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Fabrício Cordeiro
Fabrício Cordeiro

Crítico de cinema e curador da Goiânia Mostra Curtas 2013 - Mostra Municípios / fabridoss@yahoo.com.br

Sala de Cinema

Rapidinhas brasileiras

Notas sobre filmes brasileiros | 19.11.14 - 10:34
Por Fabrício Cordeiro
 
Umas rapidinhas sobre filmes brasileiros que vi nos últimos meses, a maioria em função da cobertura do VII Janela Internacional de Cinema do Recife que fiz pela revista ] Janela [.
 
 
PERMANÊNCIA, de Leonardo Lacca
 
Gostei de Permanência. Gosto dos desconfortos à procura de algum sabor, da intimidade hesitante, das lembranças que buscam tempo e lugar, do pouco esforço em pontuar as diferenças culturais entre Recife e São Paulo, do movimento dos corpos (a atendente/secretária da galeria de arte que demonstra interesse pelo fotógrafo com uma virada de cabeça lá no cantinho do enquadramento mais aberto, por exemplo).
 
O filme, claro, não é perfeito. Me pergunto se havia mesmo necessidade de pintar o personagem do marido de Rita como um bananão, um pateta de babaquice contida e portanto completamente desinteressante frente ao papel de Irandhir. Aí é fácil.
 
Mas o longa de Leonardo Lacca pode ganhar por saber lidar com sentimentos e comportamentos familiares, por saber identificar com certa naturalidade uma situação delicada entre um (ex)casal, o que o diretor já fazia no curta Décimo Segundo (2007), espécie de ensaio para Permanência.
 
Fora isso, é mais uma oportunidade para se apaixonar por Rita Carelli, e descobrir a nova paixão que pode ser Laila Pas (deveria existir viagem no tempo só para que Pas pudesse voltar aos anos 1960 e ter um filme da nouvelle vague só pra ela). Também dá pra se apaixonar por café derramado em abdômen feminino.
 
 
SANGUE AZUL, de Lírio Ferreira
 
Saí da sessão gostando e hoje não sei mais. Acho que o maior mérito é o de ser todo filmado em Fernando de Noronha e mesmo assim não cair na armadilha de filme cartão postal. E se esse é o maior mérito então temos um problema. Ou vários.
 
É um filme que tinha tudo pra ser bonito, nos sentimentos, nas sensações, no peso das relações ali dispostas. A história do homem-bala (Daniel de Oliveira, filmado por Lírio como o cara mais sarado e desejado do mundo - e no filme o mundo é, de fato, uma ilha, o que só radicaliza o cenário) que volta a trabalhar com o circo onde foi criado e reencontra a irmã na pequena turnê pelo pedaço paradisíaco de Pernambuco, despertando um tesão complicado, é tratado por Lírio com certo lirismo e tentativas de poesia, mas um carimbo de melodrama Rede Globo parece sempre querer se apoderar de tudo ali.
 
Embora tenha vencido o Festival do Rio deste ano, terá o mesmo destino de Árido Movie, de quem ninguém mais se lembra?
 
Bom, Lírio sempre terá Baile Perfumado.
 
 
A HISTÓRIA DA ETERNIDADE, de Camilo Cavalcante
 
Relações conflitantes com o primeiro longa de Camilo Cavalcante, que tem extensa carreira no cinema de durações menores. Cineasta pernambucano de experiência e que demorou a chegar ao longa, portanto grande expectativa, ainda mais no cine São Luiz, lotado, equipe, conhecidos etc, aquele tipo de sessão em que é preciso identificar o que seria comoção automática e o que não seria.
 
Impressão é o de um filme duro, preso, pouco fluido no geral. Engessadíssimo, mas só até se soltar completamente numa cena em que Irandhir Santos, o artista da pequena vila sertaneja que dá lugar à história, canta Secos e Molhados numa performance a céu aberto. A câmera gira ao seu redor, o artista que faz o mundo girar, e Cavalcante parece ter amarrado seu filme para que pudesse existir em função deste momento. É uma cena curiosa e ao mesmo tempo problemática: se Irandhir é grande o bastante para carregá-la (e seria feita se ali estivesse outro ator? Um ator que não estivesse em fase tão presente, querida e badalada?), a cena existe para ser A CENA, para comprar a emoção, levantar o público, baixar sua guarda com golpes forçados. Mas tem Irandhir, e ele é bom, muito bom.
 
