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Ana Paula Ferrari

Sou autista. Sou cidadão. Tenho direito à inclusão

| 31.03.17 - 18:35
Goiânia - Sou mãe de um menino lindo com autismo, Jonas, atualmente com 7 anos. Meu menino foi diagnosticado com pouco mais de dois anos. Ele falava e já identificava letras e números. Não teve atraso motor significativo. Ao entrar para uma escola particular perto de casa, na educação infantil, apresentou crises nervosas mais intensas e regrediu em seu desenvolvimento. Foi então que tivemos acesso ao diagnóstico. Esse processo foi longo e dolorido.  
 
Morávamos em Brasília (DF). Como pesquisadora social, sempre me questionei muito: “até que ponto meu filho tem autismo e eu estou criando o autismo?”, por exemplo. Com tantas reflexões, cheguei a algumas conclusões inconclusas, mas duas das quais gosto de afirmar: “meu filho tem autismo, mas o autismo não o tem” e “meu filho tem direito; o direito é dele nem mesmo eu, mãe, tenho o direito de tirar o direito dele”, por exemplo direito a escola regular, ao trabalho quando a idade permitir, a casar-se quando o amor chegar... 
 
Muita coisa aconteceu nesses 7 anos de Jonas... De Brasília, mudamos para o Rio de Janeiro, onde conheci e experimentei o apoio das mães azuis, e fui amparada pelo Movimento do Orgulho Autista do Brasil, o Moab naquele estado. O autismo provocou perdas, mas também está sendo uma grande oportunidade de ampliar minhas relações sociais, desenvolver habilidades como a resiliência, a persistência e a criatividade numa intensidade nunca imaginada por mim e estudar áreas como a neurociência, inclusão social, psicologia, etc. 
 
De desprezado, excluído e discriminado por escolas particulares, Jonas passou a ser o centro do afeto da turma de uma escola pública em Niterói (RJ), conquistou amigos e até uma namorada. Foram momentos maravilhosos que podem ser multiplicados e vividos por diversas pessoas nos mais variados locais do país e do mundo. De fato já estão sendo. A Secretaria de Educação de Niterói transformou essa experiência em encontros para profissionais da educação e familiares de pessoas com autismo e criou um curso específico sobre o tema para a rede de escolas do município. 
 
Em Goiânia (GO), nosso processo de aprendizado tem dado saltos. Aqui fomos acolhidos por uma instituição especializada do município e agora por uma escola regular particular inclusiva, que ouve e tenta por em prática a legislação, fazendo o presente o seu tempo atual. As leis mais específicas são recentes: a Lei Berenice Piana (2012) e a Lei Brasileira de Inclusão (2015). Aqui, formamos o grupo Voluntários da Turminha, em alusão a Turma da Mônica que tem o “André” como seu personagem principal (para nós da causa azul, né?! Risos).  

Por gratidão as mães azuis do Rio de Janeiro, trouxe o Movimento do Orgulho Autista do Brasil (o Moab) para Goiás. Quantas ações, conseguimos realizar, mostrando e vivendo a inclusão em espaços sociais como cinema, parques, chácaras, shoppings, brinquedotecas, igrejas e agora mais recentemente em academias e clubes. Realizamos dezenas de palestras, oficinas e alguns cursos sobre temas de saúde, bem-estar e desenvolvimento humano. Em 2017, já celebramos um núcleo de estudos sobre inclusão, instalado no mês de março na capital. O Núcleo “Inclui” da Faculdade Araguaia já oferece reuniões gratuitas quinzenais e terá uma pós-graduação. 
 
Para celebrar esse momento histórico de luta e conquistas, o Moab Goiânia elaborou uma proposta para as escolas regulares que desejam ser inclusivas. O “Projeto Autismo nas Escolas: Inclusão na rede regular” em breve estará disponível como um primeiro documento para suscitar debates, compartilhar o que pode dar certo e aprimorado pela influência dos conceitos e de práticas de cidadania e de direitos que as pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) têm. 
 
Muitas emoções, já vivemos na capital goiana, graças a pessoas solidárias, interessadas e estudiosas. Desejo que abril possa abrir diversos corações, mentes e sorrisos para que possamos falar com orgulho sobre o autismo. Eu, aprendiz da vida, do meu amado filho, quem chamo carinhosamente de Mestre Jonas, aceito o desafio e a oportunidade de fazer uma nova ciência contribuindo para as práticas culturais e pedagógicas inovadoras.  

*O título deste artigo é lema de 2017 do Moab Goiânia e Goiás. Frase estampada na faixa do Moab e Associação das Famílias e Amigos dos Autistas de Goiás (Afaag) e nas manifestações de 02 de abril de 2017 no Estado. 
 
*Ana Paula Ferrari é pesquisadora social. Mestre em Jornalismo e Sociedade pela UnB, coordenadora do Moab Goiânia – GO e do grupo Voluntários da Turminha. Esposa e mãe de dois meninos: Jonas e João Paulo. Contato: voluntariosdaturminha@gmail.com
 

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