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Cartas do Exílio

O pastel e a memória

Comer história ainda não é possível


Zurique, Suíça - Este ano completam 20 anos que estou fora do Brasil. E, durante esse tempo todo, não houve um único dia, um único minuto em que não tivesse saudades, em que não sentisse no corpo inteiro uma melancolia fina, uma vontade sempre presente de não estar ausente, de poder voltar. Um incômodo semelhante a quando entramos na sala de cinema, sentamos e percebemos já no escuro estarmos vendo o filme errado. Não que o filme em questão fosse ruim, mas simplesmente não era o escolhido. 
 
Desejo, vontade, em alemão “verlangen”. Viver definitivamente no exterior nunca foi o meu desejo, por amar demais os cheiros, as cores, as paisagens da minha terra. Não que o país onde vivo não tenha sua beleza, sua delicadeza, sua densidade, mas simplesmente não foi o meu desejo. Sempre tive consciência exata, quase palpável, de todos os momentos que deixei de viver no meu país, consciência da distância, do vácuo e do silêncio imposto a minha língua, que amo como amiga e confidente. Por isso, sempre me senti exilada, mas não um exílio político ou financeiro, um exílio amoroso. 
 
Amei, casei, tive filhos longe. E como não somos seres únicos, mas múltiplos, quanto mais o tempo passa e meus filhos crescem, mais fortes se tornam minhas raízes no exílio. Minha alma se acostumou a ter duas casas. E a saudade se acostumou a ter essa sede, sempre insaciável. E com a alma dividida em duas, criei meus filhos e me criei. 
 
E como todas as pessoas que sofrem dessa melancolia do exílio, procurei na paisagem estrangeira, marcas da minha terra. E foi assim que descobri uma pastelaria, como quem acha água num deserto. Uma pastelaria onde se pode comer 30 tipos de pastéis diferentes, beber guaraná e suco de frutas, comer paçoquinha, sonhos de valsa e brigadeiro. Enfim, o paraíso sobre a Terra! E lá fui eu com meus três filhos, emocionada como uma noiva antes do altar. O altar da memória. 
 
Queria mostrar tudo a eles, que experimentassem pastel com carne-moída, com milho, palmito, camarão com catupiry, queijo com goiabada...  Enfim, tudo! Mas a realidade é real, as lembranças são construções, misto de fantasia e memória. Ao chegarmos, percebi a diferença, mas não quis acreditar. Faltou a simpatia imediata, o sorriso no rosto, o bom-humor cotidiano. O pastel, demorado, muita massa, pouco recheio. Mas, mesmo assim, ainda estávamos felizes. Na rua, a neve caía, o silêncio preenchia as esquinas, dentro e fora das casas. Mas mesmo assim estávamos felizes. Gosto de infância, quase como chegar em casa. Mas apenas quase.
 
Voltamos algumas vezes à pastelaria e cada vez foi ficando mais claro para mim o que eu estava buscando. Eu não estava comendo pastel, mas memória. E o gosto não era o mesmo. O que me fazia estar ali era a vontade de viver momentos do passado e não a fome ou o desejo de saborear o que estava sendo servido. Aquilo não tinha mais gosto. Aquele desejo da infância, da juventude não era possível satisfazer, ele pertencia a um outro tempo, outro espaço. Era um desejo também insaciável.  Eu estava tentando comer memória e isso não era possível. Podia até ser indigesto.
 
O meu desejo de comer pastel era o desejo de estar e viver no meu país, de sentir calor, de sorrir para qualquer um, dar risadas sem motivo, sentir cheiros, ouvir vozes gritando, barulho de trânsito, cachorro latindo, sem tudo isso, o pastel não tinha gosto. Claro que as crianças não perceberam nada disso, gostaram do pastel, compartilharam minha emoção e brindaram com o brigadeiro, velho conhecido. Mas, para mim, tudo era apenas história. 
 
História que talvez um dia possa contar aos meus netos. Principalmente porque sempre preferi comer pastéis nos mercados de madrugada, tomar cerveja nas calçadas dos botequins e comer paçoquinha na padaria da esquina. E todas essas histórias um dia ainda vão querer sair. Histórias que vivi nas vendas de beira de estrada, estradas de chão vermelho, nas fazendas escondidas entre os morros, nas praias do nordeste ainda desertas, viagens de ônibus, de carro de boi estridente, de trem saindo da Central do Brasil, Ouro Preto amanhecendo, avião sobre o pantanal, Manaus a pé, carroças e caminhões leiteiros... 
 
E talvez, nesse dia então, será possível saciar a minha sede.
 


Comentários

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  • Por Cristina Gonçalves dos Santos Nascimento 20.05.2012 11:40

    Minha querida amiga doeu-me fundo a sua descrição ... não suportaria esta distância. Ainda hoje lembro-me com todos os detalhes, dos almoços após uma breve caminhada do pré-médico à sua casa. Ao sentir o cheiro/gosto do típico molho rosè (que eu comia desesperadamente...era bom demais...rrssr) com a salada de verduras/legumes .... antes uma música que quando ouço volto imediatamente ao passado. Ainda vou descobrir o nome da música: marcou-me e significa sempre parte da minha adolescência que só volta em lembranças. Que possamos um dia relembrar "corpo presente" , tudo isto. Ah, em tempo: vc escreve bem demais !!!!!!!!!!!!!!!!!!! Bjão,

  • Por Marilda 07.05.2012 11:08

    Amiga, exílio em nosso próprio país também vale?

  • Por Lisa Tôrres 02.05.2012 09:54

    Quase um Marcel Prost! belo texto!

