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Rogério Lucas

Comunicação pelo método confuso

Paulo Garcia e a crise do Mutirama | 27.02.12 - 10:30
Paulo Garcia é um homem essencialmente bom. Honesto, probo, boa-praça, aberto ao diálogo. Entre seus defeitos figura o de administrar mal e se comunicar pior ainda. As consequências vão aparecendo aos borbotões: com toda sua boa-fé, Paulo está envolvido em um emaranhado de más notícias e emperramento de obras. Ou vice-versa, o que parece mais apropriado para efeito desta análise: por se comunicar mal, Paulo Garcia está em dificuldades de fazer o que quer.

A meu ver, o prefeito de Goiânia cometeu um erro primordial, o de querer se igualar – ou até superar – seu exemplo de gestor público, de quem herdou a prefeitura, Iris Rezende Machado. Não se supera uma lenda tentando ser sua cópia fiel. Mesmo assim, Paulo Garcia não teve pejo em, simbólica e praticamente, incorporar um emblema de Iris para si: quis gravar seu nome junto ao do criador como “reformador e modernizador” de um ícone da era Iris, o Parque Mutirama.

O Mutirama – mais talvez que o próprio Iris – faz parte do imaginário de várias gerações de goianos, entre as quais me incluo. Paulo Garcia, que também viveu estas épocas, deve ter achado que atualizando o parque de diversões que habita em nós e dando-lhe uma dimensão mais condizente com os tempos atuais, e até mais ecológica, passasse para a história como Iris passou com a obra inaugural da infância do Goiás contemporâneo. Pode ter acertado no imaginário, mas errou na obra e na comunicação.

Após um ano ou mais na defensiva, resguardando-se de se explicar sobre qualquer questionamento às obras do Mutirama – ou do Zoológico, ou da Rua 10, ou da desafetação de áreas públicas no Park Lozandes, entre outras – o prefeito parece ter sentido a necessidade de sair das sombras. Em declarações recentes aos jornais Diário da Manhã e O Popular, abandonou o discurso de que estava tudo correto e apenas sofria perseguições, subentendendo aí o Ministério Público e a Justiça, para dizer que a Prefeitura vai recorrer aos meios legais para provar a regularidade das obras. Como se isto não fosse a obrigação originária da administração pública.

Mesmo assim, Paulo Garcia insiste no sofisma de que está sendo perseguido por motivos políticos, e os que questionam os aspectos legais das obras fazem parte de um complô que trabalha pelo seu insucesso. Pela não concretização das obras.

O prefeito, com toda sua boa-fé, não havia entrado ainda no mérito de que os questionamentos não são mais de um vereador isoladamente, Elias Vaz, mas que as queixas resultaram em ações do Ministério Público Estadual, e estas em processos de varas da Fazenda Pública Municipal, além do próprio Tribunal de Contas do Município (TCM). Nem se refere de forma clara ao fato de que parte das obras do Mutirama, as do viaduto da Avenida Araguaia e da passarela sobre a Marginal Botafogo, são com recursos do Ministério do Turismo, no pacote sob suspeição que provocou a queda do Ministro Pedro Novais e seu secretário-executivo, um goiano que intercedeu pela aprovação da Warre Engenharia na parte federal do projeto do Mutirama.

Bem, o prefeito Paulo Garcia acertou na comunicação ao sair da sombra e falar direto com a sociedade sobre os questionamentos feitos a ele. Continua errando ao atribuir estes questionamentos a uma oposição que já estaria em plena campanha. A não ser que ache – e isto o prefeito sugere só de longe – que o Ministério Público e a Justiça Estadual, o Ministério Público Federal e a Polícia Federal tenham se articulado politicamente contra ele. O que, se fosse o caso, pressuporia um arranjo partidário entre forças tão díspares quanto o DEM e PSDB, opositores a Dilma Roussef, e o próprio PT, que comanda as estruturas federais de investigação.

Mais fácil supor que o erro em relação à obra do Mutirama parta mesmo de Luiz Carlos Orro, secretário de Desportos – que insiste na discrepância de valores sobre a compra e instalação de brinquedos – ou Iram Saraiva Júnior, da Amob, que desautorizou por duas vezes, conforme veiculado no jornal O Popular – e não desmentido -, a entrada de peritos do MPF, que teve que requisitar reforço da PF para o acesso às obras com recursos federais na Marginal Botafogo e Avenida Araguaia.

