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Pablo Kossa
Pablo Kossa

Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG / pablokossa@bol.com.br

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A dura vida no ostracismo

História do zagueiro Joel nos leva a pensar | 15.05.14 - 09:22

Goiânia - A revista Placar desse mês publicou um sensível perfil do zagueiro Joel que me levou a uma profunda reflexão. Uma entrevista em quadrinhos que mostra a ascensão e ostracismo do atleta. 

Para quem não sabe, ele jogou no lendário Santos da década de 1960 e era do elenco da icônica Seleção Brasileira de 1970. Hoje vive sozinho em um pequeno apartamento da cidade praiana depois de se aposentar trabalhando como estivador no porto, carregando fardos de algodão, café e açúcar nas costas. É incrível a montanha-russa que é a vida. Em especial para quem exerce profissões que dependem do físico. 

Joel chegou ao clube praiano em 1963 onde viveu sua fase áurea, ficando no Peixe até 1971. Foi convocado para a Seleção por João Saldanha que o tinha como titular absoluto. Quando Zagallo assumiu o comando, o colocou no banco. Ele não chegou a entrar em campo na Copa de 1970, embora estivesse no elenco. 

Com o Brasil levantando a taça do tricampeonato, comprou um belo Opala vermelho com o dinheiro do bicho do título. No final do ano da maior glória de sua carreira, se envolveu em um acidente automobilístico. Bateu o Opala em um poste e duas mulheres que o acompanhavam morreram na hora. Ele quebrou o nariz, clavícula e a perna direita. Ficou seis meses de cama, foi condenado a prisão de um ano e oito meses por homicídio culposo. Correram boatos de que ele estaria alcoolizado. O atleta nega e acusa de racismo quem levantava tal insinuação. Cumpriu a pena em liberdade e, a partir de então, nunca mais foi o mesmo em campo.

Foi vendido pelo Santos ao Paris Saint-German e não conseguiu se firmar no futebol francês. Voltou ao Brasil onde jogou pelo Londrina, passou pelo Saad de São Caetano do Sul e pendurou as chuteiras aos 29 anos após curta passagem pelo CRB de Alagoas. Começou a beber demais e, em um momento de aperto, vendeu todas as medalhas que tinha - no pacote foi a da Copa do Mundo de 1970. Desempregado, foi trabalhar no cais onde ficou por mais de duas décadas até se aposentar com 55 anos de idade.

Hoje viúvo, conta com a ajuda da filha para seu dia a dia. Teve os dedos dos pés amputados por conta do diabetes que enfrenta. Com o prêmio de R$ 100 mil que recebeu do Governo Federal concedido a todos jogadores que foram campeões do mundo no ano passado, bancou grande parte de seu tratamento.

Lendo a emocionante entrevista, me lembrei de um filme que trata com crueza a barra que é envelhecer em profissões em que o físico é fundamental. Falo de O Lutador de Darren Aronofsky. Lançado em 2008, trata da história de um astro da luta-livre (Mickey Rourke) que vive seus dias de decadência. Ele compartilha as lembranças dos tempos de ouro e a angústia perante o futuro com uma stripper (Marisa Tomei) que vive o mesmo drama do lutador. 

O esforço dos dois para se manterem no jogo da profissão que escolheram, concorrendo com a inadiável decadência física é comovente. É a mesma reflexão do final da matéria com Joel: quem depende do corpo para trabalhar precisa ser três vezes mais precavido que outros profissionais. A crueldade do passar dos anos é muito mais pesada com quem exerce esses ofícios.

A vida é dura é para todos, mas para essa galera ela mostra seu pior lado. Planejar é essencial para todos, mas para essa galera é questão vital.


Comentários

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  • 20.05.2014 00:11 Rony pereira

    É meu querido, infelizmente nada nessa vida é para sempre, sempre chega a hora e tudo passa. Agora para quem ganha o sustento com o vigor do corpo é preciso um planejamento bastante solido porque vai chegar a hora de parar. Às vezes a mente não quer mas o corpo pede e também já não alcança as expectativas esperadas principalmente no futebol que está cheio de novos talentos. A verdade é que somos todos descartáveis e substituíveis. abraço queridão, até a próxima publicação.

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