Pela 5ª vez o mais influente da web em Goiás. Confira nossos prêmios.

Envie sua sugestão de pauta, foto e vídeo
62 9.9850 - 6351

Gabriel Chalita

O nascer da esperança

| 24.12.17 - 08:16
Amanhã, a esperança há de surpreender mais uma vez. É sempre assim. Depois do que se vive hoje, há um amanhã. 
 
Um certo João explicou sobre ser uma voz que clamava no deserto.
Naquele tempo. Nos tempos de hoje.  O deserto das ausências. O egoísmo nos toma de assalto e fica. E é sobre nós e apenas sobre nós que nos debruçamos. O outro é apenas um dispensável a mais. O deserto das presenças erráticas. O outro me interessa quando interessa. Nada de amizades, mas de adulações e de descartes. Nada de amores, mas de expectativas. Nada de liberdade, mas de trancafiamentos. 
 
O deserto de João se repete hoje. Mas, amanhã, é Natal. E o Menino vem novamente. Sem pretensões de imediatismos. A manjedoura é o coração humano. Metáfora dos sentimentos que nos acolhem. Pulsante coração. Capaz de irrigar desertos e afinar vozes para tempos mais plenos. 
 
Sim, na plenitude dos tempos, nasceu o Menino. Assim está escrito nas Escrituras Sagradas. No tempo certo, para que os homens pudessem perceber os encontros e celebrar a permanência.  O Menino nasceu e foi esperançar na carpintaria de José. Foi crescendo e fazendo crescer. Foi amando e ensinando a amar. Foi olhando e desconsertando os que se achavam consertados mesmo vivendo no deserto. Os pretensiosos sempre tiveram dificuldade de compreender a simplicidade do Menino.
 
O natal nos traz todos esses ingredientes. A fartura das mesas deveria vir depois. É de fartura de afetos que carecemos. De olhares que impeçam a invisibilidade, de ouvidos que espantem a surdez. Há gritos implorando por justiça, há gritos pedindo apenas atenção. 
 
Desatentos, comemos e bebemos sem economia. E cobramos presentes. Presenças reais ficam para os que aprenderam a compreender, a sentir, a ver a estrela que continua a nos guiar para que saiamos do deserto.
 
Amanhã é Natal. Há os que viverão o passado, lamuriosos dos que se foram, olhando os álbuns de fotografias e percebendo os que faltam.  Há os que se embriagarão, aproveitando os festejos. Há os que ficarão sem comer, porque não terão o que comer, porque é assim o mundo dos desertos. Mas por que foi mesmo que o Menino veio? Era preciso uma ponte que nos permitisse chegar à outra margem. Onde há água pura, onde há rodas de conversa, onde há crianças que brincam sem medo, onde há mulheres e homens construindo alicerces comuns, comunhão. No outro lado, a felicidade é permanência e não visitante apressada. No outro lado, o riso não é nervoso nem forçado. No outro lado, a primavera reina absoluta explicando que o nascimento de uma flor não é obra do acaso. 
 
Todos são convidados, mesmo os que não acreditam muito. Há uma exigência apenas. O Menino não arromba corações. Chega com leveza naquele que quer experimentar o seu nascimento. Para isso, é preciso de limpeza. E de abertura. Corações abertos pulsam um mundo melhor. E é isso que quer o Menino.
 
Brincar de eternidade nos momentos que eternizamos enquanto estamos por aqui. Momentos simples. Limpos, porém. As sujeiras nos impedem de receber o Menino e nos impedem de ver a outra margem. 
 
Amanhã, a esperança há de surpreender mais uma vez. 
Feliz Natal. 



*Gabriel Chalita é escritor, doutor em Filosofia do Direito e em Comunicação e Semiótica.

Comentários

Clique aqui para comentar
Nome: E-mail: Mensagem:
Envie sua sugestão de pauta, foto e vídeo
62 9.9850 - 6351