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Gabriel Chalita

Oração aos Pais

| 14.08.17 - 08:35
 
Goiânia - Aos pais que já se foram, uma oração. Suas lembranças povoadoras de afetos continuam por aqui. 
 
Despedidas sempre causam algum desconforto, alguma dor. Muitas dores me visitaram quando meu pai partiu. Chãos se abriram, dúvidas surgiram, a fé precisou ser reabastecida. Difícil imaginar o dia seguinte ao da partida. Nem um abraço, nem um beijo, nem um colo, nem um olhar. Apenas as lembranças. Lembranças tantas, eu tinha e tenho do meu pai. 
 
Aos pais que estão, uma oração. Filhos vão crescendo e ganhando forma. Repetem ou repelem gestos e atitudes dos pais. O pai super-herói, o pai protetor, o pai companheiro. Mas há o pai violento e o pai ausente. Há o pai que não se afeiçoa e parte, partindo. Há filhos que buscam o que não tiveram. Substituições são difíceis. Há símbolos que nos significam vida. Geradores de vida, cuidadores de vida são essenciais.
 
Uma oração à essência da paternidade. Desde os inícios. A gravidez conjunta. O amor intenso à mulher que vai vendo seu corpo transformado por uma nova vida que insiste em nascer. Juntos. Acompanhando os movimentos e aguardando a surpresa. E, depois, os primeiros choros, os primeiros passos, os primeiros risos. 
 
Meu pai brincava comigo brincadeiras de amor. Corrigia-me nos meus deslizes e incentivava as minhas invencionices. Eu gostava de criar palavras e de fazer discursos. Ele ria e me prometia presença.
 
Uma oração aos pais ausentes. Tristes desperdícios. O não acompanhar os centímetros que vão se acumulando, as transformações físicas e psíquicas que não dão trégua. Uma palavra aqui e a surpresa, “onde teria o filho aprendido essa frase, essa expressão?”. E os dias vão ganhando vida quando vidas vão ganhando importância. Momentos de amor. Um presente. Muitas presenças. Uma viagem. Muitos olhares. Um escorregão. Muitas mãos para segurar. 
 
As mãos de meu pai eram grandes. Grande também era sua generosidade. Ditos de sabedoria ainda me acordam quando adormeço no caminho. Caminhava vagaroso, meu pai, porque valorizava o tempo da contemplação. 
 
Uma oração aos pais que adotaram. Que souberam gerar filhos em seus corações. Que interromperam possíveis trajetórias de abandonos. Que compreenderam o cuidar como um dom significante que nos dá um outro, a felicidade. O dom de ser feliz não é capaz de existir sem o exercício cotidiano do cuidar.
 
Uma oração aos pais que se perderam no meio do caminho ou que ainda estão perdidos, mas que têm vontade de acertar. Pais super-heróis são expressões apenas de linguagem. Pais são feitos da matéria-prima humana, dos erros, das imperfeições, das necessidades. 
 
Ouvi tantas histórias de filhos intransigentes na ausência de perdão aos seus pais. Porque cambalearam na vida, porque erraram. O tempo nos traz ventos de alívio que têm um milagroso poder concertante. Só os não generosos remoem os erros de ontem. 
 
Uma oração aos pais do futuro. Que pensem antes de decidir. Que saibam que os caminhos mudarão. Nunca mais estarão sozinhos. Filhos não são brinquedos. Que se descarta vez ou outra. São sementes que precisam do regar correto, constante, amoroso.
 
Uma oração ao Amor Maior. Sem Ele, não teríamos pais, nem vida, nem oração.
 
Que cuide Ele dos que se foram e com Ele vivem. Que cuide Ele dos que estão por aqui. 
 
Ao meu pai, esta oração e a minha saudade e um corolário de lindas histórias que nunca passarão. 
 
Ao seu pai ... deixo para vocês a criatividade da homenagem, a delicadeza das palavras. 





*Gabriel Chalita
é escritor, doutor em Filosofia do Direito e em Comunicação e Semiótica.

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