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Fabrício Cordeiro
Fabrício Cordeiro

Crítico de cinema e curador da Goiânia Mostra Curtas 2013 - Mostra Municípios / fabridoss@yahoo.com.br

Sala de Cinema

Ninfomaníaca, a obra mais marketeira de Lars von Trier

| 23.01.14 - 10:36 Ninfomaníaca, a obra mais marketeira de Lars von Trier (Foto:divulgação)
 
 
Goiânia - Antes de Ninfomaníaca de fato começar, o espectador será informado de que, embora autorizada por Lars von Trier, esta é uma edição censurada. Inicialmente dividido em dois volumes enxutos para a estreia nos cinemas, o filme terá sua versão completa lançada no Festival de Berlim, em fevereiro. Uma hora a mais de sexo, dizem, para que o público, que pensava e talvez pense ser uma coletânea de cenas pornográficas, possa, quem sabe, tentar compensar suas decepções nesse aspecto. Porque Ninfomaníaca, até o momento, não tem nada que valha alarde. A não ser que o espectador, que tem acesso a tudo hoje em dia, mesmo quando não quer, ainda se choque com um boquetezinho mais ou menos visível ali na tela.
 
De todo modo, temos aqui a obra mais marketeira de von Trier, cineasta que faz questão de ser ele próprio uma espécie de release de imprensa. "Provocador", "polêmico" e "instigante" são adjetivos que parecem acompanhá-lo feito uma bula. No caso de Ninfomaníaca, cuja divulgação sugere mais criatividade que o próprio primeiro filme em si (os grandes lábios do cartaz eram usados em portas de metrô na Europa, se abrindo a cada entrada e saída das estações), há um claro planejamento de que seja visto/vendido/comprado três vezes.
 
Por enquanto, o que se tem é somente um meio filme, e sem o menor esforço para concluir sua primeira parte (num longa que, como de hábito em Von Trier, já é dividido em capítulos), tornando difícil qualquer tentativa de desenvolver um pensamento mais concreto em torno do que assistimos. Poderíamos lembrar, apenas a título de comparação, de Tarantino e seu Kill Bill (2003/2004), também dividido em dois volumes (e igualmente separado por capítulos internos), mas havia ali um fechamento redondo de sua primeira metade, com direito a cliffhanger novelístico e muito preciso, encerrado no corte seco, um fim. O Volume 1 de Ninfomaníaca desaparece num fade, indicando a conexão com um porvir.
 
Menos complicado que pensar num filme incompleto, porém, é observar o interesse de von Trier pela mulher e os enigmas que a cercam, nutrindo uma obsessão de certa forma obscura pelo feminino. Há, na obra do autor dinamarquês, uma coleção de mulheres protagonistas em processo de esgotamento, estranhamente tentadas a cair dentro de uma espécie de fissura moral, o que acaba aprisionando-as em algum momento. Soa também como um percurso de aprendizado dos mais perversos (o melhor exemplo talvez seja Dogville, em que a Grace de Nicole Kidman aprende sobre aquele lugar, aquelas pessoas, sobre si mesma e, ironicamente, sentencia a pequena vila à desgraça), o que nos leva às contantes acusações de misoginia recebidas pelo diretor.
 
Em Ninfomaníaca, Joe (Charlotte Gainsbourg), largada num beco após provável espancamento, é encontrada e acolhida por Seligman (Stellan Skarsgard), falante senhor que tentará racionalizar, através de metáforas e alusões com pescaria, matemática, música e literatura, a bagunça que é aquela mulher tão íntima do acaso.
 
Essa relação é claramente psicologizada por meio da encenação de um divã "casual", Joe deitada numa cama, a contar suas aventuras sexuais (flashbacks que trazem Stacy Martin no papel de Joe, sendo dela as cenas mais "safadas") e os porquês de se considerar uma má pessoa, e Seligman numa cadeira, sendo ele o início de um fluxo de reflexões que, se não soam pseudos só de ouvir, envolvem Ninfomaníaca numa entediante jornada de obviedades cinematográficas.
 
No diálogo sem fim dessa sessão de psicanálise de história de pescador, por exemplo, boa parte da troca de falas parece montada para que Trier ostente seu conhecimento erudito. "Você tem um livro na cabeceira. Tem lido? - Relido, na verdade. - O que é? - Edgar Allan Poe"; "Legal seu aparelho de som. - É um toca fitas. - Tem alguma fita nele? - Sim. - O que é? - Bach"; algo assim, ou algum comentário a partir de Epicuro, gerando um pretensiosismo jogar-verde-pra-colher-maduro que não parece encontrar lugar na tela.
 
Até então, as pretensões de Von Trier me pareciam pelo menos servir a certa criatividade de cinema, a um interesse no filmar e narrar. Em Anticristo (2009), além de os personagens serem movidos pelo pretexto (ainda que raso) da elaboração de uma tese acadêmica, tornando assim a erudição um elemento pertencente de toda a situação (e de uma ironia bem mais curiosa, por conta dos simbolismos religiosos), não é todo dia que se vê genitálias masculinas e femininas serem tratadas daquela maneira.
 
