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Inspiração

Não tentem me salvar

Fabrícia Hamu discute religião | 23.04.12 - 13:13
Religião, futebol e política não se discute, certo? Errado. Infelizmente, nem sempre nossas preferências pessoais e crenças são respeitadas pelo outro. No sábado tive um claro exemplo disso. Aproveitei o dia de sol para caminhar no Bosque dos Buritis, mas o que era para ser motivo de alegria foi razão de tristeza e chateação.

Enquanto tomava calmamente minha água de coco, uma senhora aproximou-se de mim e, me entregando um folheto, perguntou se eu aceitava Jesus em meu coração. Peguei o papel e respondi que já havia aceito. Contente, ela quis saber de qual igreja evangélica eu era. Quando disse que era espírita, a mulher começou a gritar.

“Que o demônio liberte seu corpo, pois você está tomada por ele!”, berrava a senhora, chamando a atenção de todos. “Vou orar para que Deus venha lhe salvar, porque você está perdida. Que Jesus tenha pena da sua alma!”, completou ela, transtornada, enquanto fugia de mim como o diabo foge da cruz.

Não é a primeira vez que isso me acontece. Há alguns anos, quando o garoto carioca João Hélio morreu, depois de ser arrastado por seis quilômetros pelos bandidos que roubaram o carro de seus pais, ouvi uma outra senhora evangélica dizer que era “bem-feito para a mãe do menino, porque ela era espírita”.

Tenho amigas e amigos evangélicos maravilhosos. São pessoas abertas, generosas, que por sua atitude respeitosa e amorosa acabaram me fazendo ter vontade de conhecer suas igrejas, seus pastores e pastoras. E, se não me converti, saí com uma excelente impressão, com a sensação de que a experiência me acrescentou muito.

Entretanto, há uma ala de evangélicos que denigre os demais fiéis. É aquela formada pelos intolerantes, que se julgam melhores que o restante do mundo em função de sua opção religiosa, e que em relação a tudo o que é diferente do que escolheram para si reagem de forma agressiva, violenta e hostil.

Esse comportamento tem um nome: bullying. E o que é pior: bullying praticado por ignorância e preconceito, pois, via de regra, essas pessoas nunca leram um livro sobre a doutrina espírita na vida, nunca assistiram a um culto. Criticam e julgam algo sobre o qual têm o mais absoluto desconhecimento.

Tornei-me espírita na adolescência, por meio de uma amiga que me convidou para conhecer a Mocidade da Irradiação Espírita. Além de ouvir ensinamentos sobre tolerância, amor e caridade, tive a oportunidade de colocar em prática essa última, prestando serviços voluntários no abrigo para idosos mantido por eles.

Enquanto trocava os lençóis das camas, preparava as mesas do refeitório para o almoço ou contava histórias para aqueles velhinhos que não tinham mais ninguém na vida, eu compreendia com clareza o que os espíritas queriam dizer quando falavam da importância da caridade, de se colocar no lugar do outro, de aprender a servir.

O mesmo acontece nos cultos. Se você nunca foi a um culto espírita, não espere sacrifício de animais, bruxaria ou qualquer outra coisa do gênero. Saiba que assistirá a uma palestra sobre temas importantes, como egoísmo, vaidade, ira, ansiedade, e depois receberá um passe, que nada mais é que um ser humano que se faz instrumento de Deus e usa suas mãos para passar vibrações positivas e calmantes para você. Encerramos o culto citando, todos juntos, o ensinamento maior de Jesus: “Irmãos de toda a Terra, amai-vos uns aos outros”.

Não me julgo melhor que ninguém por ser espírita, mas também não aceito ser considerada inferior por isso. A lógica dos evangélicos que praticam bullying nesse sentido é totalmente estranha, para não dizer absurda. Quer dizer que se um estuprador, traficante de drogas e assassino resolver se converter a uma dessas igrejas ele será mais honrado perante Deus que eu? De uma hora para outra ele se tornará puro e sem pecados?

Quer dizer então que Madre Tereza de Calcutá e Mahatma Gandhi vão queimar no fogo do inferno, a despeito de todo o bem e caridade que fizeram, porque não eram evangélicos? Basta frequentar uma igreja evangélica, pagar o dízimo e bradar “Aleluia, Jesus”, para que o reino dos céus nos caia no colo, automaticamente?

Eu não acho que Jesus seja surdo e, por isso, considero desnecessário gritar no momento da oração. Também acho que igrejas não são empresas e não concordo com aquelas que obrigam os pastores a atingir metas mensais de dízimos e pedirem dinheiro insistentemente aos fiéis. Mas respeito a fé alheia, porque cada um sabe de si e do seu coração. Pena que a recíproca não seja verdadeira.