Boa-praça, Paulo Garcia muito presente nas redes sociais da internet, principalmente no Twitter, agradece sistematicamente aos que lhe dirigem elogios. Tem hoje alguns seguidores, entre eles meus amigos @luizinacio1 e @miguelcarlosgyn,  que não começam o dia sem alardear as glórias da administração pública municipal de Goiânia e os méritos e qualidades inigualáveis de seu prefeito. Os amigos, assim como Paulo, devem achar que ignorar os questionamentos sobre as obras e os feitos do administrador e da administração de Goiânia vão varrê-las para os escaninhos do esquecimento. Por bem – como obrigação de dar conta de como e por que se gasta dinheiro público – ou por mal – por questionamentos duros do eleitor nas urnas – vão descobrir que comunicação na administração pública é um pouco mais que fingir que não é com eles. Ao se omitir, renegar, reclamar, sofismar, para só ao fim admitir o debate aberto – e as respostas devidas em juízo aos órgãos fiscalizadores – Paulo Garcia comanda a comunicação pelo método confuso.

Rogério Lucas é jornalista.

Comentários

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  • 17.04.2012 05:27 Kenya

    Excelente artigo Rogério Lucas. Parabéns!

  • 27.02.2012 10:58 Carlos Henrique Lucas

    Em poucas palavras, o método mas eficaz que Paulo Garcia possui em combate aos seus "deslizes" é o silêncio, a omissão. Como sempre nota 1000 para o artigo grande Rogerio.

  • 27.02.2012 01:18 Sandro Ragonezi

    O Seguinte é esse... Concordo com o amigo em partes, tipo o lance da AMOB não permitir a entrada dos peritos para ver a obra, ou até o caso de não liberar a grana de indenização, acho que quem não eve não teme. O prefeito Paulo Garcia também pode ate estar mal assessorado, eu disse pode??? mas ate que essas denuncias forem apuradas e se de fato houver criminosos no meio, tenho certeza absoluta que o prefeito tomará as devidas providencias, mas são apenas suspeitas e até acusações, nada se confirmou e meia duzia ja querem condenar. Portanto, ainda estou do lado da razão e a razão hoje me diz que são só denuncias e suspeitas e não existe nada de concreto e até que se prove o contrário tudo cai na vala comum. Sou totalmente a favor de investigar os administradores públicos, mas desde que seja em todos os graus, a começar dos vereadores, pois, denuncia por denuncia existem várias como a de um vereador que vende casas e não entrega, outro que deixou os colegas de peruas na chapada para assumir parte de empresa de ônibus, outros que usam carros oficiais de madrugada e tem ate ex vereador que monta fabrica de motos da China em Piracanjuba e embolsa uma grana preta??? Então, denuncias são denuncias e gente como Elias Vaz e até o Diário da Manhã que tem centenas de processos trabalhistas contra seu dono que a fama de mal pagador atravessa as décadas, essas pessoas não tem moral alguma pra denunciar ou pelo menos palpitar. Já jornalistas de reputação ilibada como o próprio autor do artigo, Fabiana Pulcinelli, Luciana Finholdt, José Carlos Lopes , Afonso Lopes e outros sim pode falar o que bem entenderem porque são dignos. No mais concordo em boa parte com o artigo e principalmente quando você chama Iris Resende de LENDA, tem razão é sim uma lenda viva e tem o respeito meu e de centenas de milhares de goianos. Mas quando dizem esses jornalistas sobre Mutirama ou Zoo tem também de serem coerentes e se lembrar do buraco aberto na Avenida Paranaíba no Estadio Olímpico e ate o CCON que nunca foram terminados e que inclusive dizem a boca pequena que o governo de Marconi ainda deve 6 milhões ao arquiteto e ele nunca veio a publico rebater isso e os outros casos como ja citados, CCON, Estadio Olímpico, Teleporto, Trem Pequi etc Mas isso é coisa pra discutirmos com uma BRAHMA gelada na quarta feira próxima, no mais vc matou a pau na educação e inteligencia com que se dirigiu ao prefeito Paulo Garcia, quem dera 90% dos jornalistas tivessem 1 milésimo do seu Q.i. meu amigo Lucas. Abraço e parabéns de novo! Você tem que escrever mais!

