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Gismair Martins Teixeira

Filmes bíblicos: como e por que vê-los

| 04.05.16 - 17:33
Goiânia - A produção da cinematografia pop atual tem se pautado pelo filão dos filmes de super-heróis. Uma das várias explicações possíveis para o fenômeno talvez seja o grande desenvolvimento tecnológico que tem propiciado efeitos especiais simplesmente espetaculares, o que permitiu que os heróis sobre-humanos tenham saltado das páginas dos quadrinhos para as telas do cinema com um realismo que mereceria um estudo sobre o princípio da verossimilhança, defendido por autores clássicos, aplicado à imagem.
 
Outro filão, porém, tem acumulado massa crítica nos últimos tempos, merecendo abordagens teóricas mais contextualizadas. Trata-se dos filmes baseados em narrativas encontradas na obra mais popular da cultura ocidental, a Bíblia, goste-se ou não dessa afirmativa de natureza cultural em torno do livro sagrado de judeus e cristãos. Os filmes bíblicos conhecem no momento um verdadeiro revival, embora tenham sofrido um certo eclipse das aventuras dos heróis de quadrinhos. Dentre outros, nos últimos anos foram realizadas produções sobre Moisés, Jesus Cristo, Noé, abordando particularidades inauditas sobre essas e outras personagens biblistas.
 
Embora essas produções tenham sido esperadas com certa expectativa, muitas delas frustraram um tipo específico de espectador: o fideísta. Ou seja, aquele que espera ver nas telonas a transposição literal do que vai nas páginas do livro sagrado judaico-cristão. Esse problema foi abordado em profundidade nas especulações de uma das vertentes da crítica literária intitulada estética da recepção. A partir dos estudos do alemão Hans Robert Jauss nos anos de 1960 do século passado, cunhou-se o conceito de horizonte de expectativa, que resumidamente diz respeito à forma com que o receptor de uma obra de arte de qualquer natureza interage receptivamente com ela num primeiro momento, bem como as alterações de percepção e receptividade que poderão advir no futuro.
 
O espectador da produção cinematográfica bíblica que assistir a qualquer produção desse universo temático esperando ver transposta para a tela uma adaptação de caráter meramente religioso, certamente se frustrará. Nesses filmes, como em praticamente todas as outras produções que adaptam uma obra literária para o cinema, roteiristas, diretores, produtores e atores apresentarão um viés parodístico hutcheniano para suas adaptações. Em Uma Teoria da Paródia, a teórica canadense, Linda Hutcheon, estabelece uma nova abordagem em torno da paródia, que rompe com a perspectiva de originalidade artística dos românticos do século 19.
 
Assim, para Linda Hutcheon, a paródia não será mais a apropriação de uma obra por outra, numa abordagem meramente ironizante. Poderá ser, também, uma retomada que presta uma homenagem, ou uma reverência, ao seu original. Com esta perspectiva em mente, o espectador fideísta poderá apreciar, no âmbito da licença poética, a releitura de uma obra que para ele é intimamente importante, desfrutando esteticamente do inesgotável universo do imaginário artístico cujas lentes estejam direcionadas para essa importante obra da cultura universal, que é a Bíblia.
 
Se o historiador profissional deverá saber discernir o que é história factual de uma adaptação cinematográfica que reconfigura os fatos em nome da ficcionalidade, o crente de qualquer segmento religioso deverá perceber na representatividade cinematográfica uma obra de arte que dialoga com a sua fonte inspiradora, reconfigurando-a em nova linguagem e conteúdo, sem preocupar-se com a representatividade literal de crenças ou descrenças, mas sim com o efeito estético estudado por diversos pensadores das artes ao longo dos séculos e até mesmo dos milênios.

*Gismair Martins Teixeira é Doutor em Letras e Linguística pela UFG; professor do Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte, da Seduce-GO; autor da tese de doutorado “O Rizoma Bíblico-Literário”, disponível aqui
 

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