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Sobre o Colunista

Cássia Fernandes
Cássia Fernandes

Cássia Fernandes é jornalista e escritora / lcassiaf@gmail.com

Alinhavos

Me beija até o entardecer

Uma história de amor entre aberrações | 07.09.14 - 17:45 Me beija até o entardecer .
 
Goiânia Não é sem cuidado que Jane escolhe semanalmente os esmaltes com que pinta as unhas. Sente-se suja, desmazelada e frágil quando não vai à manicure. Suas unhas são quebradiças, porque embora labore no cotidiano entre feras, a natureza não lhe dotou de garras. Quando as pinta, evita que se esfacelem e percebe-se com dedos mais alongados, ágeis e elásticos para escrever seus sangrentos boletins de ocorrência na delegacia em que trabalha. Ao narrar histórias horrendas, fecha os olhos, e concentra-se em seus movimentos e no ruído ritmado do teclado, desconectando-se assim do hediondo da vida, e imagina-se tocando as teclas de um piano. Digita como se executasse a Sonata Au Claire de Lune de Bethoven ou um Noturno de Chopin. Caixa de Música, Camurça e Capuccino são algumas de suas cores preferidas.
 
Jane sofre de uma má-formação. Era o que na falta de eufemismos se chamava antigamente de aberração, aleijada, uma daquelas criaturas que nos antigos tempos de Esparta seriam arremessadas ao mar ou a precipícios, ou, a partir da Idade Média, exibidas como atrações de circo, junto com a mulher gorila – sempre perseguida pelos atiradores de faca e favorita para o escárnio dos palhaços. Monstruosidades como ela em geral acabavam com uma faca encravada ou devoradas por um leão diante de um domador distraído ou sádico. Jane tem o coração fora da caixa torácica.
 
No tempo e lugar em que nasceu, quando e onde as mulheres devem ocultar seus corações e a nudez de seus olhos com muito pudor, embora possam exibir com trajes sumários tudo o que tiverem de abundante carne, tanto mal os homens já lhe fizeram por causa disso.  Por mais que se cubra, que porte túnicas largas, o grande volume, o seu pulsar contínuo não permitem que sua anomalia passe despercebida e o odor do sangue parece aguçar o apetite das feras. Como dolorosamente bem descreveu a poeta goiana Yêda Schmaltz (teria ela sido tocada e dotada também de um órgão assim?):
 
Só fizeram mesmo foi trair
os homens que não entenderam o amor
que abre o coração
junto com as pernas.
 
Há pouco tempo, Jane, que de casa não sai senão para o trabalho, para estocar comida ou para pintar as unhas, porque com tal constituição de carne em viva carne já levou muitas flechadas, pedradas para genis e projéteis de tiro ao alvo, conheceu, protegida pela redoma da web, um tal sujeito, por coincidência um doutor em artérias que tinha no lugar do coração uma águia. Na verdade era um tipo de criatura híbrida ou siamesa: o homem e águia dividiam o mesmo coração. É no mundo virtual, não mais nos manicômios ou notre-dame de paris que se ocultam essas corcundas antes expostas nos teatros de horrores ou aprisionadas em celas e corredores lúgubres.

Falaram-se meses ao telefone e Jane julgou que de algum modo se assemelhavam em suas estranhezas e compulsório exílio. Por fotos conheceu “os seus olhos morenos” que lhe metiam “mais medo do que um raio de sol”. Com receio, porém, menos do bico de sua águia do que desses olhos que pareciam ter conhecimentos sobre a constituição e a delicadeza dos vasos, que conseguiam enxergar para além das paredes de tecido; tremendo de temor de que ele pudesse, mais do que outros homens ordinários, com precisão feri-la, propôs-lhe um tipo de trato: que no primeiro encontro, ainda que se sentissem irresistivelmente atraídos, não iriam tocar-se. Firmaram assim tal contrato. Mas ao ir à manicure e escolher o esmalte para a tal noite, deparou com um nome sutil na embalagem: um vermelho vivo, embora não gritante, quase desmanchando-se em laranja e que se chamava “”Me beija”.

Pobre Jane. É que às vezes, cansada do pulsar solitário do seu coração fora de lugar, enfastiada de guardá-lo em redoma, ousa sonhar a suavidade de um toque e sente-se tentada a exibi-lo em profundo decote. Ele, Christofer, atraído, ou pelo decote ou pela estranha bomba pulsante; ela, pelo risco da carícia dolorida do bico recurvo de uma águia em seu peito e nos seus próprios pequenos bicos, sentiram-se fortemente tentados a romper o contrato. A cada um deles faltava, porém, a coragem para o primeiro gesto. Desviando os olhos do colo e do músculo trêmulo, ele observava suas mãos, anéis e unhas pintadas. Investindo-se de temeridade, ela perguntou:

“Sabe como se chama esse esmalte?”