Em Ninfomaníaca, contudo, as contantes reflexões, acompanhadas por imagens redundantes, passam a impressão de apenas ilustrar um álbum de figurinhas metido a besta. Se há, por um lado, a procura pelo distanciamento do espectador ao inserir números, cálculos, gráficos e cenas documentais, há, também, um rápido cansaço dessa repetição que parece revelar um diretor que não tem muito a dizer (e por dizer também me refiro a filmar) desta vez. São vários os momentos em que Seligman ou Joe descrevem algo e von Trier vai lá colocar na tela a imagem do que é descrito. "Ele aguardava na porta, como um gato...", e temos a imagem de um gato; "...mas se movia como um leopardo", e, surpresa!, a imagem de um leopardo; não muito diferente daquelas reportagens esportivas, em que a voz em off anuncia que "o Goiás está voando baixo no Brasileirão" e é acompanhada pela imagem de uma garça dando o rasante num lago qualquer. Num filme de duas horas, isso logo vira um porre de previsibilidade.
 
Com exceção da cena em que Joe "lacrimeja" de maneira, digamos, um tanto distinta ao perder um ente querido (pois até a cena com Uma Thurman no papel da esposa traída me parece óbvia em seu humor), nada destas primeiras duas horas de Ninfomaníaca se atreve a ir além do esperado, por vezes beirando o patético, como quando von Trier exibe uma sequência de fotos de pintos. Para quem viu os recentes Azul É a Cor Mais Quente (2013), de Abdellatif Kechiche, e Um Estranho no Lago (2013), de Alain Guiraudie, filmes que lidam com o sexo e a sexualidade com tanto desprendimento (ok, talvez Kechiche nem tanto, mas ainda assim um belo filme de amor) e segurança do que mostrar, esse tipo de coisa soa como provocação infantil, nada mais.
 
Não há como negar, no entanto, o interesse pelo material. Sexo é a isca fácil, assim como prazer e desejo, seus elos imediatos. Mas não é sobre sexo, claro. Solidão, quem sabe?
 
Von Trier nos sugere, enfim, que a chave pode estar no personagem de Jerôme (Shia LaBeouf), rapaz ligado a uma memória e a algum traço do que poderia ser amor, ou algo próximo disso, espécie de charada que acaba soterrada diante de tanto bê-a-bá, overanálises, overexplicações e overdidatismos por todos os lados, o que, sem querer fazer um trocadilho, não evita a forte sensação de ser tudo uma mera punhetagem pau mole.
 
PS: por uma dessas felizes coincidências, o Cine Cultura exibiu nesta última semana o Sempre Bella [Belle Toujours, 2006), homenagem do grande Manoel de Oliveira a Bela da Tarde [Belle de Jour, 1967], de Buñuel, e que pode ser um antídoto para a bobagem que penso ser Ninfomaníaca. Filmes me parecem cultivar semelhanças, até porque Manoel é outro obcecado pela figura da mulher e pelas incertezas que acompanham este ser tão frequentemente encarado como impreciso, incompreensível para a mente masculina, ou, numa linguagem tão comum à literatura e ao cinema, misterioso.
Mas com o velho cineasta português é aquela delicadeza e, melhor, aquela simplicidade que, na verdade, é apenas aparente. Sempre Bela tem 68 minutos, reflexões e confissões - sobre, sim, desejo, prazer, amor e sexualidade feminina - que surgem estimuladas não por um divã forçado, mas por um mero barman e uma sofisticação que se nota pelo filmar, pela atmosfera daquela gente que "vive" ali.
Quando Husson, durante o concerto de uma orquestra, percebe a presença de Séverine na plateia do teatro, roubando por completo sua atenção, Oliveira chama um plano mais aproximado dos músicos, na tentativa de retomar o interesse do personagem de Michel Piccoli para a apresentação musical; é assim, na montagem, no domínio da linguagem do cinema, que em cinco minutos é possível compreender a existência de um enigma, de uma atração, de um abalo. Nada de quase seis horas lançadas em três edições diferentes, nada de análise psicanalítica "por acaso" e erudição mecanicamente ostentada, nada de questões e imagens óbvias. Manoel de Oliveira não precisa exibir nada do que conhece. Ele só precisa fazer um filme.

Comentários

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  • 23.01.2014 21:16 Diego Michel

    Depois de ler inúmeras críticas, ler vários textos e de ir ao debate que ocorrerá no Lumière, devo admitir: Afinal, o que quer Lars von Trier? Mas, descobri que a resposta não pode ser dada previamente, tão pouco parcialmente, afinal, é deveras temerário emitir um juízo conclusivo de algo que não "esta ai". No mais, Lars é um dos poucos cineastas instigantes merecedores de alguma relevância, não é sensato descartá-lo de plano, com base em primeiras impressões.

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