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Itami Campos

Pós-verdade num contexto de denúncias.

. | 29.05.17 - 13:14   
Goiânia - O país vive momentos decisivos. E, sem dúvidas acentuados pelos acontecidos nestes dias turbulentos, de delações após delações, de denúncias após denúncias, inundando o noticiário e o cotidiano brasileiro. As delações e denúncias dos Batistas da JBS suplantaram e tornaram esquecidas as delações do casal marqueteiro dos Santanas, que levaram ao esquecimento as delações da Odebrecht. Tudo isso quase levou ao esquecimento todas as etapas da Lava-Jato. Ao fim e ao cabo, o Brasil não só vive momentos decisivos, vive momentos de sobressalto.
 
No quadro das apostas, a expectativa é saber qual será a próxima delação e quais serão seus alvos. A política foi desmontada, aliás continuou desmoralizada, os políticos classificados como corruptos, execrados todos. O Congresso Nacional não tem somente ‘300 picaretas’ como dizia a canção do ‘Paralamas do Sucesso’, teria muito mais... O país foi classificado por um delator como ‘República das Bananas’, num retorno aos idos dos anos 1950.
 
Não somente os meios de comunicação noticiam e replicam informações e mais informações, detalham e especificam os acontecimentos. Comentaristas e analistas discutem e sugerem os dados do momento e as novas verdades que cada delator traz. O clima de salve-se quem puder se transfere para as redes sociais. Facebook, Twitter e Whatsapp trazem notícias e comentários, replicam as informações e são inundados por charges e piadas. Tudo funcionando quase ao gosto e deleite do usuário da mídia. Há denúncias que algumas dessas plataformas fazem com que se receba a informação que lhe agrada.
 
Esse conjunto de informações, de notícias às vezes imprecisas e infundadas, tem contribuído e alimentado o apelo à preconceitos e radicalizações que desde o processo eleitoral tornou-se evidente na sociedade brasileira. As recentes delações e denúncias têm contribuído muito para a radicalização e para a mobilização a favor ou contra o governo.
 
Além de tantas possíveis marcações do agora, tem-se falado na ‘era da pós-verdade’. A palavra ‘pós-verdade’ foi definida pela Universidade de Oxford (2016) como a palavra do ano, sendo conceituada pelos ‘os fatos objetivos terem menos influência de moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crença pessoal’. E por essas paragens caminharam algumas campanhas - do Brexit, que definiu a saída da Inglaterra do sistema Europa, bem como a campanha presidencial norte-americana em que se elegeu Donald Trump. Nelas os boatos e versões fantasiosas substituíram os fatos... Conforme o Observatório da Imprensa (edição nº 942), “Aqui no Brasil, a pós verdade é nítida no caso das investigações da Lava Jato. Separar o joio do trigo no emaranhado de versões e contra versões produzidas pelas delações premiadas é bem complicado. ”
 
Objetivamente. As investigações, denúncias, acusações, relatos e processos em andamentos revelam a falência da política, das administrações e governos brasileiros, dos partidos políticos, da forma de fazer política neste país tropical da roubalheira e cafajestada. Revelam uma classe dirigente falida e corrupta. Um segmento do grande empresariado mafioso.
 
Assim sendo vale até o questionamento da proposta de reformas políticas. Reformar o que? O processo eleitoral, se é um dos eixos do caixa-dois e da corrupção? Renovar o Congresso Nacional, se a forma de funcionamento legislativo e o próprio sistema político geram corrupção? Se a formação das políticas tem por base alianças espúrias, coligações e partidos políticos que se vendem a qualquer custo e tendo um empresário para bancar e tirar proveito da roubalheira? Indignação parece ser pouco... Retomar aos ideais republicanos, apresenta-se como o dilema para a sociedade brasileira.
 
Itami Campos é cientista político.
 

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