O Blog  03.05.2012 12h20
Meu jogo inesquecível

Goiás e Atlético-MG está na minha memória

 

Hoje tem Goiás e Atlético Mineiro pela Copa do Brasil. Por motivos absolutamente particulares, um jogo entre essas duas equipes me marcou profundamente. Se eu não tivesse visto essa partida, provavelmente eu não seria o que sou hoje, no que isso tem de bom e de ruim. No ano de 2005, meu amigo Alexandre Petillo teve uma ideia genial que no ato foi bancada pelo meu também amigo Iúri Rincon Godinho, da Contato Comunicação: chamar um monte de gente legal para escrever sobre a partida de futebol que mudou a vida do cara. Gente do calibre de Chico Buarque, Roberto Dinamite, Felipão, Juca Kfouri, Nando Reis e outros mais toparam a empreitada. O livro se chama Meu Jogo Inesquecível. Tive a honra de ser convidado para esse projeto e escrevi o texto abaixo. O jogo, na verdade, aconteceu em 1990, o Túlio só fez dois gols, o Tiãozinho não estava mais no Goiás... Toda a estatística do jogo só mostra o quanto meu primeiro parágrafo abaixo está certo: nem uma víbora é mais traiçoeira que a memória.

Nada como uma vitória sofrida…

A memória é uma coisa engraçada. Traz à tona da maneira que bem entende os acontecimentos guardados. Maximiza as glórias, minimiza os sofrimentos. Deturpa, estupra, corrói. Faz o que bem entende com os fatos. A verdade? Ah, a verdade. Pouco importa o conceito desta, motivo de debate filosófico intenso desde os gregos, para a memória. Ela joga para a massa. Dá toque de calcanhar. Provoca o olé. Dribla o goleiro. Entra com bola e tudo. Só para agradar a massa… corpórea e alcoólatra de todo torcedor.

Se o que me lembro é verdade ou não, quem se importa? Talvez a torcida do Atlético Mineiro, talvez algum fanático por estatísticas. Eu, sinceramente, não estou nem aí. Tal qual Luka. O que me vem à cabeça é o que importa. Pelo menos para mim. Se você, caro leitor, não está nem aí para mim (o que é bastante prudente), vá para o próximo texto. Tenho certeza que Olacir, Petillo e Odersides escolheram bons caras para você ler. Confio neles. Mais do que em mim. Vai, vire a página!

(…)

Virou?

(...)

Bem, agora é por sua conta e risco…

(…)

1989. A campanha pegava fogo. Sapo barbudo versus playboy alagoano. Quem mandava a mulher abortar a filha contra quem fumava maconha e cheirava cocaína no Lago Sul. Esquerda confronta direita. Proletariado enfrenta elite.

Só que outra campanha me causava mais comoção. A da Copa do Brasil. Eu tinha 10 anos de idade. Queria ver o periquito contra o galo. Meu pai preferia beber cerveja em uma festa de família. Hoje, eu o entendo. Naquela época, não. Ele tinha me prometido levar no Serra Dourada. O jogo era às 5 horas da tarde. Ele ficou enrolando e saímos da casa de minha avó às 4 e meia.

Entramos no bom e velho fusca verde, o Valfredo (se lembra quando os carros de família tinham um nome? Eram verdadeiros membros do clã familiar!). Liguei o rádio e os locutores já estavam à beira de um ataque de nervos. O rádio esportivo não mudou nada… A escalação do Goiás era aquela que todos conheciam e gostavam. O Atlético Mineiro tinha uma boa campanha, mas nada que assustasse o Verdão. Afinal de contas, tínhamos Túlio como centroavante.

Chegamos ao Serra quando faltavam cinco minutos para o apito inicial. Fomos comprar ingresso. Doce ilusão. A fila estava batendo nos pontos de ônibus. A arquibancada já não suportava ninguém e ainda tinha um monte de gente para entrar. Ficamos um pouco na fila e ouvimos os gritos da torcida. Meu pai ligou o radinho de pilha e o Goiás tinha feito o primeiro gol antes dos cinco minutos iniciais de jogo. Comemoramos de fora do estádio. Ele se empolgou e disse:

- Esse jogo vai ser bom! Vamos de cadeira!

Aqui vale abrir um parêntese. Para uma família de classe média baixa, ir de cadeira era um luxo, uma extravagância. Coisa digna de datas especiais. E meu pai estava certinho. Aquela era uma data especial. Tanto é que até entrou em livro.

Quando estávamos indo para a fila do ingresso das cadeiras, o Atlético empatou o jogo.

- Que merda!, gritei.

Meu pai me olhou com um olhar repreendedor, daqueles que somente os pais sabem fazer. Engoli a blasfêmia social e ouvi ele dizer:

- Tô sentindo que hoje o Túlio está inspirado…

Chegamos na fila dos ingressos de cadeira e, para nossa surpresa, estava tão grande quanto à de arquibancada. Tivemos que apelar para a ilegalidade: compramos os ingressos dos cambistas. E dá-lhe facada no preço cobrado.

Antes de entrarmos no estádio, quando nos dirigíamos à catraca, mais gritos da torcida esmeraldina.

O Goiás tinha feito o segundo gol no Atlético Mineiro. De novo era dele, Túlio.

- O jogo hoje vai ser bom. O Túlio tá inspirado!, repetiu meu pai.

