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Cássia Fernandes
Cássia Fernandes

Cássia Fernandes é jornalista e escritora / lcassiaf@gmail.com

Alinhavos

Tem que ser hoje?

Só se for amanhã | 20.02.14 - 19:39
 
Goiânia - Há muitos abandonei o instantâneo. Refiro-me apenas ao café: o solúvel. Com o passar dos anos, aprendi o sentido de passar um café de verdade, mesmo que só para mim, de oferecer-me um tempo necessário, e baixar a fervura e a nervura no coador das manhãs. Porque no mais também tenho sido arrastada pelo instantâneo, pelo fugaz, pela pressa.

Também fui puxada, às vezes a contragosto, pela mudança de hábitos e comportamentos. Vivi o ápice do ficar ainda do período da pedra lascada: uma só troca de olhar e já se lascava um beijo, mas era apenas em um somente por noite. Depois, veio a época dos muitos ficantes, do ficar mais profundamente, do amassar e do ajoelhou tem que rezar. Mas essa prefiro nem comentar. Já se comenta demais e nem estamos ainda na profundeza dos fundos desse período da história humana.

 
Sem falar justamente de relacionamentos, também fui arrastada pelo instantâneo, das fotografias digitais, das novas mídias. Embora um pouco retardatária, aderi a elas e as abandonei seguidamente: ao ICQ, ao MSN, ao Orkut, ao Facebook, ao Twitter, e não sem alguma resistência ao WhattsApp, que não para de piar desesperadamente. Sim desesperada e doentiamente.
 
Há uns dez anos li algo, se não me engano do filósofo francês, Pierre Lévy, os primeiros estudos sobre o que já se delineava como uma doença: a ansiedade da informação, a informatose, a normose informacional. Não sei então por que hoje me surpreendo vendo-me e assistindo às pessoas ao meu lado no agudo da doença: os olhos vidrados no vidro computadores, celulares e tablets, sem tempo para sequer para roer as unhas, ultrapassados os limites da ansiedade e do sentido de urgência.
 
Nas relações afetivas, familiares, no trabalho, a comunicação é intensa, exacerbada, instantânea, imediata. Você manda um e-mail e se o destinatário não responde minutos depois, você envia o segundo para checar se ele não foi visualizado, ou se por acaso você não foi tratado com descaso, se não foi considerado prioridade. Se não responde imediatamente, pode, no ambiente profissional, ser considerado um indolente, um negligente, um descompromissado.

Se não curte ou comenta um post de um amigo, arrisca-se a perder uma amizade. Se no primeiro pio do Whats não se avista um segundo traço, isso significará o traço de que não é tão estreito assim o afetivo laço. Se o filho não responde ao chamado da mãe, ela logo deduz que ele foi sequestrado. Se não dá um “rs” nas piadas dos grupos de amigos ou familiares ou não lhes envia emoticons meigos, vídeos edificantes ou engraçados, pode ser-lhe atribuída a pecha de antissocial ou desnaturado.
 
E cá estão celulares atendidos e mensagens respondidas no meio da sessão de cinema, nas macas dos hospitais, no meio dos cemitérios, quando o defunto ainda nem esfriou na terra dos pés juntos. Não havemos de nos surpreender se alguns moribundos desejarem ser enterrados com seus portáteis para realizar uma chamada do além ou fazer o check-in das belezas ou quenturas do lugar a que acabam de chegar, como os faraós egípcios se faziam acompanhar em suas tumbas de seus bens.
 
Ui, como já estou exausta de tudo isso. Saudades de escrever uma carta e esperar que ela fosse entregue pelos Correios e de aguardar por dias pela resposta que às vezes não vinha. Saudades de um simples fax, de mandar revelar as fotografias que desvelavam feiuras mas também surpreendentes maravilhas. Talvez porque no jornalismo ou na comunicação corporativa, a gente viva ainda mais perto dessa instantaneidade e imediatismo, nos observo para além do limite do suportável e do endoidecível.  
 
Nesse novo tempo do jornalismo digital, do jornalismo em tempo real, do acesso mais livre e democrático às tecnologias de comunicação, do e-government, não existe o direito à espera: tudo é para ontem, todas as informações precisam estar a mão e ser dadas com a máxima agilidade. Tudo gira em torno da informação e nós giramos como piões e peões desembestados sobre uma besta que nos comanda.
 
Já não existem limites entre o público e o privado, entre o tempo de trabalho e de descanso. No meio da noite o telefone apita com ofertas aflitas, com o e-mail do colega que esqueceu de avisá-lo sobre uma tarefa inadiável, como se o destino do mundo dependesse daquilo.  

