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Gabriel Chalita

Amizade

| 19.09.17 - 15:09
A leveza da amizade contrasta com os delírios da paixão. A paixão é exigência; a amizade, não. A paixão é entorpecente, a amizade é suave. Se não for suave, deixou de ser amizade. Se for utilitária, deixou de ser amizade. Há amizades que duram toda uma vida. Há outras em que se percebe a necessidade do partir.
 
Em um mundo de aduladores e interesseiros, urge relembrarmos o ditame bíblico, "quem encontrou um amigo, encontrou um tesouro". Tesouro mais nobre do que os nobres metais preciosos, que se perdem com o tempo. A amizade, a verdadeira, permanece. 
 
Há quem diga que a paixão causa sensações bioquímicas. Sensações que perseguimos para encontrar a felicidade. Sensações que buscamos em remédios e drogas, em lembranças e esquecimentos. Lembrar a primeira dose de algo que não fez bem, que me picou, que me viciou, lembrar os delírios do que nem existiu. Esquecer e dormir. Dormir uma noite de paz sem os solavancos dos pensamentos. São, talvez, essas as sensações que buscam os que se acompanham de tantos medicamentos. Não. Não sou conhecedor suficiente para falar de tranquilizantes ou de outras pílulas. Nem dos vícios químicos. Nem é esse o meu intento aqui. 
 
Quero falar da amizade. Do prazer puro que brota da biologia das relações ao saber que há um amigo que virá ao meu encontro para fazer nada. Apenas para estar comigo. Sem planos de planificar algum empreendimento, sem interesses de amealhar alguns bens, sem necessidade de prazeres carentes do que é matéria. Apenas nós, meu amigo e eu, e uma brisa que nos relembre de que é bom estarmos ali. Ali onde? No lugar sagrado do encontro. No lugar em que podemos tirar os sapatos ou os chinelos e pisarmos sem receios. 
 
O chão da amizade não oferece riscos de cortes, de sequelas. O chão da amizade é terra escolhida para a boa sementeira. O que se colhe de uma amizade? Sombras para os dias quentes, proteção para os dias de chuvas intermitentes, poesia para todos os dias. Mas nada planejado, nada buscado como troca de nada oferecido. Um caminhar, um encontrar, um conversar, um permanecer. A amizade é o antídoto dos tempos descartáveis. Os interesseiros se arvoram para sugar até o ultimo gole das tetas dos abastados. Lançam-se, sem amor próprio, em adjetivos à exaustão, em elogios a rodos, em busca de alguma participação na fortuna. Encolhem-se até para não parecerem  famintos. E, se secam as benesses, partem em busca de um outro desavisado. Tristes dias, tristes figuras.
 
Os amigos pouco se importam com o que não se deve importar. Efêmeros poderes, efêmeras posses. O que permanece quando as roupas luxuosas são retiradas é o que interessa aos verdadeiros amigos.  Uma mesa, alguma bebida quente, fumegante, quem sabe. Um pão, talvez, Uma água vinda de alguma nascente pura. Puramente, permanecem ali a falar sobre a vida; a vida, esse presente inesgotável de novidades que nos surpreendem na rotina aquecida dos nossos olhares. Falar sobre os outros? Nem sempre é necessário. O calor do encontro amigo já é o bastante para estarmos bem. E quem está bem não carece de diminuir o outro. A amizade me eleva a patamares meritórios. Conquistados pelo simples fato de termos nascidos. Para o lugar do encontro. Sim, porque os desencontros foram invenções nossas. Algum descuidado resolveu competir, resolveu comparar, resolveu destruir, e, assim, os dias perdem os seus contempladores. Ah, os amigos contemplam as cenas comuns e pintam figuras extraordinárias. Viver é extraordinário. Desistir de viver, um desperdício. 
 
A humanidade inventou tantas máquinas, algumas perversas, inclusive. Torturamos gentes e animais. Domesticamos os que viviam livres para nos servimos da sua dor. Por que isso foi acontecer? Quando se iniciou essa decadência? A liberdade é um presente que não se pode desconsiderar. A amizade é livre. Sem esse complemento essencial, ela nada é. Os que aprisionam não são amigos, os que machucam não são amigos, os que desrespeitam não são amigos.
 
A bebida quente em uma mesa e a ausência da pressa, o tal pão que inspirou uma oração e a gênese da palavra partilhar, a água pura que lava o que precisa ser lavado dentro e fora de nós. Tomar banho sem tampar o ralo para que as imprudências partam. E beber a água com a simplicidade necessária de quem sabe o que nos permite manter vivos, entrando dentro de nós e irrigando cada milagre. E depois nos levantamos, olhamos para o que nos resta da vida e, sem esforço algum, sorrimos o sorriso de quem se alimentou. Amizade é isso. Uma linha invisível aos que têm olhos de ver que nos conduz sem impedir que nos conduzamos para o melhor do que precisamos viver. 
 
Muitos amigos? Não, não há necessidade nem tempo para, de todos eles, cuidar. É melhor que saibamos escolher, compreender. Sentemos, pois, à mesa sincera em que as palavras nascem do não planejado, apenas do esperado, para fazer amar. Amizade é a forma leve de amar.  Prosa boa é a que poetiza os nossos dias. E nos deixa com um gosto de querência  por outros amanheceres. 



*Gabriel Chalita é escritor, doutor em Filosofia do Direito e em Comunicação e Semiótica.

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