Sentamos na cadeira. Estranhei a distância do gramado. Estava acostumado a assistir jogos mais de perto. Ouvindo o barulho do chute do Tiãozinho quando batia o escanteio. Da cadeira as sensações se diluíam. O público, embora lotasse as cadeiras do Serra Dourada, era mais seleto. O que para mim significava mais esquisito. Meu pai pegou uma cerveja, eu, um refrigerante. E o Atlético empatou o jogo.

Uma pequena parcela do estádio comemorou. Cerca de 90% dos presentes vestiam verde. Eram esmeraldinos. E, naturalmente, não tinham o que vibrar com aquele gol. Mas a revanche viria em seguida.

Em uma jogada pela esquerda, Jorge Batata fez um cruzamento certeiro na cabeça de Túlio, que ainda era adeptos de exóticos mullets, que meteu a bola para dentro. Três a dois. Aos 35 minutos do primeiro tempo. Com três gols do Túlio. Aquilo que era jogo!

Mas o time do Atlético Mineiro era bem diferente do que vemos hoje, nos idos de 2005. Em um bom contra-ataque de passes rápidos, chegaram novamente na porta do gol de Eduardo e meteram a bola na rede. Três a três. E o juiz apitou o final do primeiro tempo.

Durante todo intervalo, meu pai repetia:

- O Túlio ainda vai marcar mais gols. Estou sentindo.

Times de volta ao gramado, e o jogo recomeçou bem mais lento do que no primeiro tempo. Parecia que os times já estavam satisfeitos com o resultado e/ou cansados com o ritmo frenético do primeiro tempo. Muita troca de passe no meio de campo e ousadia alguma. Enrolação, enrolação e enrolação. Um perfeito tédio. A antítese do espetáculo do primeiro tempo.

Mas é justamente a imprevisibilidade que faz do futebol o mais fascinante dos esportes. O que agrada bretões e sul-africanos. Esquimós e guaranis. Brasileiros e argentinos.

Depois de uma dividida de no meio do campo, a bola ficou pingando, cheia de efeito, na intermediária do Galo. Túlio deu uma arrancada fantástica matou a bola no peito, descendo pela esquerda em direção à grande área. Entrou no território sagrado do time adversário, o goleiro saiu nos pés do atacante e Túlio deu um incrível corte para esquerda. Na linha da pequena área, quando se preparava para o chute final, o zagueiro lhe aplicou um carrinho, onde bola e jogador foram para escanteio.

Pênalti bem marcado pelo juiz (quando estes ainda jogavam de preto e tinham o apelido de pingüim).

O estádio inteiro começou a gritar o nome do artilheiro: TÚLIO! TÚLIO! TÚLIO! TÚLIO! TÚLIO! Ele pegou a bola e um êxtase coletivo urgia na alma da torcida. Botou a pelota na marca, colocou o corpo à esquerda da bola e correu para fazer o chute crucial.

Já era mais de 30 minutos do segundo tempo e aquela era a jogada cabal da partida. O que decidisse aquele chute, decidiria o destino do clube na Copa do Brasil. E Túlio fez aquilo que todos nós, esmeraldinos, esperávamos que fizesse: meteu a bola na rede!

Ele chutou no canto direito do goleiro. O camisa número um do Atlético até que caiu no canto certo, mas a bola veio com força, rasteira e rente à trave. Do jeito certo! O Serra Dourada veio abaixo!

Meu pai me jogava para o alto! Todos os pais jogavam seus filhos para o alto! Eu não parava de rir. Goiás! era o grito que vinha do povo. E nós estávamos inseridos nessa massa. Os minutos finais foram de toques protelatórios no meio de campo, sempre com fundo sonoro de um imponente olé.

O Goiás saiu daquela partida com a certeza de que seria um grande clube daquela Copa do Brasil (o que se mostrou verdade), e Túlio se consolidou como grande nome do futebol brasileiro.

E todos foram felizes para sempre!

(..)

Bem, até Túlio ir para o Vila Nova, se declarar uma melancia (verde por fora e vermelho por dentro)…

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Comentários

  • 06.04.2013 01:22 Por Jeronimo Gomide

    Pelo amor de Deus. Cara, esse foi o dia que eu me entendi por esmeraldino. O resto é o resto, nada mais importava mais, meu sonho era ser o camisa 9 do Goiás.

  • 04.05.2012 11:20 Por Paullo Di Castro

    Emocionante, da época que Túlio era craque e não um mequetrefe desesperado por 1000 gols.

  • 03.05.2012 03:32 Por Mauricio Zaccariotti

    Belíssimo texto, Pablo. Eu, mineiro de nascimento e goiano de coração, torcedor do Galo mineiro que, quando bem jovem, ia assistir seus treinos, lá no Estádio do Bairro de Lourdes, em BH, e também, torcedor fanático do Goiás, desde quando cheguei à Goiânia, no fim do ano de 1957, e não perdia um único jogo do Periquito, lá no finado Estádio Olímpico Pedro Ludovico, confesso que fiquei emocionado com este seu depoimento. Parabéns. Maurício.

  • 03.05.2012 01:29 Por Alexandre Castro Alves

    Pablo, já havia lido esse texto em outra ocasião, bem oportuno trazê-lo a tona mais uma vez, torçamos para que o verde ganhe a partida !!!


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