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Pablo Kossa
Pablo Kossa

Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG / pablokossa@bol.com.br

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Quanta dor cabe em um olhar

Imagem revela todo sentimento da cadela | 10.03.15 - 12:01


Goiânia - Semana passada, um caso (outro…) de maus tratos em relação aos animais ganhou repercussão nacional. Em Santa Rita do Sapucaí, Minas Gerais, uma cachorrinha flutuava em um rio dentro de uma sacola plástica. Por conta dessas coisas que só a natureza explica, outro cão percebeu a presença de algo vivo no saco e começou a latir de forma contínua na beira do curso d'água. 

Um casal que estava próximo ficou intrigado com aquilo e resgatou a sacola. Quando abriu, a cadela estava lá dentro. Enlameada, molhada, encolhida. E com um olhar que nem mil páginas conseguiriam traduzir tantos sentimentos ali expressos.

Tristeza, medo, falta de compreensão do que está acontecendo, completamente amuada… A fotografia conseguiu captar todo sentimento de confusão do animal por conta do absurdo que estava vivenciando.

Certa vez consegui perceber esse olhar cheio de significados nos meus cachorros. Há uns dois anos, levei para castrar o meu mais velho, o Xico. Ele sempre ficava incomodado quando o levava ao pet shop onde também funciona a clínica onde ele operou. Afinal é onde toma banho. Só que ele não tinha noção do que lhe aguardava. Minha mulher o buscou e, quando chegou em casa, me direcionou o olhar mais decepcionado do mundo. Eu conseguia ver claramente ele dizendo: "por que você fez isso comigo? Pô, a gente é brother, eu confiava em você  e é isso que recebo em troca?".

Se arrependimento matasse, você não estaria lendo esse texto agora. Aquele olhar me condoeu. Eu não precisava fazer isso com o Xico. Que se danem as recomendações veterinárias! Nenhum ser vivo deveria ser podado dos desejos sexuais. A gente sabe o quanto isso é bom. Por que diabos restringimos essas deliciosas sensações a bichos que dizemos amar? Egoísmo, comodismo, arrogância… Sei lá a explicação! Só sei que, depois disso, nunca mais mandei castrar bicho nenhum.

Agora não sei o que é pior: sentir o ímpeto sexual e não poder atingir a plenitude (não quero um milhão de filhotes pela casa que, me conhecendo como me conheço, pegarei amor e não conseguirei doar nenhum) ou abortar pela raiz. Tudo é ruim, eu sei, mas não consigo chegar a uma conclusão do que é mais aceitável.

O olhar que o Xico me mandou não chega nem perto da carga de sentimentos do da cadelinha resgatada em Minas Gerais. Não é para menos. Não há comparação entre a barra que ela enfrentou em relação a do meu cachorro.

E pensar que tem gente que consegue praticar as maiores crueldades possíveis olhando no olho do bicho, vendo o sofrimento ali na cara. Vai entender a frieza humana, vai entender…


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