E foi a deixa.

Contrato rompido, estiraram-se na cama de Jane, ela vestida apenas com o verniz das unhas, ele com as penas de sua águia eriçadas. Ignorando, pois, o medo de seus agudos “olhos morenos” e das perspicazes pupilas aquilinas, ela se deixou envolver “nos seus braços serenos” e sentiu que ele já lhe havia arrancado um primeiro naco. E assim como qualquer casal de enamorados gosta de repetir mil vezes as miúdas e insignificantes minúcias que poetizaram seus primeiros encontros, revestindo-os de cor e significado, e como o nome do esmalte fora a senha mágica com que se abrira para eles uma caverna de tesouros e de prazeres, eles passaram a se divertir comentando que os fabricantes de esmaltes deviam manter em seus quadros de funcionários uma meia dúzia de almas sensíveis e criativas com a exclusiva função de denominá-los. “Então as mulheres, ao escolher as cores com que irão tingir as unhas o fazem a partir de seus desejos e intenções?”, ele perguntava. “É claro. Não há nada que uma mulher faça ou escolha que não tenha em vista o amor, por mais que isso esteja oculto para a sua própria alma. E sabem muito bem disso os encarregados de marketing da indústria cosmética”. “Você escolheria bem esses nomes então”. “Eu certamente não poderia trabalhar em tal função, pois sou muito prolixa, faria escolhas baseadas apenas em desejos pessoais, e daria aos esmaltes nomes longos como Me Beija Muito por Esta Noite e por Mil e Uma Noites Mais". Christofer fez mais uma vez o que ela pediu.

Outros encontros assim se deram e em cada um deles seu coração se tornava mais intumescido e acelerado. Para cada um Jane escolhia uma cor diferente e retomava o tema do princípio, ainda tão excitante para os dois. “Este, de vermelho mais intenso e sangrento, se chama Deixa Beijar”. E assim ela provocava a águia e se deixava beijar e bicar. Em certa ocasião, pensou em lhe pedir uma sugestão. “Da próxima vez em que nos encontrarmos, o que você acha de eu usar um chamado Nunca fui santa?”, mas se calou recordando-se que águias, como muitos homens, são animais que caçam solitários e querem crer que foram os primeiros a avistar suas presas. De outra vez, ela se arriscou: “e se eu usasse um outro chamado Amarração para o amor?”, ao que ele que ele retrucou, um tanto ríspido, percebendo a inquietação da águia: “Não creio que seja uma cor que agrade a pássaros”.

Christofer era parcimonioso e muito pouco hábil com as palavras, mas como Jane adorava dormir abraçada a sua voz, recostada àquela águia de penas macias quase sempre silenciosa e que silenciosamente a destroçava. Quando no meio da noite acordava, enquanto ele ainda dormia (os quatro olhos fechados), ela o contemplava em seu sono altivo, pensava nos cumes que ele sobrevoava dentro dos sonhos, em suas acrobacias pelos céus, em seus giros e nas distâncias que percorria, na sua liberdade de pássaro. E pensava em sua própria sina, acorrentada a um coração exposto e pesado. Mas que liberdade, afinal? Que triste também a sina daquela ave enterrada no peito de um homem! E que terrível destino daquele homem que com tal maldição de desejar os ares não poderia desfrutar plenamente do prazer de ter os pés enraizados à terra! E assim, com uma mistura de paixão e compaixão, acariciava as penas que se despregavam dele e em sua pele úmida se prendiam.

Uma noite, usava um esmalte chamado Poema. Contemplando na penumbra as próprias mãos, molhou uma dessas penas com o sangue que de si respingava e desengasgou sobre os lençóis o temor de ser viva devorada:
 
 
Que absurdo isso que faço?
Chegar tão perto de uma águia,
dando-me a ser dilacerada?
Posso então ser tua
e uma espécie de Prometeu?
Ao devorar-me
será que enfim me libertas
dos poemeus acorrentados
que antes estavam presos na garganta
e no alto do Monte de Vê...
... Monte Cáucaso?
Mas qual não é mesmo o preço
de dar o fogo aos homens?
 
Quando Christopher acordou e viu aqueles lençóis de tal forma manchados, teve certo horror, a repreendeu, mas, como ainda lhe restava apetite, por uma última vez voltou. Para o que seria, sem que ela ainda soubesse, o derradeiro encontro, Jane escolheu um esmalte chamado Tâmara. Aquela escolha estava perfeitamente de acordo com o licor tão saboroso mas tão raro que provinha dele, com o gosto de sua boca, que sabia ao sabor singular de pequenas sementes de maçã mastigadas, sementes com que ele também distraía o pássaro. Daquela vez, por 24 horas seguidas, não se levantaram da cama, de tal forma misturados e confundidos que pareciam desafiar as leis da física e ocupar um mesmo espaço. Ela não sentia fome, pois o prazer do amor a anestesiava como um gás hilariante. Ela adormeceu por fim exausta, sonhando que estava acorrentada no alto de um monte, onde um abutre lhe arrancava as vísceras, provocando-lhe o mais atroz dos sofrimentos. E enquanto isso ele partiu, saciado.
           