Não tentem me salvar, porque eu não estou perdida. Perdidos estão aqueles que praticam o pecado da soberba, que julgam, criticam e agridem quem se mostra diferente. A salvação desse Deus mesquinho, que protege uns poucos escolhidos e despreza e maltrata todo o resto eu sinceramente dispenso.

O meu Deus não tem a faca nos dentes nem o desejo de vingança no coração. Ele tem sede de amor e é fonte de misericórdia e justiça. Ele sabe que erramos sempre e, por isso, está permanentemente com as mãos estendidas para nos ajudar a recomeçar. Ele quer que nos amemos verdadeiramente, independente de raça, cor ou credo, porque veio para que todos (e não apenas alguns) tenham vida.

Comentários

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  • Por Jeanne Emilie 06.06.2012 11:45

    Muito bom, todos os seus textos!!!.

  • Por Janaina 08.05.2012 08:27

    Não tinha lido esse, Fabrícia! Também estudo o espiritismo há mais de vinte anos. Ainda não me considero espírita porque me falta muita coisa. Mas estou tentando... Beijos.

  • Por julisse 03.05.2012 12:16

    Maravilhoso...

  • Por LINDALVA 02.05.2012 03:17

    parabéns adorei tem gente que esquece que Deus não estar na religião e sim e nosso coração quando damos espaço para ele entrar .

  • Por adão lourenço veiga 01.05.2012 06:41

    Fabricia, (h)amei o seu texto.

  • Por jak 26.04.2012 11:13

    bomm

  • Por Mariana Crosara 26.04.2012 12:19

    Parabens pelo texto! Vc escreveu o que eu gostaria de gritar! Sabias e lucidas palavras. Pena que quem realmente precisa ler isso nunca se propoe! Luz em seu caminho...

  • Por Ricardo Sottero 25.04.2012 05:25

    Não tenho palavras. Este texto é absolutamente pertinente e perfeito. Não há maneira mais clara de traduzir a triste realidade que vivemos com alguns evangélicos. Parabéns. Ganhou mais um admirador.

  • Por Luciana de Alencar Brites 25.04.2012 12:45

    Excelente texto ! Os evangélicos radicais deveriam desarmar o espírito, limpar o coração de todo e qualquer preconceito e lê-lo com atenção e carinho. Aprenderiam muito mais do que com a gritaria dos pastores e pastores que, na maioria das vezes, preferem fiéis incultos, ignorantes, medrosos e dependentes. Parabéns Fabrícia.

  • Por Jussarah de Barros 25.04.2012 09:54

    Fabrícia Hamu, excelente!!! Pena que é a pura realidade.

  • Por Adalberto Araújo 25.04.2012 03:55

    Elegante e calmamente, você expôs os que eu sempre quis verbalizar e escrever, mas que minha natural indelicadeza e falta de "jeito" com certos tipos de 'gente' me levariam ao cadafalso. Parabéns, mais uma vez...

  • Por Claudimiro Araújo 24.04.2012 03:40

    Parabéns e obrigado, Fabrícia. Fiquei realmente impressionado com a força e lucidez de seu texto. Afinal, não passamos de seres humanos, simples seres humanos, nem piores nem melhores do que ninguém, nem através da religião, nem pelo aspecto físico, muito menos pelas coisas que possuímos...

  • Por 75%Jesus 24.04.2012 03:24

    Religião... cada crente com sua loucura. Acho bizarro pessoas orando, pode ser na igreja, em casa, no quarto, onde for, parece coisa de quem não bate bem da bola.

  • Por Natália Araújo 24.04.2012 12:35

    É complicada a questão da religião. Existem pessoas que querem ser melhores do que as outras porque seguem determinado segmento religioso, mas o que acho incrível é que não obedecem um dos principais ensinamentos de Jesus, não respeitam o outro e não o acolhe em momento de dificuldade. Se gostam tanto de igreja, está faltando alguém com um pensamento bem evoluído para criar então a "RESPEITO EM CRISTO". Deus nos faz diferentes para que aprendamos a lidar com aquilo que é exterior a mim. E mais uma coisa, venho de uma família onde: minhas tias são evangélicas, avó espírita, mãe católica e eu, sem religião, que vou onde estiverem pregando o amor de Deus e respeito ao próximo, e todas nós vivemos em harmonia e respeito, cada uma com sua crença.

  • Por Mônica Barros 24.04.2012 10:17

    Excelente texto! Fico perplexa com a falta de respeito ao ser humano e com o livre arbítrio. Também não tolero estas pessoas que tentam nos "doutrinar".

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Sobre o Colunista

Fabrícia  Hamu
Fabrícia Hamu

Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica) / fabriciahamu@hotmail.com

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