O mesmo vale para a cena em que a menina sonhadora é levada a "enxergar" o mar. Câmera giratória se repete, há quase uma vontade de ser um plano-sequência (o sertão dando lugar às águas seria algo incrível sem o uso do corte, mas não vejo como seria possível no contexto da produção), e a negociação emocional de novo se faz presente, desta vez arrancando aplausos durante a sessão. Nada contra catarses, mas A História da Eternidade tem um jogo emocional complicado, que pressiona a fim de não dar espaço para outras sensações.
 
*Dias depois fui ao Cais do Sertão, novo museu de Recife, dedicado à cultura nordestina e sobretudo pernambucana. Há uma instalação de Camilo por lá, intitulada "Retratos", que consiste em 48 depoimentos de nordestinos contando parte de suas histórias de vida (há inclusive um muito célebre e importante, só procurar). Assisti a uns seis deles, a maioria capaz de levar a uma emoção autêntica, de dentro, sem muito esforço e que levarei comigo muito mais que as tentativas do longa.
 
 
PROMETO UM DIA DEIXAR ESSA CIDADE, de Daniel Aragão
 
Até passei a repensar Boa Sorte, Meu Amor (2013), longa anterior de Aragão. Teria o preto-e-branco dosado seus excessos e histrionismos? Mas Aragão só parece saber filmar desse jeito, nos efeitos máximos, na saturação, na luz solar de farol de Scania que vem do fundo e parece obstinada a nos cegar. É estilo, mas pode ser estilo que começa a irritar já neste segundo longa, para mim algo próximo do desastre e que, com esses cacoetes, sequer se distanciam daquele seu curta Solidão Pública, seu trabalho mais egóico.
 
 
SINFONIA DA NECRÓPOLE, de Juliana Rojas
 
Talvez minha maior frustração do Janela do Recife, quem sabe do ano. O filme é produto de um telefilme feito para a TV Cultura, só que na versão de cinema pouco consegue escapar das nítidas amarras televisivas ao qual fora originalmente submetido. Tudo muito fechado, apertado, um humor bobo e que costuma nascer repetitivamente do protagonista abobado. Não pega, não engata, por mais que tenha a astúcia de sugerir uma reflexão sobre especulação imobiliária a partir de um enredo que gira em torno da reestruturação de um cemitério. E sendo um musical, claro. Soa promissor (e é, demais), porém a instigante combinação "Juliana Rojas + cemitério + musical" fica no meio do caminho, um tanto murcha.
 
Ainda assim, inegável que o Filmes do Caixote tem o cinema mais interessante produzido em São Paulo hoje, provavelmente.
 
 
OBRA, de Gregorio Graziosi
 
Desse eu queria gostar mais. Começa muito bem, potente, fazendo tremer as paredes de um cinema gigante como o São Luiz, os prédios tomando campo na tela. É um filme de verticalização, de concreto, de arquiteto, filmado na base de régua e esquadro, o que ironicamente também passa a sabotá-lo, pois insiste tanto na sua forma como caminho para a profundidade que logo se torna redundante e exibido demais. No entanto, tem seus méritos e interesses, inclusive o de colocar Irandhir numa atuação atípica, robótica, concentrada, domada, o que pode incomodar alguns, mas é bom ver o ator coringa do cinema alternativo de maior acesso em papel um tanto "às sombras"; o que não trai o talento de Irandhir, jamais, ele que, como o próprio Graziosi diz, consegue parecer protagonista num filme de múltiplas narrativas como O Som ao Redor.
 
 
A MISTERIOSA MORTE DE PÉROLA, de Guto Parente e Ticiana Augusto Lima
 
Coisa mais porrada e estranha do VII Janela do Recife. Estranha no bom sentido. O novo filme da Alumbramento foi lançado no festival e, não obstante o começo casinha de bonecas, todo requintado, logo tomou o São Luiz com o impacto que um bom cinema fantasma tem de ter. É filme maldito dos bons, com pelo menos uma cena inesquecível de guarda-roupa escuro.
 
Escrito, filmado, atuado e produzido por Guto e Ticiana. Um feito.
 
 
BRASIL S/A, de Marcelo Pedroso
 
O novo de Marcelo Pedroso eu só fui assistir após o Janela de Recife, na Mostra Canavial de Cinema, mais especificamente em Goiana, na Zona da Mata Norte, um dos oito municípios percorridos pela Canavial este ano. Sessão peculiar, pois Goiana está em região canavieira e agora vem se transformando em pólo industrial, com uma fábrica da Fiat impossível de ignorar na chegada à cidade.
 