  • 27.02.2012 01:15 fabricio Cavalcante @fabriciocava

    O que acho péssimo no prefeito é que ele não gosta de ouvir cobrança. Sempre fica com o discurso que está sendo perseguido pelo MP e por outros partidos. Gosto da interatividade dele no Twitter, mas quando apertado deixa o dito pelo não dito e ponto. No acidente que vitimou um operário, cobrei dele a postura da prefeitura se manifestar, pois a imprensa dizia que ninguém comentava. Ele me mandou recado no Twitter dizendo pra eu me informar melhor. Comprei o jornal O Popular na hora e lá dizia que durante o dia inteiro a prefeitura não se manifestou e que somente um funcionário da WARRE havia se pronunciado. Quer dizer, eu estava certo de cobrar e ele dizendo para que eu me informasse melhor... E é sempre assim... se faz de vitima nas redes sociais... Passou por cima de tudo e todos pra tocar as obras do Mutirama sendo que os orgãos competentes sempre pediram cautela ao prefeito, agora ele fala que "parece que não querem que eu entregue nada". Por que afinal não deixou o Mutirama sempre aberto para a imprensa e ao Ministério Público? POR QUE?? Esses dias nem sabia onde se encontrava os afrescos de Frei Confaloni que estão em ruínas até agora. NÃO PAGOU os artistas que fizeram o projeto Contendo Arte. Nunca se pronuncia sobre o Zôo. Vive falando que está trabalhando e não se deu conta que isso não é mais que sua obrigação. Vi ontem que ele foi na igreja Videira. Por que não escolheu uma outra? Precisa ser a que mais tem gente? Por que será ... Eleições, claro. E fica ai falando que só pensa em trabalho e as outras pessoas que falam de eleição. Pois bem, prefeito. Não somos bobos, você tinha uma eleição na mão. Deixo claro que não sou de nenhum partido politico, que não quero puxa saco do prefeito me trollando no twitter e que cobro também o Governador Marconi Perillo quando me é conveniente. É UM DIREITO MEU COBRAR DE QUEM ADMINISTRA A MINHA CIDADE/ESTADO/PAÍS.

  • 27.02.2012 11:52 Adilson

    A parte do aspecto politico de todo o texto, com um enfoque próprio, reputo que as informações sobre discrepâncias de valores partiram e partem de premissas equívocadas. Uma montanha russa nova (sem uso) diferentemente do anunciado aos 4 ventos, custa a partir de E$ 3.000.000,00 ex-works, portanto, com os impostos que sobre ela recaem, pode chegar a custar, sem a instalação, E$ 6.300.000,0o, e, considerando um BDI do fornecedor, na faixa de 25%, pode-se supor que o valor para a Prefeitura seria de algo em torno de R$ 18.900.000,00, portanto, esses números são "a partir de". Existem alguns fabricantes mais baratos e outros mais caros, esse é um valor médio de mercado. Usando a montanha como referência e tendo em conta que a "apregoada" montanha russa de R$ 1.500.000,00 NOVA, não era nova, é usada, entrou no Brasil em 1996, e desde então está em um parque itinerante. Para fazer com ela o mesmo trabalho que foi feito na Super Jet, o valor para a Prefeitura seria algo em torno de R$ 5.062.500,00. Posto isso, a informação sobre produtos chineses de parque de diversões feita por importação direta de alguns parques, dá conta que o custo final é de aproximadamente 15% menos que o produzido no mercado europeu. Já houve alguns importados (carrinhos de auto-pista) que duraram até 3 anos em operação. Há italianos no mercado funcionando 20 anos com a adequada manutenção. O dito "importador" cujas informações foram base das denúncias apresentadas, NUNCA importou um equipamento de parque de diversões. Obteve os preços a partir de um site chamado Ali-Baba, de uma trading (assim inclusive postado numa das primeiras matérias a respeito pelo jornal O Popular) onde a compra é feita com pagamento de 30% de sinal. Esse "importador" queixou-se de que não soube da licitação de março de 2010, apesar de só começar no ramo de diversões em fevereiro de 2011 quando o Mutirama foi definitivamente fechado para reforma. A bem da verdade, deve ser dito também que o contrato preve dentre outras coisas, o fornecimento de um único projeto executivo para a decoração temática, um projeto para o funcionamento do parque, projetos de iluminação tanto decorativa como de serviços, treinamento operacional da equipe que vá operar o parque ec, etc, etc. A compra direta deste ou daquele fabricante de brinquedos (a indústria de parques no Brasil é incipiente) é impossível pelas condições de venda que não atendem os quesitos de forma de pagamento. Não há como comprar do fabricante sem o pagamento de sinal, na realidade, o fabricante só entrega depois de 100% pago. TODOS os parques privados do Brasil adquirem equipamentos usados para suas operações. Nem todos os operadores de parque adequam os brinquedos as normas técnicas necessárias para operar. O engenheiro contratado para a emissão de laudo de segurança dos equipamentos trabalha de forma absolutamente independente e tem total liberdade em proceder as exigências que julgue necessárias para a emissão do laudo. Atualmente, esse profissional, muito conceituado no mercado, emite laudo para apenas duas empresas: a Astri e o grupo Multiplan. Estamos a disposição para quaisquer esclarecimentos necessários no tocante a valores ou quaisquer outros que julguem adequado.

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