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Guilherme Costa

Do seu querido servo, ó pátria amada!

| 31.05.16 - 16:03
Apesar de constantemente escrever textos, poesias e músicas sobre os mais variados assuntos, escrever algo sobre você mesmo não é das tarefas mais fáceis. Contudo, como um atleta é movido por desafios, eu topei. Meu nome é Guilherme Costa, tenho 24 anos e sou amazonense. Começando do início, porque minha história tem vários inícios e recomeços, nasci uma pessoa "normal" (se é que isso existe) e me mudei para Brasília aos dois anos de idade. Foi lá que o curso da minha vida tomou rumos adversos.
 
Quando tinha 14 anos fui atropelado por um carro a 105 km/h, de acordo com a perícia policial, e tudo ficou denso e meio cinza a partir daí. Foram dois meses na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), depois quatro meses internado no Hospital Sarah Kubitschek, duas paradas cardíacas, sete cirurgias, sete bactérias hospitalares, 20 dias em coma. Perdi 30 quilos e fiquei tetraplégico, e essa é a parte boa. Parte boa? Sim, porque estou vivo! Dentre tantas interrupções, entretantos, poréns e outras situações, eu estou vivo e bem vivo! Não quero que nossa conversa pareça algo clichê ou não fuja aos padrões, desculpem-me, mas gosto de coisas novas. Costumo dizer que algo novo sempre assusta no primeiro contato, mas depois passa a ser algo corriqueiro e natural.
 
Voltando à história, antes da lesão eu já era muito ligado a esportes e queria ser jogador de futebol. Entre todas as dificuldades que estava vivendo naquele momento, tinha esse agravante. Doeu muito, me vi sem chão e, mesmo se tivesse chão de novo, não teria mais o movimento das pernas (ao menos eu pensava assim na época). Apesar de tudo, não fiquei revoltado, não tive raiva. Como disse anteriormente, eu havia sobrevivido a um acidente gravíssimo, mas não via perspectivas para o futuro.
 
A vida às vezes é muito dura. Ela cobrou de uma criança de 14 anos a maturidade de um adulto. Escolhi ser forte e ser fortaleza dentro de mim, vendo meus familiares e amigos ao meu lado. Eu não poderia ter o luxo de estar triste. Nesse momento comecei a perceber as coisas ao meu redor. A vida me parou para ensinar que ela era muito além do meu mundinho de até então. Tudo ao meu redor, apesar de ser um momento crítico e tenso, era amor e doçura. Tudo e todos cuidavam de mim com atenção e generosidade. Depois de um tempo recebendo essas doses diárias de amor, como que de forma natural, eu quis devolver amor para o mundo, apenas por gratidão. O mundo me impôs uma situação completamente adversa, mas ao mesmo tempo me proporcionou uma visão de que ele pode ser e é um gerador de amor.
 
Depois de ter passado o ápice da tormenta, fui para a Rede Sarah para reabilitação. Uma nova fase, dentre as tantas novas fases, se iniciara e, com ela, um choque: não voltaria mais a andar. O menino sonhador que queria ser jogador de futebol estava à deriva num mar de incertezas. No hospital Sarah conheci um mundo novo, um mundo invisível e ao mesmo tempo estampado na nossa cara: somos milhões de deficientes Brasil afora e agora estamos começando a criar voz. Lá conheci diversas histórias, vi e convivi com diversos tipos de deficiência e todo tipo de gente. Ofereceram-me o tênis de mesa como forma de reabilitação. Em um primeiro momento relutei muito e chorei. Queria minha vida de volta. Queria acordar daquele pesadelo. Até que me convenceram e resolvi tentar o tal do "ping-pong".
 


*Guilherme Costa e atleta da Seleção Brasileira Paralímpica de Tênis de Mesa

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