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Cássia Fernandes
Cássia Fernandes

Cássia Fernandes é jornalista e escritora / lcassiaf@gmail.com

Alinhavos

Recado à vizinha do 1102

Nunca fomos simples números empilhados | 24.03.14 - 18:40
 
Goiânia - Quem fala aqui é a mulher do 1104. Ao chegar outro dia ao 11º andar da torre que habito, notei a porta sem tapete: a porta com o 1102 inscrito. Uma porta sem tapete é tão triste quanto um armário repleto de cabides nus. Comparação insuficiente e tautológica.

Não menos tautológico seria dizer que foi tão melancólico quanto ver um barco sentado num banco de areia, num rio ou num mar que secou, quanto imaginar “um daqueles golfos do estreito de Magalhães onde não entra ninguém nunca”, como mandava pensar Julio Cortázar em suas “Instruções para chorar”. 

Sob a porta não havia sombras de passos, mas a luz excessivamente esbranquiçada de uma sala sem cortinas. Uma porta sem tapete – ai de mim, redundância pura – é tão triste como um olho mágico aceso que não escurece preenchido por negras pupilas curiosas, desconfiadas ou aflitas.

É que você se mudou. As sombras, as luzes, os ruídos se transferiram. O cheiro bom do bife acebolado que acabava de chiar na frigideira foi substituído pelo odor acre da tinta. O tempo te mudou, te transferiu, vizinha do 1102. Lembro-me como se ontem fosse há dez anos de ver você apavorada porque havia chegado ao nosso andar, aberto essa mesma porta, encontrando o apartamento todo revirado, vidros quebrados, água por todos os lados.

Não, não era um ladrão – a violência nem nos assombrava tanto quanto hoje –,   apenas a ventania e a chuvarada que nos surpreendiam a nós, recém-chegados. Não tínhamos aprendido ainda que era preciso cerrar bem as janelas contra essas tempestades que parecem balançar as torres, os edifícios, desviar os curso das cataratas do Niágara, surrealísticamente plantadas nas américas desses lados do cerrado. Lembro de como foi bom poder compartilhar ao menos o susto. Às vezes necessitamos compartilhar tão pouco para nos sentir vivos e protegidos diante das intempéries da vida. Basta saber que há alguém ao lado, se não da porta, que realmente se importa.

Lembro de antes, aliás, de quando a construtora acabara de entregar o edifício e o espaço cheirando a novo – o cheiro de tinta fresca era então agradável – foi povoado de novos ruídos, de caixas carregadas, de móveis arrastados, de alegria, porque os primeiros moradores, que haviam comprado os apartamentos ainda em construção,  pareciam todos  celebrar felizes o sonho da primeira casa própria. Saudavam-se sorridentes na garagem, nos corredores.  Não sei se você estava entre eles, os festivos caramujos que a partir daí carregariam a segurança de levar uma casa consigo.

De qualquer modo, não intuíamos ainda que pouco mais tarde os tais vizinhos, inicialmente tão simpáticos e solidários em sua felicidade, iriam ingressar em embates miúdos e terríveis, por causa do martelar do salto agulha da moradora do 1503 sobre o sono frágil do bebê recém nascido do 1403,  por causa da gigantesca camionete do 901 que invadia a vaga do fusca do 902, por causa do berreiro das crianças birrentas que se engalfinhavam no parquinho, do pó dos aspiradores despejado diretamente nas lixeiras, dos filhotes de cachorro uivantes, dos vazamentos, dos entupimentos, dos mesquinhos desentendimentos de nós todos, pobres bichos obrigados a conviver nos galhos de uma mesma árvore. Nem sondávamos que aqueles seres amorosos de antes daí a pouco já não desejariam sequer se cumprimentar nos elevadores, que iriam odiar-se secreta ou ostensivamente.

Entre nós nunca foi assim, porém. Nunca fomos simples números empilhados ou ladeados, dos quais tão bem falou Rubem Braga em seu antigo “Recado ao Senhor 903”, ou nossa combinação numérica foi outra. Vá se entender a numerologia dos endereços e das almas. Você era minha vizinha de porta. Dividíamos, a propósito, parede a parede, o som das portas batidas, dos gritos, das brigas, dos parabéns-pra-você, das festas até altas horas da madrugada, dos copos quebrados e corações partidos, da música alta, gostos decerto tão estranhos uma à outra, mas que nunca foram razão para implicâncias, intrigas ou confusões.

