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Gabriel Chalita

O Voo da paixão

| 28.08.17 - 18:44
 
Hoje é 27 de agosto, aniversário de Jamile.
 
Quem é Jamile? A mulher que me convidou para um café da tarde ao som de Beethoven e que me inspirou esta história.
 
Na mesa, havia dois castiçais. Velas. Não era necessário acendê-las. A luz do dia entrava pela janela aberta. E Jamile estava radiante. Queria brindar. Brindar o quê? A paixão. A paixão? Ora, fui seu confidente em tantas noites em que ela chorara a ausência de Lázaro. O homem por quem ela era apaixonada. Entre soluços e invenciones, ela descrevia Lázaro e o futuro que teriam juntos. Mudávamos de assunto e voltávamos para Lázaro. Ela descrevia um Lázaro que eu desconhecia, embora eu o conhecesse. Falava de suas falas. De seus textos demorados despejando amor. Com riqueza de detalhes, repetia os mesmos ditos. Eu ouvia. Cabe aos amigos ouvir. Ouvir é amar. Vez ou outra, eu a interrompia querendo mostrar a ela a luz de fora que iluminava a noite da cidade. Havia cidade. Mas ela não se permitia ver. Era ele o senhor absoluto dos seus pensamentos. E desejos.
 
Brigavam sem economias. E lá estava ela novamente absorta, brigando com os seus pensamentos, em diálogos imaginários, desculpando-se e culpando, na solidão voluntária a que se submetia. Nesses períodos, ela dizia o quanto ele era egoísta, o quando era distraído, o quanto era inerte em matéria de alguma mudança por amor. 
 
Bem, mas ela queria brindar a paixão. Não entendi. Ela aumentou um pouco o volume da música. Acendeu as velas. Abriu a janela. Respirou fundo. Olhou para o longe e disse: "Brindemos o voo da paixão". Fiquei observando. Ela olhou-me com didatismo e explicou que eu havia dito, tantas vezes, que um dia ela acordaria e perceberia que a paixão é transitória. Que ela abriria a janela e saberia  que aquele sentimento que a dominara, sem descanso, partiria, voaria.
"Pois bem, a paixão voou. Não quero mais. Olho para trás e vejo o quanto menti para mim mesma. Ele é avarento nas coisas e nos sentimentos. Embora tenha dito que me amava, jamais me amou. Mas o que ele sentia pouco importa, importa o que eu sinto, estou livre. Veja, eu sou capaz de ver a cidade. Há vida fora dos escombros onde eu me emaranhei".
 
Jamile falava a verdade. Foram meses de angústia tentando fazer o impossível para estar ao lado dele. E ele prometia futuros. E esquecia. Dizia lindas declarações e se enfurnava em outros lençóis. E ela sofria. Sofria olhando a luz acesa da janela de Lázaro e sabendo que outra mulher ria com ele os risos do anoitecer. Seu choro não o sensibilizou. Ele ouviu os lamentos de Jamile e mudou de assunto, mas não de atitude. Gostava de sentir-se desejado por muitas. Ela era apenas uma. Não bastava. Mas agora era hora de brindar a vida. Vida que segue. A paixão é fruto de um deus brincalhão, Eros, que flecha sem aviso os desavisados. Ela é boa? Certamente. Ela é má? Também. A flechada abre uma buraco imaginário, e a imaginação trabalha mais do que a realidade. Mentem os apaixonados para eles próprios. Mentem porque precisam imaginar o que imaginam ser um desfecho perfeito. Insistem no que percebem ser falho. Culpas por não tentar novamente. Choros ansiosos por não compreender as atitudes do outro.  Se, um dia, Jamile chorou vendo a janela de Lázaro e imaginando o que era seu sendo de outra; hoje, diante de sua janela, ela sorri. Sorri e vê a cidade. Nossa, quanta vida há na cidade! Quantos Lázaros e Pedros e Felipes e outros vivem na cidade. Ela não os via. 
 
É possível evitar a paixão? Talvez, não. Talvez seja um desperdício não vivê-la. Mas é preciso saber o que fazer com a paixão. Crimes passionais, infelizmente, são comuns. Matar por paixão? Não. Ou dá certo ou um dia haverá uma janela aberta, quem sabe ao som de uma canção de Beethoven  e um amigo para brindar um voo. Um voo da paixão? Também. Mas um voo nosso. De quem se desembaraçou e agora parte para contemplar a vida que vive na cidade. 
 
Hoje à tarde, vou à casa de Jamile. O sol desse amanhecer é convidativo. As noites, mesmo as demoradas, partem. Os amanheceres nos surpreendem. Basta que abramos a janela. Jamile encontrou uma nova paixão. Estão juntos. Por enquanto parece que não há mentiras. Souberam esperar um o tempo do outro. Compreenderam a frase de Edith Stein que diz: "O que vale a pena possuir, vale a pena esperar". Não sei qual a música que nos embalara no seu aniversário. Sei que gosto de estar junto de meus amigos comemorando a vida. Ah, amizade também é uma forma de amar. 
 
Para você, Jamile, no dia do seu aniversário, esta minha homenagem. Daqui a pouco, estaremos juntos. Vendo a cidade. Quem sabe hoje tenha luar. 




*Gabriel Chalita é escritor, doutor em Filosofia do Direito e em Comunicação e Semiótica.

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