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Fellipe Fernandes

Quem com ferro fere...

A polêmica é mais que uma técnica de ataque | 19.07.11 - 12:23

 

 
Rita Lee, na letra de Jardins da Babilônia, escreveu que “pegar fogo nunca foi atração de circo, mas de qualquer maneira pode ser um caloroso espetáculo”. Os desatentos escutam apenas mais uma das frases graciosas de uma das grandes do rock and roll brasileiro, mas aqueles que estão ligados no que se esconde detrás das palavras captam um mote publicitário da maior artimanha de anarquia político-social da sociedade em que vivemos: a polêmica.
 
Divergir, controverter, destoar, semear a discórdia, o prezado leitor escolha o sinônimo ou a expressão que mais o ajude a chamuscar os casos nos quais estiver envolvido.  Mas, por outro lado, é preciso se lembrar também que a polêmica, mais do que uma técnica de ataque, é uma maneira dissimulada de defender-se, de salvar-se das chamas usando o próprio fogo para distrair, turvar, desviar, deslocar, desfocar o que provoca dano, tentando afastá-lo, assim, daquilo que nos torna mais débeis.
 
Eu me explico: um governo, por exemplo, quando passa por uma grave crise (econômica, social, ética, etc) que abala seus fundamentos políticos, normalmente recorre a um tema polêmico para afastar a atenção geral (aborto, casamentos homossexuais, reforma na regulação de direitos autorais, entre outros) de problemas que o enfraquece, como casos de corrupção, ingerência política e tantos outros que, infelizmente, nós brasileiros sabemos decorados e salteados.
 
Já na Espanha, por exemplo, país onde vivo há dois anos, com o governo socialista agonizando no último ano antes do câmbio de legislação, a população sofrendo os impactos do tsunami econômico da crise de 2008, com mais de 20% de desempregados sobrecarregando a previdência social e uma taxa de rejeição dos eleitores que ultrapassa os 90%, o desvio da atenção pública por meio da polêmica tornou-se tópico de manual junto às inúmeras tentativas falidas de tirar o país dos escombros.
 
A última e uma das mais comentadas é a retirada dos restos mortais do ditador Francisco Franco da Abadia de la Santa Cruz del Valle de los Caídos, lugar que ele mesmo ordenou levantar na década de 1940 com as mãos de presos políticos do regime totalitário que liderou e onde ele mandou enterrar também mais de 34 mil corpos de pessoas mortas durante a Guerra Civil, nos anos 30, evento inaugural da ditadura que encabeçou até 1975, ano de sua morte.
Com a justificativa de que se deve retirar o aspecto simbólico da repressão e da tirania que cerca o Valle de los Caídos, o governo espanhol criou uma comissão formada por expertos de distintas disciplinas (com presença da Igreja Católica) que deverá decidir, até o mês de novembro próximo, se exumarão ou não o corpo do ditador, já que, segundo parecer do próprio governo, é impossível a retirada dos outros milhares corpos de republicanos assassinados pelo regime e enterrados ali na companhia de seu próprio verdugo.
 
O monumento, aliás, composto por uma abadia beneditina, oito capelas onde estão enterrados os restos mortais de milhares de pessoas, uma basílica cravada dentro da rocha da serra de Guadarrama, a poucos quilômetros de Madri, e que sustenta um cruz gigantesca de 108 metros de altura, teve parte da história de sua construção recentemente usada como pano de fundo para o filme Balada Triste de Trompeta, do diretor Álex de la Iglesia, ganhador dos prêmios de melhor direção e roteiro no Festival de Veneza, e que no Brasil ganhará título de Balada do Amor e do Ódio, com estreia marcada para o próximo dia 29 de julho em circuito alternativo. 
 
Contando a história de dois palhaços que usam a violência para afrontar frustrações, o filme é uma fábula onírica que transpassa para a realidade o ódio alimentado pela sociedade nos anos de ditadura e posteriormente reprimido por ela mesma em prol do funcionalismo da democracia. Mais do que um espelho exagerado do estado de espírito inconsciente do povo espanhol, o filme mesmo ajudou a reacender à polêmica entorno dos perigos escondidos baixo o silêncio simbólico imposto pelo monumento por meio do que ele próprio – aliado à figura de Franco - representa: o sofrimento, a violência muitas vezes catártica, o ódio como motor para o progresso, a morte. 
 
Consideradas golpes baixos pelo opositores e com a fonte da controvérsia brotando das feridas ainda abertas de um período escuro da história do país, as polêmicas (a disseminada pelo governo e a iluminada pelo filme), com ênfase na retirada dos restos mortais de Franco do Valle de los Caídos tem ocupado na mídia um espaço muito maior do que o concedido ao debate das reformas em curso no congresso nacional, como a das pensões (que estuda o aumento da idade de aposentadoria dos 65 para os 67 anos), a reforma laboral (que pretende flexibilizar a negociação coletiva e estuda acabar com o vínculo entre inflação e aumento salarial), e além, é claro, das adequações econômicas exigidas pela União Europeia para frenar o desgaste do país diante dos mercados internacionais.
 
O que permite a seguinte avaliação: se a destruição dos personagens de Balada Triste de Trompeta parte do princípio de que a alegria do palhaço é ver o circo pegando fogo, porque assim ele afasta o foco de sua própria dor provocando-a naquele que ri da sua miséria, a polêmica recente inflamada pelo governo espanhol pode, à curto prazo, ter lá seus efeitos positivos, mas corre o perigo de se converter em problemas indomáveis e que podem até estar um pouco mais distantes, porém, ao mesmo tempo, bem adiante do calor das chamas crescidas pelo que incita ao tentar apagá-las de qualquer jeito.
Pois quem mexe com fogo...
 
 
Fellipe Fernandes é jornalista

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