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Carlos André

O Auto da Excelentíssima Burrice

| 01.12.17 - 17:37

Goiânia - Ariano faz falta!! Sim!! Como Ariano faz falta!!
 
Aliás, que nome, hein! Ariano!! Parece que essa alcunha germânica é mais uma daquelas ironias construídas pelo destino! Como pode um Ariano ser tão competente porta-voz das mazelas por que passam tantos não arianos? Como pode ele traduzir – por seus chicós e por seus joões grilos – tanta injustiça nas relações sociais?
 
Ler Ariano é ler a alma de um povo oprimido por esse Estado de Não Direito; é ver o quanto o Leviatã se tornou o nosso algoz na contemporaneidade...
 
Noutro dia, ao ver um vídeo de uma das inesquecíveis palestras de Ariano, ouvia-o reclamar da falta de propriedade vocabular de um jornalista, que qualificou um guitarrista popular (cujo nome não citarei aqui) como “gênio”! Ariano não digeriu o adjetivo e logo vaticinou: “Ora, se esse guitarrista é um ‘gênio’, o que dizer de Beethoven?”
 
Essa fala de Ariano é muito mais do que um mero ressentimento ao péssimo uso que fazemos dos adjetivos. É um aviso de que estamos perdendo a noção das palavras; de que estamos nos desensapientizando! O fato é que estamos ficando burros mesmo! Estamos na era do top, top, top; do topíssimo!
 
Aliás, por falar em topíssimo, quero aqui externar minha indignação ao (des)serviço que algumas colegas juristas têm feito em relação ao uso do sufixo -íssimo! Em Língua Portuguesa padrão, esse sufixo é utilizado para indicar o grau absoluto sintético de um adjetivo, ou seja, para demonstrar que não existe possibilidade de intensificação maior no qualificador. É tipo o mais top! (Se é que o leitor me entende!).
 
Assim, aquele que é muito amigo é amicíssimo; aquele que é muito é gentil é gentilíssimo; aquele que é muito excelente é excelentíssimo, e aí por diante…
 
Pois é! Ariano ficaria transtornado ao saber que o mau uso das palavras já cruzou a linha dos adjetivos e já está nas locuções de tratamento… É! Além do topíssimo, a moda agora é excelentíssimo! É excelentíssimo para cá… excelentíssimo para lá… No Direito, parece que a galera curte o funk do excelentíssimo. Já tem até perfil no Instagram (com muitos seguidores e likes…).
 
É lamentável a falta de zelo de alguns operadores do Direito com a palavra! A palavra é o mais eloquente mecanismo comunicativo de um jurista! Não se pode mais aceitar que um operador do Direito seja um papagaio do pensamento; que repita o excelentíssimo (e o topíssimo também…) sem pensar no que isso representa linguística-juridicamente.
 
Espantado leitor, basta ler o Manual da Presidência da República, para que se chegue à óbvia conclusão de que “excelentíssimo senhor” é tratamento cerimonioso adequando exclusivamente (repito, exclusivamente) aos Chefes de Poder!
 
Assim, presidente da República é excelentíssimo; presidente do Senado é excelentíssimo; presidente do Supremo é excelentíssimo!! Ninguém mais!! Ouviu?! Ninguém mais!!
 
Vereador não é excelentíssimo. Senador não é excelentíssimo. Delegado não é excelentíssimo. Fiscal não é excelentíssimo. Procurador não é excelentíssimo. O síndico do seu prédio não é excelentíssimo…
 
Sapentíssimo leitor, é preciso – em memória à eloquência de Ariano – que, no Brasil, respeite-se o significado das palavras. É preciso que denhamos uma olhadinha, de vez em quando, nos dicionários e nos manuais. Do contrário, nós nos tornaremos topíssimos imbecis.
 

*Carlos André é professor de redação oficial e advogado
 
  
 

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