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Sobre o Colunista

Othaniel Alcântara
Othaniel Alcântara

Othaniel Alcântara é professor de Música da Universidade Federal de Goiás (UFG). / othaniel.alcantara@gmail.com

Música clássica

A maldição da nona sinfonia

| 27.02.15 - 16:28
Goiânia - O universo musical erudito sempre foi um terreno fértil para o surgimento de mitos, lendas e superstições. Um exemplo é a “maldição da nona sinfonia”. Tudo começou com Ludwig van Beethoven (1770-1827) e sua última obra sinfônica. Não estou falando da incompleta Décima Sinfonia, assunto da última coluna, e sim da Sinfonia nº 9, terminada em fevereiro de 1824. Aquela mesma que tem o conhecido tema coral no último movimento, posteriormente, transformado no Hino da União Europeia.

Sinfonia nº 9 “Coral”, em ré menor, Op. 125 de Ludwig van Beethoven regida por Seiji Ozawa no Japão, em 2002
(Obs.: 4º movimento com as vozes solistas e o coral, a partir de 45")

Indiscutivelmente, trata-se de uma verdadeira obra-prima, composta por um Beethoven já completamente surdo. Nela encontramos a genialidade de sua música somada a um dos mais expressivos apelos à paz e à fraternidade entre os povos, o poema “Ode à Alegria”, escrito por seu conterrâneo Friederich von Schiller (1759-1805).  Para muitos melômanos, é algo mais do que música e, para a Unesco, um Patrimônio da Humanidade.
 
O fato é que Beethoven e sua última Sinfonia exerceram grande influência sobre seus sucessores. E mais, parece que também os assombraram. “Um pesadelo universal!” teria dito, certa vez, o compositor francês Claude Debussy (1862-1918). Sobre isso, Harold Schonberg, autor de “A Vida dos Grandes Compositores”, declarou que a Nona se transformou em um modelo contra o qual toda música teria que ser julgada.  Aqui podemos citar o exemplo de Johannes Brahms (1833-1897), que iniciou sua Sinfonia nº1 em 1855 e depois esperou quase vinte anos para tomar coragem de terminá-la. Certa vez, cobrado pelos amigos indagou: “Você não tem ideia do que é ouvir atrás de si os passos de Beethoven?”.
 
Certo é que após a morte de Beethoven, coincidentemente, uma série de importantes compositores não terminaria uma décima obra do gênero; marca facilmente alcançada pelos sinfonistas que o precederam, como Haydn e Mozart, respectivamente com 104 e 41 obras do gênero. Fato perfeitamente justificável, pois o século XIX viu profundas mudanças quanto à maneira de encarar a música. Antes, composições efêmeras, descartáveis, com a função principal de entretenimento. A partir de Beethoven, frequentemente considerado como a ponte entre o Classicismo e o Romantismo, criações mais longas, expressivas, individuais e permanentes do repertório erudito.
 
Contudo, a partir de meados do século XIX essa coincidência acabou se transformando, para alguns, em tabu, forjando assim, a tal maldição. O fato é que dezenas de conhecidos compositores não chegariam ao místico número 9. Alguns exemplos: os alemães Félix Mendelssohn (1809-1847) com cinco sinfonias, Robert Schumann (1810-1856) com quatro, o supramencionado Johannes Brahms (1833-1897) também com quatro e o russo Piotr Ilitch Tchaikovsky (1840-1893) autor de sete obras do gênero (incluindo a Sinfonia Manfred).
 
Para os crédulos, alguns outros padeceram vítimas da famigerada “maldição”, ao alcançarem o fatídico número 9, como o alemão Louis Spohr (1784-1859), o checo Antonín Dvorák (1841-1904) e os austríacos Anton Bruckner (1824-1896), Franz Schubert (1797-1828) e Gustav Mahler (1860-1911). 
 
Entrando de vez no campo das crendices, o exageradamente supersticioso compositor austríaco Arnold Schoenberg (1874-1951), já em 1913, analisando esses dados históricos, disse: “Parece-me que a Nona [de Beethoven] é o limite. Aquele que a quiser ultrapassar terá de partir (...). Aqueles que compuseram uma Nona Sinfonia chegaram perto demais do além”.
 
Um músico em especial embarcou nessa “fantasia” com muito entusiasmo, Gustav Mahler (1860-1911), considerado um dos maiores nomes da música de concerto, tanto como regente quanto como compositor. Dono de uma personalidade ímpar (merece uma coluna à parte) e protagonista de vários outros relatos envolvendo eventos sobrenaturais, tentou driblar a temida “maldição da nona sinfonia”. A história registra que ao terminar a sua nona obra sinfônica em 1909, ele simplesmente riscou o número nove e a publicou com o nome “Das Lied von der Erde” (ou, “A Canção da Terra”), começando um novo trabalho do gênero, completado em 1910.
 

“A Canção da Terra” de Gustav Mahler - Orquestra Filarmônica de Israel/Leonard Bernstein (1972)

Entretanto, ao terminar a obra intitulada por ele como Sinfonia nº 9 (na verdade, a décima) teria exclamado: “agora o perigo passou”. Mas, não foi bem assim. Morreu poucos meses depois, aos 50 anos, vítima de uma endocardite.
 
Finalizando, e espero, satisfazendo a curiosidade do leitor, muitos crédulos consideram o ano de 1953 como o fim da “maldição da nona sinfonia”. Foi quando o russo Dmitri Shostakovich (1906-1975) terminou a décima de suas quinze sinfonias.
 

Comentários

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  • 03.03.2015 07:54 Msamsa

    Agora que passou o risco do nono comentário, comentarei. Gosto muito da combinação Mahler-Bernstein.

  • 02.03.2015 19:48 Nádia Rodrigues Primo

    Scooby-Doo, cadê você meu filho? mais um caso para os detetives Fred, Velma, Daphne, Salsicha e Scooby. Muito legal e interessante! Gostei de ler!!

  • 01.03.2015 18:01 Felix Bauer

    Que belo artigo que nos instiga a refletir sobre os minutos e lendas do mundo musical. Elucidou com cautela e sabedoria os conhecimentos ocultos acerca de Beethoven e suas peripécias e intempéries. Parabéns ao colunista. Bravo!

  • 01.03.2015 17:42 Delson Silva

    Curiosa coincidencia!

  • 28.02.2015 21:52 Reinaldo Soares Rodrigues

    Fantástico, texto! Divertido, interessante e informativo! Parabéns! Você está cada dia melhor professor! Abraço.

  • 28.02.2015 12:21 Luiz Fernando Carvalho

    Pelo sim e pelo não, eu que não me atrevo à escrever nove sinfonias... Ou pelo menos, não colocar em todas o título de "Sinfonia". Mahler safadinho rsrs

  • 28.02.2015 11:28 Wilson Medeiros

    HAha, muito interessante!

  • 27.02.2015 19:12 Sarah Raquel

    É. Não acredito em crendices, mas a história é interessante. Também fiquei curiosa quanto a personalidade do compositor Mahler.

  • 27.02.2015 17:32 Manuela Marques Ribeiro

    Lembrei dessa história na nossa aula de música! O beco ficou excelente!

  • 27.02.2015 17:17 Jonatan González!

    O Professor Rodrigo Carvalho adora contar está historia do Mahler também!...De todas as formas,essas coincidências foram interessantes!

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Othaniel Alcântara é professor de Música da Universidade Federal de Goiás (UFG). / othaniel.alcantara@gmail.com

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