Nutríamos antes intuitiva e inexplicável simpatia, não obstante as nossas tantas diferenças, distintas histórias e momentos de vida. Deve-se decerto essa simpatia à sua generosidade para comigo, que devo tantas vezes ter parecido uma criatura estranha ou excêntrica. Mas nos seus olhos nunca reparei censura ou julgamento, identifiquei muito mais a sincera condescendência para com a diferença.

Você foi a primeira a, magnânima e zelosa, dar banho no meu filho recém-nascido, quando todos da família receavam fazê-lo. Você foi aquela a quem tantas vezes recorri e me amparou com pequenos gestos e atitudes que certamente passaram despercebidos à sua própria consciência benevolente, em momentos de solidão e desamparo; aquela que me telefonou para dizer que a empregada esquecera a porta escancarada com a chave na fechadura. Você era realmente alguém a quem se podia confiar as chaves.

Mas até os bons números mudam. O vento de repente sopra para outro lado. Vocês compraram uma nova casa e venderam o já antigo apartamento. Renata já fez 16, 17 anos? João Vítor, aquele pingo de gente que conheci pouco mais além da altura dos meus joelhos já tem um metro e setenta? O bebê que você banhou e de que tantas vezes cuidou já está um menino espichado.

Hoje já não é antigamente. As pessoas já não vivem 50, 80 anos numa mesma casa, mudam-se depressa demais, mudam-se demasiado. Difícil encontrar quem permaneça vizinho por décadas, do nascimento à morte. Em nossa torre, dos primeiros moradores restam poucos. Uma minoria sobreviveu  ao divórcio, ao crescimento da família, às trocas de emprego, aumento ou perda de renda. Hoje há uma grande rotatividade de rostos nos elevadores, aos quais a gente não tem tempo de se habituar, tais são o entra e sai de caminhões de mudança de sempre novos inquilinos, as placas de aluga-se e vende-se.

Mas decerto ficar enquanto tantos partem é também um tipo de sorte, porque se somos daquela espécie que passa a vida inteira ancorada num mesmo galho, temos a bonança de ser ao menos temporariamente avizinhados por gente de alma grande, temos a oportunidade de testemunhar perante o tempo. Não tive o cuidado de te levar um bolo com cartão de boas vindas  quando você se mudou para meu lado, vizinha – não sei fazer nada de comível, cheirável ou acariciável com as mãos. Mas tenho a chance de te desejar uma boa ida.

O recado está dado. Ele não ficará só por aqui, flutuando. Descobrirei seu endereço e farei com que ingresse em sua nova caixa de correios, uma caixa exclusiva e não aquelas dezenas de caixinhas idênticas e emparelhadas. Se porventura houver outras caixas próximas, outros números, serão caixas e números de sorte. Como fui saudosamente um dia. Você abrirá a porta, com um tapete à frente e dela sairá uma luz bonita e viva.
 

Comentários

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  • 14.02.2015 10:35 Cássia Fernandes

    Obrigada, Lucielle. :)

  • 28.03.2014 17:29 Lucielle Bernardes

    Belo texto! A propósito, adoro todos eles.

  • 27.03.2014 07:18 Cássia Fernandes

    Obrigada, Elisa e João. A vizinhança virtual não tira o peso da falta do tapete à porta, mas de algum modo contribui para que nossas almas não quedem mortas. :)

  • 26.03.2014 23:51 Joao carlos

    Gosto demais quando me deparo com seus escritos. Sei que é prosa da boa antes de passar o olho.

  • 26.03.2014 16:37 Elisa A. França

    Perdemos tanto o sentido de comunidade, que faz tanta falta e nem sabemos. Muito bonito texto, parabéns e obrigada!

  • 25.03.2014 17:25 Cássia Fernandes

    Obrigada, Amanda, Fernando e Bira. Espero que ao recebê-lo pelos Correios a ex-vizinha goste. :)

  • 25.03.2014 15:51 justbira

    Ótimo texto. :)

  • 25.03.2014 14:50 Fernando Rodrigues

    infelizmente não sou o morador do 1102; mas gostaria muito de receber um texto tão bem redigido.... parabéns!

  • 25.03.2014 08:07 Amanda Karla

    Uau! Arrepiei, que texto bonito!

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