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GABRIEL CHALITA

Motorista de ônibus

| 02.05.17 - 14:08
Paterson é um motorista de ônibus que vive a rotina de um motorista de ônibus. Sua cidade e sua linha de ônibus têm o mesmo nome que o seu, Paterson. Ele é casado com Laura, uma mulher que passa os dias pintando cortinas e tapetes na companhia de seu cachorro. Sonha ela em ser doceira, ou melhor,  fabricadora de cupcakes ou quem sabe uma cantora country. 
 
Paterson tem uma rotina comum. Acorda quase sempre no mesmo horário. Beija sua mulher. Come alguma coisa. E vai trabalhar caminhando. Nos mesmos trajetos, consegue inspiração e tempo para escrever poemas. Escreve-os em um caderno secreto. A mulher gosta quando ele os lê. Ela o admira profundamente. Quer que o mundo conheça os seus escritos. É mais ou menos essa a narrativa de um filme de Jim Jarmusch que está em cartaz nos cinemas. O filme é uma celebração à poética do cotidiano. 
 
Ezequiel é um motorista de um ônibus que vive em uma grande cidade que não leva o seu nome, em um grande país chamado Brasil. Ele é casado com Laura, uma professora apaixonada por crianças e por seu marido. Moram em uma casa simples. Acordam muito cedo. Fazem amor quase que cotidianamente e saem para trabalhar. Ezequiel gosta dos finais dos dias, quando toca violão para Laura. Ela escreve silenciosamente seus poemas de amor em um caderno qualquer. 
 
As duas Lauras sonham muito. E gostam de falar sobre os seus sonhos. As duas Lauras admiram os seus maridos. Paterson e Ezequiel orgulham-se de terem feito a escolha correta. Dirigir. Os ônibus e suas vidas. Dirigir sem solavancos. Felizes pelos cotidianos. Nada de velocidade exagerada para não precisar de freadas incômodas. Há que se ter atenção. Há perigos por todos os lados. Há desavisados que tentam entrar na frente e causar acidente. Às vezes, propositadamente; outras, por descuido. Comentários infelizes sobre vidas felizes podem causar estragos.
 
A Laura do filme sonhou que teriam eles filhos gêmeos. A Laura de Ezequiel está grávida. De gêmeos. 
 
 Ficção e realidade se encontram em narrativas comoventes de vidas humanas. Há tanta história para ser contada. Poetas se valem do que veem, do que ouvem, do que experimentam, do que sentem, do que imaginam. A poesia é democrática. Nasce dos que se dedicam às palavras como ofício de vida e nasce dos que conduzem ônibus ou educam crianças. A poesia é livre. Não a detém apenas os que ampliaram o repertório estudando tratados e enciclopédias. A vida também é uma escola. Uma escola poética.
 
Certamente, haverá aqueles que dirão que motoristas de ônibus sofrem muito, ganham pouco, trabalham exaustivamente. Que professores ou fabricadores de cupcakes não têm tempo nem para respirar, quanto mais para amar. Conclusões apressadas. O amor é soberano. Sobrevive ao tempo e às ausências. Empresta perfume ao suor cotidiano. Lava o que é necessário. E alimenta as ruas que precisam ser percorridas. 
 
 A rota de Paterson e de Ezequiel é sempre a mesma. Mas é diferente. Um texto de uma música country é sempre o mesmo. Mas é diferente. As crianças que estão na sala de aula com a professora Laura são as mesmas. Mas são diferentes. E o sabor da diferença é uma experiência necessária. 
 
Ousar outras vidas, mudar de profissão ou atividade, experimentar uma nova história, tudo isso é possível e, às vezes, imperativo. Quando não se está feliz em uma rota, urge lembrar que há outras.
 
Paterson e Ezequiel preferem permanecer. Querem continuar assim. Conduzindo e sendo conduzidos. Experimentando as diferenças das estações. Acompanhando uma conversa aqui outra lá, não por intentos de espalhar segredos, mas por encantamento. Vidas humanas trazem encantos quando se compreende. Arrogantes desperdiçam essas oportunidades. 
 
O filme e a vida nos ensinam que a humildade é uma companheira e tanto. Como Laura. Como as Lauras. As que amam. As que sonham. 

Em suas rotinas, parece não haver muitos recursos para gastos extraordinários. Não querem comprar o que veem nos anúncios. Seus sonhos são outros. Como trabalham muito, o pouco tempo que resta é dedicado ao amor e à poesia.  Conduzem a vida dos outros sem delas se valer para comentários maldosos. Não. Isso não lhes cabe. Como só sabem de trechos de conversas, não se dão o direito de conclusões. Preferem concluir o dia com canções e com o direito de dormirem juntos. Porque amanhã tem mais. 
 
 Quem tiver oportunidade assista ao filme. Quem tiver oportunidade preste atenção a um motorista de ônibus e a como ele conduz sua vida. Quem sabe você encontre um Ezequiel por aí. Se encontrar, mande lembranças para Laura, ele há de agradecer. 



*Gabriel Chalita é escritor, doutor em Filosofia do Direito e em Comunicação e Semiótica.
 

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