Ora, pois!  20.01.2015 16h05
Je suis ou je ne suis pas?

C'est la question


Brasília - Para cada absurdo, um je suis para expressar indignação e adesão. Para cada contra-argumentação, um je ne suis pas – ou um je suis outra coisa - para indicar que há outro lado. Um breve olhar sobre as imagens de manifestações e de indignações – seja nas ruas ou no espaço virtual – e logo se verá que essa história do to be or not to be se aninhou na expressão dos posicionamentos das pessoas. Resumindo opiniões, expressando solidariedades, indicando uma indignação, dá-lhe um eu sou, I am, Yo soy, Je suis.

Para além da boa intenção em expressar solidariedade e estampar um posicionamento, há de se questionar a fácil adesão a uma expressão que pode explicitar nossa parte mais mesquinha e nosso maior desafio enquanto seres humanos: de lidar com aquilo que é diferente de nós mesmos.

Quando dizemos um “eu sou” (na língua que for) isso reflete que nos vemos parte daquilo. Que sentimos e compartilhamos daquela dor porque somos capazes de nos colocar no lugar dela. Porque nos indignamos como se fosse conosco mesmos. Ou, mais prático, por que pensamos: poderia ser eu ali.

Acontece que, no fundo, em nossas identidades pessoais, somos poucas coisas. Muito pouca ou ínfima diante da gigantesca pluralidade da humanidade refletida nas diferenças profundas de cada ser humano diante do outro. Encontrar identidade somente naquilo em que “poderíamos nos ver no lugar” provoca uma limitação sem precedentes. O resultado é que sempre causas importantes vão ser deixadas de fora e seguiremos cegos a importantes problemas que escapam de nossa realidade.

Eu sou brasileira, goiana, mulher, branca, cristã. Minha adesão a certas causas serão bastante óbvias. O desafio é ser capaz de aderir àquilo que é completamente diferente de mim. Que escapa dos meus olhos e do meu coração. Que exige um reconhecimento do outro ainda que completamente diferente de mim (e que bom que é assim).  

Responder um je suis algo com um je suis outra coisa que se opõe (embora todas as causas pareçam dignas de solidariedade) agrava ainda mais tal limitação. Isso porque coloca o sujeito em uma situação em que ele parece ter de definir um lado: ou Je suis Charlie. Ou Je ne suis pas Charlie. 

Ora, é óbvio que sou contra uma resposta a um jornal que tem direito de se expressar (ainda que mal, ainda que passando dos limites, o que não está em questão) que venha com uma força violenta sem medidas. Então je suis Charlie. Mas também é muito razoável que eu possa questionar a xenofobia e islamofobia crescente no continente Europeu. Que possa achar que o humor do jornal passa dos limites e, sobretudo, que é muito oportuno Estados indispostos a acolher imigrantes muçulmanos e prontos para aumentar medidas “anti-terroristas” fazer marchas pela liberdade de expressão. Então, je suis Ahmed.

Aderir a um lado e, com isso, indicar que outro lado não deva receber apoio, não apenas reduz as possibilidades de enxergar e apoiar causas distintas às que temos empatia, como acaba por não conferir gravidade a algo sério.    

O desafio está em apoiar causas, expressar indignações e ser solidários a causas que não tenham nada a ver conosco. Que estejam bastante longe de nossa realidade, trajetória e percepção. Mas que pareçam razoáveis de serem apoiadas porque indicam igualmente violações de humanidade. 

Olhar para o outro sem olhar para si. Ser capaz de reconhecer que o ser humano é muito mais plural e seus problemas são muito mais distintos daqueles que nosso coração mole pode se compadecer. E que temos, por essa mesma pluralidade, muito mais capacidade de ser solidários àquilo que escapa de nossa limitada experiência. 
 
 

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