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Gabriel Chalita

Folhas caídas de outono

| 19.05.17 - 16:51
Há quem não repare. Há quem se ocupe de outros afazeres. Há quem teime em acreditar que é tudo sempre igual.
 
O outono não é igual ao verão nem é igual ao inverno. Está entre eles. Com suas folhas secas, com sua folhas caídas. Com seus ventos mais assanhados. Com suas árvores nuas.
 
É outono. O calor audaz já se foi. E o frio ainda ensaia sua chegada. Há quem prefira a primavera com suas abundâncias. São vidas e vidas querendo exibir que um novo ciclo se inicia. Calma. É outono. As folhas caídas, o desprendimento, as despedidas. Nada é definitivo. Nem a paisagem com as árvores nuas.
 
Eu era criança e gostava de desenhá-las assim. Parece que nuas eram mais puras. Mais prontas para o que viesse. Nuas eram necessariamente mais carentes de uma outra estação.
As árvores sorvem da mesma terra que nós. Nus estamos mais prontos. Há folhas que precisam cair. Deixar espaços para outros adornos. Os acumuladores têm mais dificuldades - se enchem, se preenchem, se sufocam do que já não tem vida. Do que dificulta a vida.
Sem espaços como receber o novo? Se nada damos, onde guardaremos o que nos chega? Sempre chega.
 
Quem deixa um emprego e não o deixa. Quem deixa um amor e não o deixa. Quem deixa uma casa e não a deixa. Como estará pronto para um novo emprego, um novo amor, uma nova casa?
 
Os medos nos convencem a não permitir. Preferem o que há. Acostumaram-se com a estação. Mas elas mudam, ora. Na dinâmica da vida não nos foi dado o controle da permanência. As árvores não deixam de ser árvores mesmo nuas, mesmo frondosas, mesmo abatidas pelo frio ou calor. A essência humana também permanece. E dela não se deve abrir mão. O que nos identifica. O utilizar a razão. O viver a emoção.
 
Imaginem um aposentado que continua se arrumando para trabalhar no mesmo emprego. Que não se desacostumou dos costumes que já passaram. Que sai de casa e vai. E anda por perto. E espera. E depois volta. Imaginem alguém nas férias acompanhando o substituto por não conseguir desapegar daquele espaço, naquele tempo. Imaginem um amor que morreu. Amores morrem. Como folhas que caem. Imaginem a teimosa presença no cemitério dos sentidos em busca de alguma resposta. Há que se ter o tempo do luto. Folhas caídas são levadas pelo vento. E , depois, um tempo de dor, talvez. Inverno. E depois a prontidão para as novas folhas, os novos encontros, a nova capacidade de sorrir.
 
A vida feliz não é a vida de uma única estação. É a que compreende todas elas. Que as teme. Que as enfrenta. Que as vive.
Há estações em que as noites são mais prolongadas. Há outras em que os dias resistem por mais tempo. Mas passam. Dias e noites se alternam em qualquer estação. Noites intermináveis terminam. Ouvi de um sábio que não se deve decidir nos escuros das noites. Há mais carências. Há mais desconhecimentos. Os dias nos revelam melhor, trazem-nos alguma lucidez, se assim permitimos.
 
Os dias não podem, entretanto, ser a garantia de que estamos vendo tudo. Que a clareza do sol é a clareza da consciência. É preciso ir com calma. As folhas não caem todas de uma vez. Nem nascem antes do tempo. O que imaginamos sentir nem sempre é o que sentimos. Palavras ditas na pressa correm mais riscos.
 
Tempo bom o do fogão a lenha. Demorava mais para aquecer, mas o calor permanecia por muito mais tempo. Tempo. Para que tanta agitação?
 
Os ventos de outono têm uma função. Todos os ventos têm. Levam o que precisa ser levado. Sopram para bons alívios. Trazem outras sensações. A liberdade humana rompe os ciclos da natureza. O outono não pode decidir se manter por mais tempo nem partir antes. As águas de um rio também não têm esse poder.
 
A liberdade é um vento bom e é uma tempestade. Depende. Do que conhecemos. De como nos fazemos. Do que permitimos que caia e que fique. Que morra e que viva.Aproximamo-nos da natureza quando nos fazemos simples. A sabedoria nos ensina a viver os ciclos. Sem brigar com eles. Despedidas. Acolhidas.
 
Há quem não repare. Nem na natureza nem em si mesmo, filho ilustre da natureza. Há quem desperdice a luz que nos faz escolher, viver. Há quem repense e tente novamente. Porque, depois de cada noite, há um dia. Convidando a perceber. A ser.
 
É bom viver o outono. Com suas folhas caídas. Com suas árvores nuas. Com seu ventos que levam e trazem. E que fique o que tem que ficar. O que somos. E que o resto vá. Como tem que ser.



*Gabriel Chalita é escritor, doutor em Filosofia do Direito e em Comunicação e Semiótica.

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