Adepto do cinema peito aberto e linha de frente, Pedroso aponta seus dedos justamente para esse processo de industrialização, uma pegada acusatória decidida a enfrentar aquilo que uma nublada ideia de progresso teria de mais daninho. Pedroso literalmente mira seus raios exterminadores para uma classe média de outdoors imobiliários maquiados, os hoje conhecidos como coxinhas e que o cineasta faz queimar feito formigas sob uma lupa. Jogo duro.
 
Há, no entanto, o alto risco de Brasil S/A conversar apenas com os já devotos, com aqueles dispostos a confirmar suas posições. Não que eu acredite que Pedroso se preocupe com isso. Seu cinema é assumido demais, e em certa medida é isso que o faz tão interessante, por se colocar em marcha de ataque de rinoceronte desde o começo e não dar trégua (o curta Em Trânsito já deixava isso claro). Fala das mesmas coisas que O Som ao Redor, por exemplo (e, em larga escala, dos mesmos incômodos do Recife/Brasil atual), só que em outro extremo, sem nenhuma discrição.
 
Durante a sessão pode render entusiasmo - sobretudo porque realmente possui momentos de grande cinema, como a sequência do Transporte Cegonha (não lembro se é este o nome correto), o maracatu vitoriano e a coreografia dos tratores -, e o aspecto quase operístico do filme me levou a pensar que Pedroso propunha ali um novo Hino Nacional, cinematográfico, mas alguns dias depois dá uma encolhida. O desfecho, por exemplo, já não sei se simpatizo, se não passaria de uma provocação meio juvenil (de cabeça erguida, contudo; respeito), e que mesmo no balaio das provocações ficaria atrás de um curta tão curioso, e muito mais inspirado, como Zigurate (2009).
 
 
BRANCO SAI, PRETO FICA, de Adirley Queirós
 
Esse é grande. Não maior que A Cidade É uma Só? (2013), mas grande. Já ensaiei escrever algo mais elaborado sobre e até hoje não me arrisquei.
 
É um documentário, e um documentário gradativo dentro de sua hibridez. Cinema híbrido anda em alta, a moda de romper a barreira entre documentário e ficção, e Adirley está acima do modismo (e modismo não significa necessariamente uma desvalorização, ou não deveria, só pra constar).
 
Nas fotos do baile no Quarentão, nos depoimentos em off e, depois, de frente para a câmera, Branco Sai, Preto Fica clareia sua faceta documental, porém sempre inserida não apenas num contexto ficcional, mas de ficção-científica. É um dos filmes mais engenhosos do ano, uma sci-fi que nasce em Ceilândia, periferia do Distrito Federal, e que somente por meio da proposta dessa reinvenção do gênero, ou seja, por meio do cinema, é que encontra um meio de promover justiça.
 
Tem bomba de música. Tem container máquina do tempo. Tem viajante espacial que canta Roberto Carlos. Tem um final que, de tão incrível, enérgico e destemido, pode até ser mal interpretado.
 
Adirley fez uma ópera rap sci-fi periférica. Um filme bem único por aqui.
 
 
CASA GRANDE, de Fellipe Barbosa
 
Tem pelo menos dois dos melhores planos do nosso cinema este ano: o primeiro é o de abertura, um plano geral da residência classe média alta ao anoitecer, com Marcelo Novaes dando uma escorregada após sair da piscina; as luzes se apagando, e a luz do banheiro (ou quarto?) de Jean acendendo.
 
O outro, sem dúvida, é o plano aberto da área externa da casa, no meio do filme, com a profundidade de campo e de foco permitindo observar os quatro personagens dispostos no quadro, todos de alguma forma chamando a atenção para si. Quem observar? Como absorver o plano todo de uma vez, sabendo ser impossível, mas a dinâmica de cena se revelando irresistível, ainda mais por reservar momento memorável na carreira de Novaes (escolha perfeita para um filme que pega estética e chavões de novelas Rede Globo e coloca de cabeça pra baixo).
 
Dá pra questionar muita coisa em Casa Grande (a insistência do discurso, por exemplo, que poderia comprometer sua naturalidade e quase aproximá-lo de uma lista de tópicos espinhosos que se sentiria na obrigação de discutir), mas é como se Fellipe Barbosa tivesse sequestrado Malhação e transformado em bom cinema e num filme muito pessoal.
 
PS: o título internacional é Casa Grande or the ballad of poor Jean. Bonito.
 

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