Haviam programado encontrar-se na semana seguinte. Mas no dia marcado, em um fim de tarde, enquanto o esperava, escolheu um esmalte chamado Entardecer. E teve o pressentimento triste de que:
 
aquele amor entre aberrações
que tão amor
e tão bonito
podia ter sido,
tinha tão cedo,
tão no amanhecer
entardecido
era então
um amor de assombrações
 
Jane contempla agora seus dedos poentes, sem ter mais onde deslizá-los se não no frio teclado seguindo a partitura de seus boletins de ocorrência. Começa a roer-se até a carne, depois os encosta no peito onde já se encontra não um músculo, mas uma espécie de oco. Porém lá no fundo desse vazio sente que algo novo já começa a brotar. Jane tem então uma dúvida: não sabe se deixará as unhas sem cortar ou pintar, para que se quebrem ou lasquem, abandonando-se assim à descrença e à tristeza, ou se colocará longas unhas postiças que pintará de cor negra como uma tigresa, de forma que quando um animal qualquer se aproximar para bicá-la ou abocanhá-la, ela o destroce primeiro. Acho que não escolherá nenhuma de tais alternativas. Já viu que a indústria lançou umas cores tão bonitas e uns nomes tão tentadores: Sereia, Fantasia, Equilibrista, Corda Bamba, Plano Perfeito...

Comentários

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  • 12.10.2014 10:24 Cássia Fernandes

    Obrigada, José Murilo.

  • 11.10.2014 10:12 José Murilo Soares de Castro

    belo texto, parabéns .

  • 12.09.2014 20:20 Cássia Fernandes

    Contente porque você gostou, João Carlos. Que bom que passa por aqui.

  • 12.09.2014 06:40 Joao carlos

    Ufa! Que delícia de texto. Li tudo de uma vez sem respirar. E que poemas deliciosos! Obrigado, Cássia, por me fazer sentir de novo um sentimento que julgava entardecido em mim.

  • 11.09.2014 17:10 Cássia Fernandes

    Msamsa, você está se saindo um bom advogado de seres de ficção. :)Poderia passar-se pela própria águia, não fosse um leitor de Drummond e de Manuel Bandeira.Mas não esse não é o tipo de literatura que certas águias leem. :)

  • 11.09.2014 10:49 Msamsa

    Cássia Fernandes, às vezes a ficção dá asas à imaginação. Não pensei a atitude de Christofer como sendo mesquinha e egoísta, como dessas pessoas que fogem das responsabilidades. Apenas imaginei uma outra causa para sua ação que não fosse o mau-caratismo. Que na impossibilidade de fazê-la feliz, pois, sendo ele águia, não poderia ser passarinho, preferiu se retirar para preservar sua amada Jane. Mas os momentos felizes hão de ficar guardados na memória. E quem sabe, numa manhã solitária, como aquela do "Poema Só Para Jaime Ovalle", ao se lembrar de Jane, poderá sentir o mesmo frio na barriga que sentiu quando, no primeiro encontro, ela revelou o nome do esmalte, dando a deixa para o primeiro beijo.

  • 10.09.2014 19:32 Cássia Fernandes

    Msamsa, não sei se foi isso o que sentiu o pobre menino rico Christofer. Não sou boa narradora onisciente e no máximo sondei os sentimentos de Jane. E de qualquer modo, é difícil explicar o comportamento dos seres de ficção para além da ficção. E na ficção, a história acaba quando termina. Mas de qualquer modo, sua suposição parece coerente com o comportamento dos seres reais nesses tempos em que se almeja tanto a leveza a liberdade, sem fardos ou responsabilidades.

  • 10.09.2014 15:52 Msamsa

    Pobre Christofer, sentiu o quanto Jane esperava dele, muito mais do que poderia dar, ficou assustado e partiu antes que as coisas se complicassem. Ser responsável pela felicidade de alguém não é nada fácil, é um fardo. Gosto muito de ler os seus textos.

  • 10.09.2014 09:08 Cássia Fernandes

    Obrigada, Wesley e Romero.

  • 09.09.2014 23:12 romero melo

    Grato por transformar a sua prosa em poesia. Vou guardar essa imagem: "...Contrato rompido, estiraram-se na cama de Jane, ela vestida apenas com o verniz das unhas...". Uma belíssima construção. Parabéns, moça.

  • 09.09.2014 15:36 Wesley Trigueiro.

    Lindo texto. E fica melhor ainda se lermos ouvindo umas das músicas referidas no primeiro parágrafo.

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