Pela 5ª vez o mais influente da web em Goiás. Confira nossos prêmios.

Sobre o Colunista

Pablo Kossa
Pablo Kossa

Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG / pablokossa@bol.com.br

O Blog

A modelo e o crack

História de Loemy é mais uma em milhões | 25.11.14 - 10:09


Goiânia - O Brasil teve conhecimento no final de semana, graças à matéria da Veja São Paulo, da história de Loemy Marques. A garota saiu do Mato Grosso para São Paulo tentar a carreira de modelo. Ela tem 24 anos, mas aparenta muito mais. O contraste de suas fotos da capa da publicação que trouxe sua história é impactante: de um lado, bela e maquiada; do outro, acabada e envelhecida. Impossível não se emocionar.


(Foto: reprodução/VejaSP)

A história de Loemy chama mais atenção do olho médio por que ela foge do estereótipo típico do crackeiro. Ela não é preta, não é pobre - mas agora está fodida como os pretos e pobres das esquinas de todas cidades do Brasil. É loira e tem olhos verdes. Teve suporte familiar para tentar a carreira na maior cidade do Brasil. E hoje está igual aquela parcela da sociedade que insistimos em ignorar quando, atrasados para o próximo compromisso, esperamos o sinaleiro ficar verde.

Esse caráter quase invisível do dependente do crack é incômodo. É triste perceber que já é normal ao olhar ver os caras jogados nas calçadas da Câmara Municipal de Goiânia, não incomoda os zumbis andando em volta do Mutirama, não assusta o cara acender um cachimbo no meio da Paranaíba. 

Não nos lembramos que atrás daquele objeto que está nas calçadas como paisagem é um ser humano. Existe uma família por trás dele. Uma mãe, um irmão, uma tia, uma avó, um pai… Alguém se lembra daquele garoto promissor, que fez todos sorrirem dos típicos gracejos de criança e que se transformou em um zumbi. Alguém que trocou fraldas, alguém que amamentou, alguém que nutriu sonhos e que agora definha junto do próprio debaixo de uma fachada da 24 de Outubro.

Se é preciso a história de uma ex-modelo para entendermos que a assistência social no Brasil é pífia, que assim seja. Antes tarde do que mais tarde ainda. As histórias de gente branca e bonita são mais midiáticas, infelizmente. Se o drama de Loemy servir para nos atentarmos aos milhares de dramas que estão nas ruas, a história da garota será ainda mais importante e simbólica.

O caminho é longo e difícil. Tratar uma dependência nunca é algo tranquilo - todo mundo que já tentou parar de fumar, sendo exitoso nesse objetivo ou não, sabe do desafio gigantesco que estamos falando. É preciso muita determinação do indivíduo, vontade de mudar os ambientes que frequenta, oportunidades para recomeçar a vida. Demanda tanto do próprio dependente quanto das pessoas que se importam com ele e também do Estado. 

Loemy é mais uma nessa multidão. Se seus olhos verdes foram suficientes para chamar a atenção do Brasil, tomara que sejam úteis para corrigir a rota de sua vida e, por conseguinte, represente esperança para os outros milhões de crackeiros que apodrecem nas calçadas enquanto nós passamos atrasados levando nossos filhos para a escola.


Comentários

Clique aqui para comentar
Nome: E-mail: Mensagem:
  • 25.11.2014 23:01 Waldes Alves de Souza

    Cara vc me emocionou com o seu texto.Lindas palavras. Mas se emocionar é uma coisa e sensibilizar-se é outra.Complicado ficar esperando sempre do governo. Acho que a sociedade deveria tomar a dianteira desse problema social. O governo é cretino demais e o ser humano, o cidadão comum ainda pode ter salvação. Ajudar de fato.

Sobre o Colunista

Pablo Kossa
Pablo Kossa

Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG / pablokossa@bol.com.br

Envie sua sugestão de pauta, foto e vídeo
62 9.9850 - 6351