  • Por Betulia Eriksson 29.04.2012 12:39

    Cerjana, de exilio voluntario sei muito e da saudade também. E toda vez que volto a pisar na terra vermelha de Goiás e vejo aquele céu azul e o verde mais verde que já vi enchendo meus olhos e o cheiro de mato no ar, sinto uma corrente eletrica de reconhecimento passar pelo meu corpo e descansar no ser. Me faz tão bem! e logo posso partir novamente com minha bateria recarregada. Pois descobri que o Brasil que amo está somente dentro de mim. É uma lembranca, uma memoria, um caso já contado. E mesmo sendo inteiramente apaixonada por ele, eu gosto de sentir essa saudade e o ver de longe me enchendo de desejos de um dia voltar. Só que agora já não consigo caber no velho contexto. Virei sem querer (querendo) cidadã do mundo e sinto cada vez mais sêde de andar, de descobrir, de ver o que ainda não vi e rever o que um dia a muito tempo, eu vi. Então guardo o Brasil dentro da gaveta do coracão e o encontro nos lugares que menos espero e o sabor desse encvontro é intenso. Assim como vc encontrou um pedacinho dele na sua Pastelaria , eu o encontrei no sorriso das pessoas no cambodia, ou no meio da floresta na India. Vamos nos encontrar um dia e fazer pamonhas assim comemoramos de longe o que tanto amamos e temos tão perto e mesmo assim tão longe.

  • Por juliana 26.04.2012 05:08

    Conheço esse sentimento... tambem moro em Zurique e toda vez que alguem vem me visitar do Brasil e traz um sonho de valsa, como com a maior vontade, mais pela saudade do que pelo sabor. Tambem ja fui a esta pastelaria e ela, com a melhor das boas vontades, nao vale a minha saudade. Adorei o texto!

  • Por Cejana Di Guimarães 25.04.2012 10:04

    Alfredo e Adrianne, muito obrigada pelo fino olhar e pela leitura solidária... Valeska, Renata, Cecília e Patrícia, compartilhar minhas emoções com vocês faz eu me sentir em casa. Muito obrigada!!! Fernandinha, queijo ralado com goiabada em pó... Saudade feliz! Gio e Cristal, nossa memória nos une sempre, laços fortes, eternos. Obrigada pelo carinho e por existirem.

  • Por Cejana Di Guimarães 25.04.2012 09:41

    Querido João Carlos, seu comentário foi para mim também um lampejo de felicidade. Muito obrigada pelo carinho, pela amizade e pelos beijos enviados por Sérgio e Fernandinho. Recebo todos de alma aberta.

  • Por Giovanna 24.04.2012 02:02

    Ceja, suas palavras e sentimentos são matérias pra mim. Lindo, Simplesmente, te lendo, não dá pra deixar de sentir todos os gostos, imagens e sensações diversas que já compartilhamos e que também vivem na minha memória. Saudades!

  • Por Cristal Di Guimarães 24.04.2012 01:55

    Achei lindo, realista e com uma doçura típica de você! Como se eu estivesse ao seu lado, escutando todo esse relato!! Saudade é grande, mas o carinho é enorme! Volta pra casa!!

  • Por Patricia 24.04.2012 04:34

    Cejana!!!!!!!!! Nem acredito que te achei assim, tao na Lei da Sincronicidade! Através de um post do Wolnei Alfredo no Facebook. Estou vivendo na França com marido e filho. Enfim, no mesmo barco que vc: comendo memoria achando que é pastel. :))) Ainda estou te devendo o livro do Jung que peguei emprestado. Esta guardadinho e quando for a Suiça em setembro vou leva-lo pra vc com 12 anos de atraso... Um beijo enorme e muitas saudades!

  • Por Cecilia 24.04.2012 03:40

    Senti a mesma coisa, também com o bendito pastel. Nao sei se foi o mesmo, mas foi uma decepcao. Desde entao, nunca mais voltei à pastelaria. Prefiro ficar com a memoria do pastel de verdade que como toda vez num posto de gasolina entre Ilheus e Salvador ou em tantos lugares do Brasil. E a saudade, essa ai sim, me acompanha todo dia por aqui. Beijao

  • Por Fernanda 24.04.2012 12:13

    Cejana, isso quase me mata de saudade de você. Saudade feliz, com gosto de queijo e goiabada. Mas como disse Drummond (sobre Ana Cristina César), "Dizem que saudade é falta... Saudade é um estar em mim. " você está em todos esses lugares. E aqui também.

  • Por João Carlos 23.04.2012 11:53

    Há quanto não me sentia tão envolvido por um texto. O maior prazer é saber que é de uma jornalista goiana. O orgulho saber que é de uma pessoa com quem convivi tão pouco, mas de forma intensa e marcante. Nunca esquecerei de um dia no início dos anos 80, na Barão da Torre, quando um grupo de amigos formado por você, Fernandinho di Guimarães, Sérgio Arruda, Tony, Thaissa, Edu, eu e mais uma galera nos encontramos em Ipanema. Foi um lampejo de felicidade plena. Uma faísca na nossa história. Naquele dia nosssa amizade se eternizou. Lá de cima, o Sérgio te manda um beijo. Ao lado dele está o Fernandinho, mandando outro.

  • Por Renata Franco 23.04.2012 10:22

    Que lindo texto! Até eu daqui da terrinha senti a saudade e a melancolia vivida por você e me emocionei!!!

  • Por Valeska Montenegro Celestino Otto 23.04.2012 09:44

    Volte, venha, entre que a casa é sua. Texto lindo. Emocionante! Saudades de você prima...

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Sobre o Colunista

Cejana  Di Guimarães
Cejana Di Guimarães

Jornalista formada pela UFRJ e pela Universidade de Fribourg, Suíça. Vive há 20 anos em Zurique. / cejanadiguimaraes@gmail.com

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