Diante disso, tomei mais algumas daquelas decisões improteláveis do início de ano novo (ele que já pelo meio avança): ao menos durante o sono desligar o celular, que já nos mantém sonâmbulos ao despertar, e trocar seu silvo pelo de um despertador de dar corda antigo. E, claro, começar a praticar a meditação e o zen-budismo. Quero matar de raiva os apressados, os imediatos, os instantâneos com minha calma de monja tibetana. E ao me dizerem “tem que ser hoje, agora”, responderei: “só amanhã, pois preciso passar um café antes”.

Comentários

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  • 25.03.2014 17:37 Cássia Fernandes

    Obrigada, Ana, Leo e Marcelo. Alessandro, gostei do comentário que acabou se constituindo em um bom texto. Você tem razão. Todos sempre tivemos direito aos nossos cinco minutos de bobeira. Agora temos direito aos nossos cinco minutos de fama, ou melhor, fama da bobeira. :)

  • 23.02.2014 06:01 Alessandro Del Piero

    O direito a privacidade - definido por Louis Brandeis e Samuel Warren em 1890 como " o direito a estar só"- já foi algo que as pessoas se importavam, atualmente a solidão, no melhor sentido que esta palavra pode carregar, parece assustar as pessoas de uma maneira insuportável. O que fazer quando se está só? Você pode ler, pode escrever, pode compor uma música, escutar aquela canção que só você gosta sem ninguém te encher o saco, pode jogar videogame sem a mulher te aloprar, resumindo; estar só é a plenitude do egoísmo. A vida é uma só, chorar o passado ou ficar ansioso pelo futuro é burrice, porque só existe o hoje. O ontem e o amanhã são irrealidades, a única coisa verdadeira é o agora, sendo assim, vale a pena abrir mão do hoje, do agora e da privacidade? Privacidade não é você não saber da minha vida, e sim, principalmente, eu não saber da sua. Ao vivermos nesse galopante espaço/tempo, sem tempo pra nada e com espaço de sobra pra gente totalmente sem importância, criamos representações do que achamos somos. Estamos querendo ser aprovados o tempo todo, mas por quem? Quem pode dizer o que é bom na minha vida ou não, além de mim mesmo? E o que essa aprovação terceirizada e a quilômetros de distância pode realmente nos trazer? Rumo ao desconhecido, buscamos e disputamos curtidas e ao compartilharmos idiotices cotidianas e rotineiras vamos nos despedaçando aos poucos. Sempre fomos idiotas e agora com essa aproximação ilusória potencializada pela internet enfrentamos a metástase da burrice. Um câncer faminto e insaciável em busca de um sim que se consome em segundos. Uma aprovação mentirosa uma relação entre vaidade, prazer e auto-engano. Querer ser feliz demais já faz a nostalgia tomar conta, não encontrar a tal da felicidade nos faz melancólicos. Querer ser aprovado o tempo todo é um passo para loucura, uma utopia vã e alienante pra nos afastar do que realmente somos. Para os menos idiotas a melancolia chega como um tsunami, o desinteresse bate e muitos vão parar nas drogas com ou sem receita. Cada indivíduo deve procurar ser menos infeliz a sua própria maneira, a vida é essa coleção de insucessos temperada por alguma esporádica alegria passageira, e isto não é coisa de pessimista. Querer viver sem dor é um não viver, é coisa de jardim de infância, gnomos, Super Xuxa contra o Baixo Astral. A expectativa exagerada e a comparação fazem mal pra todo mundo. As redes sociais fazem isso o tempo todo, além de afastar a realidade pra milhas de distância. Mas não são culpadas pela nossa demência, é pueril achar que Facebook e afins mudaram tanto assim o que somos, na real ocorreu apenas um aumento exponencial da exposição e logo da nossa ridícula vontade de sermos perfeitos. Querer viver sem culpa é infantil demais pra quem já passou dos 25, mesmo que você seja o típico usuário feliz com o sorriso estéril do Feici.

  • 21.02.2014 16:59 Marcelo

    Não há nada como envelhecer bem.

  • 21.02.2014 12:20 Leo Gomes

    Esse texto foi o melhor que eu li esta semana em toda a imprensa brasileira. valeu

  • 21.02.2014 09:00 Ana

    Adorei, principalmente parte que retrata das cartas e fotografias reveladas! Tudo é pra ontem na era tecnológica! Paciência é algo que não existe nos dias de hoje. Parabéns pelo texto!

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