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Pablo Kossa
Pablo Kossa

Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG / pablokossa@bol.com.br

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Quando carro tinha nome de gente

Tempos atrás, carro era considerado da família | 15.08.14 - 11:47

Goiânia - Não sei se você é velho como eu, mas sou de um tempo em que carro tinha nome de gente e era considerado membro da família. A casa tinha seu único veículo e ele era devidamente batizado, chamado por todos pelo nome e isso era absolutamente usual.

Era outro mundo. Comprar um carro era coisa difícil, rara. Uma minoria tinha seu automóvel e financiamentos em um mol de meses não eram rotineiros como agora. As famílias ficavam com o mesmo veículo por anos, talvez até décadas. E aquele carro passava a compor a identidade familiar tal qual a localização da casa, o time de futebol ou igreja que frequentava.

Os bens eram realmente duráveis e essa expressão tinha o seu porquê de existir. E isso fomentava outro tipo de relação com o carro. Sentimental, duradoura. Não se comprava um veículo já pensando em qual será o próximo ainda na concessionária. A ideia de que ele ficaria por um longínquo período com aquela família era concreta. Esse fato somado à imensa dificuldade financeira para conseguir comprar um resultava nessa relação afetiva com o automóvel.

Minha família tinha um Fusca verde batizado de Valfredo. Desde que nasci até o final da adolescência, tivemos o carro. “O Valfredo está engasgando”, “levei o Valfredo para oficina”, “onde você estacionou o Valfredo?”. Esse tipo de conversa era usual e não causava nenhum tipo de estranhamento. Todos sabíamos do que estávamos falando.

Depois de muita conta e aperto financeiro, minha família decidiu que era hora de trocar de carro. Após meu pai vender o Valfredo, nenhum outro teve seu nome tão forte quanto o Fusca verde. Na sequência, tivemos um Gol branco quadrado. Até colocamos um nome nele, mas não pegou – tanto que nem me recordo qual foi.

A partir daí, as trocas em períodos de tempo cada vez mais curtos não permitiam o tempo necessário para desenvolver afeto ou uma relação sentimental com o carro. Percebo que essa característica de dar nome ao automóvel não existe também na nova classe média que ascendeu socialmente e teve oportunidade de comprar seu primeiro veículo recentemente. Nesses casos, a aquisição do primeiro já caminha junto do sonho do próximo, nessa louca espiral de consumo que vivemos.

O hábito de batizar carros ficou no passado junto com os cursos de datilografia, telegramas, leite em garrafa, controles de videogame com um único botão, fiscal do Sarney e a Sunab, fichas de orelhão e títulos internacionais do Flamengo – coisas que se você tem menos de 30 anos, certamente não viu.

E você? Qual era o nome do carro de sua família?


Comentários

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  • 13.06.2017 07:59 Jurandir Alves dos Santos

    tenho 48 anos e possuo ainda esse hábito construtivo, possuo um palio weekend 1997, estou com ele a bem mais de 14 anos, não consigo me desfazer dele, tenho essa características de ver o carro como um membro da família. Aqui na garagem tem um Sandero de uso de minha esposa e um fox que meu pai usa, todos novos, mas prefiro minha boa e velha weekend. ela é minha amiga é uma extensão de minha família com certeza.

  • 16.08.2014 11:54 Rafael Gregorio

    FIAT 147 o qual era chamado de Setinha!

  • 16.08.2014 02:25 Néviton César Leão

    Muito bom seu texto mostra que as pessoas eram mais descontraída não ligava se as pessoas iria rir ao saber o nome do carro e pagar mico. Minha mãe tinha um Corcel II e seu nome era João Paulo II devido ao Papa João Paulo II

  • 15.08.2014 21:01 Renato Oliveira

    cara, eu tinha um gol quadrado vermelho q chamava de super maquina. Ate fiz um blues pra ela: Red Super Machine

  • 15.08.2014 14:50 Renata Correa Barbosa

    Que lembrança gostosa!!!O tempo passou rápido, também tínhamos o nosso carro, já tivermos o "Furioso", era um gol marrom quadrado. Meu Deus do céu ele dava muito pepino,engasgava... mas quando precisava ele ficava furioso e corria pra caramba!!Pelo menos era o que eu pensava...rsrsrs!!!

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