guerrilha, defendendo os interesses do modo de vida e pensamento desse coletivo, expresso artisticamente de modo a, de fato, se colocar diante do mundo. Falo então, ao modo do sociólogo Richard Willians (2007), ao falar de cultura de grupo, situando essa cultura na soma resultante do fazer existente entre o sujeito e outra instância, estamos falando então em: teatro e sociedade, ator e comunidade, ator e produção, ator e técnica, ator e linguagem. Seguirei então, analisando alguns aspectos desse fazer cultural do ator inserindo-o aos poucos no contexto grupal, afinal um coletivo é feito a partir da conjunção de seus indivíduos que constituem o todo.
 
Quando se fala em grupo teatral logo se pensa em sua identidade, como sendo uma marca indelével de sua produção e qualidade artística, muitas vezes até seu legado histórico para a arte teatral. A identidade na arte consiste em um conjunto de clichês, de preconceitos, de automatismos acumulados em torno de um estilo aparentemente próprio a que imediatamente chamamos de identidade. Alguns sistemas criativos criam uma armadura que, tornando mais complexos os modos de representação do ator, transformam as cenas em uma espécie de “teoria de Eistein” a ser decifrada. Diante dessa encruzilhada para os caminhos aparentemente mais fáceis ou óbvios e um excessivo rebuscamento, o papel do ator é manter-se sempre aberto as possibilidades infinitas de criação para si e também para o diretor. 
 
É importante evitar fechar e fixar uma ideia principalmente no início ou durante os processos criativos. Importante inclusive buscar enxergar o duplo em suas proposições atorais como uma sombra. Se na medida com que nos aperfeiçoamos, amadurecemos, adquirimos experiência vamos acumulando clichês, então tanto melhor será para o ator possuir uma infinidade incontável de clichês, ampliar seu repertório. Se você possui apenas uma dezena ou uma centena de clichês que sejam teus, idiossincráticos, que definem características intrínsecas e indissociavelmente suas enquanto artista, então você logo será rotulado por esses clichês.
 
No entanto se você possui algumas centenas ou alguns milhares de clichês, suas possibilidades vão se tornando tão amplas e diversas que ficará difícil de caber em certames do enquadramento critico que se possa tão facilmente mesurar sobre a arte de ator. É como se sua arte de ator se tornasse um tipo de escada de Escher[1]. Nietzsche propõe para sociedade: para irmos a busca daquilo que não somos. Somos mutáveis das mil possibilidades de vir a ser o que não somos – somos seres de metamorfose. Existe uma potência em nós que precisa ser acionada, um potencial, ligado a possibilidade, não nesse tipo de sociedade mas em outra. No Grupo Sonhus Teatro Ritual vemos o espaço ritual de preparação do ator, seu treinamento, como esse momento de expansão de sua escada de Escher, de seus potenciais de metamorfose.

1 -   Maurits Cornelis Escher, pintor holandês que misturava técnicas de desenho realista com ilusões de ótica, criando imagens fantásticas como escadas que sobem e, de repente, estão descendo, quedas d’água que começam e terminam no mesmo lugar. Em sua obra tudo é – ao mesmo tempo – lógico e sem sentido.

*Fernando Rocha é Diretor, Ator, Produtor e Professor de Teatro

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