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Fabrício Cordeiro
Fabrício Cordeiro

Crítico de cinema e curador da Goiânia Mostra Curtas 2013 - Mostra Municípios / fabridoss@yahoo.com.br

Sala de Cinema

Quando Eu Era Vivo e os cômodos eram mortos

| 14.02.14 - 10:04 Quando Eu Era Vivo e os cômodos eram mortos Cena do Filme Quando Eu Era Vivo (Foto:divulgação)
Goiânia - Existe alguém com um norte tão bem definido no que diz respeito a fazer cinema de terror e horror no Brasil quanto o Filmes do Caixote? Cinema de terror que tenha um tato minimamente comercial, no caso. Que tenha alguma facilidade de chegar ao público médio, considerando, ainda, a falta de tradição que temos no gênero (José Mojica é um caso ímpar, cuja obra se tornara cult em relação a si própria).
 
Marco Dutra e Juliana Rojas sempre ousaram embrenhar por esse lado. Dirigindo em dupla, realizaram curtas que se assumem como cinema de gênero (O Lençol Branco, Um Ramo), assim como Trabalhar Cansa (2011), primeiro longa dos dois e que também se entrega ao fantástico. Em Quando Eu Era Vivo, Dutra dirige solo, enquanto Rojas (que filmou o seu próprio curta fantástico em 2012, O Duplo) põe as mãos na montagem. Parecem saber o que quer, e isso fica cada vez mais evidente no que têm filmado.
 
Acho que foi o José Geraldo Couto, no Blog do IMS (Instituto Moreira Salles) o primeiro a observar, em texto, certas semelhanças entre Quando Eu Era Vivo e o cinema de Roman Polanski. Couto chega a exemplificar com uma cena específica de O Inquilino (1976), mas a lembrança também pode chegar a O Bebê de Rosemary (1968) e até mesmo Repulsa ao Sexo (1965), no que já teríamos aí uma trinca bem certeira do autor polonês.
 
Polanski sabia - e ainda sabe, como podemos verificar no recente Deus da Carnificina, de 2011 - adoecer seus espaços e, com eles, os personagens que ali abrigam. É um mestre em transformar espaços fechados em algo um tanto demente: quartos, cômodos, apartamentos inteiros. Um conjunto de paredes, algo tão sólido, capaz de se colocar como uma presença a mais, uma coisa a ser sentida, não raramente com os piores efeitos possíveis.
 
Na história de um homem (Marat Descartes) que volta a morar temporariamente com o pai (Antônio Fagundes) após se separar da esposa, Quando Eu Era Vivo ecoa muito dessa influência, confirmando um cineasta que produz por meio de uma cinefilia que não morre em si mesma. Porque Quando Eu Era Vivo compreende certas regras, com as quais Dutra acaricia no atacado e no varejo, às vezes brincando com clichês do gênero (a gaveta, a maçaneta), outras vezes levando a sério, embora com aquele sorrisinho de lado, crendices e folclores facilmente reconhecidos por nossa cultura de superstição. A cena em que Descartes, sentado numa cadeira, é "benzido", é um acerto absoluto, pois, além de saltar do cômico para a tensão extrema (e reveladora), traz toda uma carga de crença popular, tão comum ao brasileiro, inclusive a classe média, justamente o campo de exercício do Filmes do Caixote.
 
Após bela abertura de créditos iniciais e uma introdução com gravações de arquivo que, colocadas ali no começo, parecem logo estimular a imaginação macabra que será fundamental para o filme, o pai, recebendo seu primogênito, reapresentará ao filho o prédio e, sobretudo, o apartamento. A cada olhada de Descartes pela sala, Dutra devolve com um plano de ponto de vista, nos mostrando o que o protagonista olha, vê e observa, numa espécie de raio-x inicial do lugar. Terá de dormir na sala, uma vez que seu antigo quarto está agora ocupado por uma estudante de música (Sandy), que pode não ser a única inquilina ali dentro.
 
A habilidade de canto da moça possui papel fundamental na história (baseada em A Arte de Produzir Efeito sem Causa, de Lourenço Mutarelli), o que faz de Sandy o cajado a matar duas capivaras de uma vez, muito embora pareça à vontade somente com 50% da faceta da personagem, os outros 50% talvez carentes de alguma força e impacto, principalmente ao lado de Descartes, impecável no seu mix de lassidão e "enfermidade".
 
Descartes leva seu personagem, Júnior, a novos estágios de delírio. Obcecado pelas antigas gravações em VHS e pela memória da mãe, por sua vez chegada num ocultismo, não hesita em investigar e desenterrar o passado familiar. Faz isso de maneira concreta, resgatando objetos e remodelando o apartamento. O espaço fechado finalmente toma corpo, assumindo-se macabro. A possessão de um lugar cotidiano.
 
A câmera de Dutra pode não entortar e suas imagens podem não se impregnar de uma elasticidade febril como em Polanski, mas a apreensão de que algo estranho e "vivo" se esconde por trás de tanta tralha e decoração peculiar é bastante similar. Há em Dutra certa rigorosidade e estabilidade contínua dos planos, até mesmo delicadeza, que fazem desse apartamento algo íntimo e, portanto, assustador conforme tal familiaridade passa a ser associada ao inexplicável. Essa sensação vai desde, mais uma vez, gavetas e maçanetas, objetos tão comuns do dia-a-dia e eternamente requentados pelo cinema de gênero, até um boneco do Fofão filmado de modo encapetado e capaz de remeter à infância de muita gente; aquele receio do que pode estar à espreita no cantos da casa, atrás da mobília, nos corredores mal iluminados, na esquina da porta, no olhar de um boneco. Um filme de clima, sem dúvida.
 
A infância, por sinal, age como tiro de largada do longa. É a fase em que mais estamos sujeitos a nos impressionar, afinal. Mesmo que venha a adquirir um aspecto redundante e repetitivo, retendo um pouco o ritmo do filme, é no material das fitas em VHS que a infância é exposta. Não por acaso, em várias momentos Descartes lembra uma criança crescida.
 
Se Quando Eu Era Vivo não esconde ter sua raiz no núcleo familiar apodrecido (por mais que o último diálogo sugira um desfecho mais leve do que de fato é), é da infância que nascem os incômodos. O primeiro registro em VHS, logo no começo, é quase uma versão condomínio de causos contados ao redor de fogueira de acampamento.
 
Marco Dutra fez aqui um filme de bruxaria dos bons. Que o cinema brasileiro não tenha medo dele.
 

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